Por MICHAEL LÖWY*
O legado de Eleni Varikas é a heresia crítica: um pensamento que via nos párias do mundo a chave para desmontar as engrenagens da dominação

Eleni Varikas, que faleceu em 9 de janeiro de 2026, foi minha companheira durante 45 anos. Por quase meio século, compartilhamos alegrias e tristezas, travamos batalhas juntos e, por vezes, escrevemos ensaios a quatro mãos. Éramos inseparáveis, especialmente nos últimos cinco anos. É difícil, para mim, terrivelmente difícil, aceitar sua ausência definitiva.
Era um espírito rebelde, insubmisso, crítico, mas ao mesmo tempo sutil e profundo. Cheia de energia, era também uma pessoa muito frágil. Generosa, calorosa, alegre, seu sorriso aquecia nossos corações. Ela gostava de cantar e tinha um vasto repertório de canções de todo o mundo, que cantava em grego, francês, inglês, espanhol, italiano e até alemão. Em seu último dia de vida, no hospital, cantamos juntos velhas canções anarquistas italianas.
Nascida em Atenas, filha de Joanna Askitopoulou, uma exilada grega da Ásia Menor, e do crítico literário e jornalista Vassos Varikas – um dos fundadores da oposição de esquerda anti-stalinista na Grécia na década de 1930 –, partiu para Paris em 1971 para fazer uma pesquisa sobre as origens do Partido Comunista Grego, com o historiador do socialismo internacional Georges Haupt. Foi durante o seminário de Haupt que nos conhecemos. Em 1974, com a queda da ditadura dos coronéis, regressou à Grécia e fundou, com um grupo de jovens, a Frente Comunista Revolucionária, cujo jornal, Odophragma (A Barricada), ela editava; assinava seus artigos com o pseudônimo “Vera Gracco”.
Em 1976, ela foi julgada pela publicação de uma versão grega do Pequeno livro vermelho do estudante, o que lhe rendeu uma condenação a vários meses de prisão; essa sentença seria anulada em recurso pelo juiz Sartzetakis (o “pequeno juiz” do filme Z, de Costa Gavras). A partir de 1978, afastou-se de seus primeiros compromissos para dedicar-se resolutamente ao feminismo. Com Costoula Sklavenitis e outras amigas, fundou a Maison d’Edition des Femmes, que traduziu vários textos clássicos do feminismo.
Em 1981, Eleni Varikas chegou a Paris para iniciar uma tese de doutorado sobre as origens do feminismo grego com Michelle Perrot. Foi nesse momento que nos reencontramos e decidimos partilhar nossa vida. Foi, do início ao fim, uma relação intensa e entrelaçada. Sua tese, intitulada La révolte des dames. Genèse d’une conscience féministe dans la Grèce du XIXe siècle (1833-1908), foi apresentada na Universidade de Paris VII em 1986 e recebida pela banca de avaliação com menção honrosa, com felicitações, por unanimidade. Ela foi publicada na Grécia, pela editora Archives Historiques, em 1987. Por falta de competência, não pude ajudar muito Eleni em sua pesquisa, mas sugeri o título para a tese…
Depois de lecionar, como convidada, na Universidade Livre de Bruxelas, e na Universidade de Lausanne, e exercer vários empregos precários em universidades parisienses, Eleni foi finalmente contratada como professora adjunta no Departamento de Ciências Políticas da Universidade Paris 8 (Vincennes-Saint-Denis) em 1991. Uma trajetória acidentada, típica dos “metecos” no mundo universitário francês… Seu ensino não era fácil, e ela era bastante exigente com seus alunos, mas eles e elas a admiravam enormemente.
Nos anos seguintes, seus ensaios sobre feminismo, de um ponto de vista dissidente, crítico e anticonformista, deram a volta ao mundo, rendendo-lhe inúmeros convites: Centro de Estudos Europeus de Harvard, Instituto Universitário Europeu de Florença, etc., etc. Eu a acompanhava nessas viagens, e ela me acompanhava nas minhas estadias nas universidades brasileiras. Seus escritos eram lidos, estudados e discutidos não só na França e na Grécia, mas também nos Estados Unidos, Brasil, Itália, Espanha e em outros lugares.
Eleni interessava-se muito pela Escola de Frankfurt e, em particular, por T. W. Adorno, um autor pelo qual nutria grande carinho. Escrevemos juntos um ensaio sobre Adorno, “L’esprit du monde sur les ailes d’une fusée. La critique du progrès chez Adorno”, Revue des Sciences Humaines, Lille, n.º 229, janeiro-março de 1993. Traduzido para o inglês, este ensaio teve algum sucesso nos Estados Unidos.
Com um espírito profundamente universalista, Eleni interessava-se não só pelas mulheres, mas por todos os oprimidos: escravos, judeus, proletários. Seu livro magistral, Les rebuts du monde. Figures du paria (Stock, 2007) propõe uma reflexão sobre os diferentes grupos sociais, tratados como párias ou que se identificam como tal, discutindo os escritos/testemunhos de Flora Tristan ou Bernard Lazare e as análises de Max Weber ou Hannah Arendt. É um livro único, que não tem equivalente na literatura sociológica.
Em 2005, Eleni obteve sua habilitação para dirigir pesquisas e tornou-se, de 2006 a 2012, professora de teoria política e estudos de gênero na Universidade Paris 8. Sua tese de habilitação, publicada sob o título Penser le sexe et le genre (PUF, 2006), propunha-se analisar a diferença entre sexos e gêneros em sua dimensão propriamente política. Num gesto típico de seu espírito irreverente, Eleni começa a habilitação – este texto “acadêmico” por excelência – com um elogio imoderado à figura mítica do Zorro, com quem a jovem Eleni se identificava, recusando o papel de gênero da “noiva do Zorro”.
Durante esses anos, Eleni organizou, com amigas e colegas, duas antologias que ficariam marcadas: Les femmes, de Platon à Derrida. Anthologie critique, Plon, 2000, 829 p. (com F. Collin , E. Pisier) e Sous les sciences sociales le genre. Relectures critiques de Max Weber à Bruno Latour, Paris, La Découverte, 2010, (com D. Chabaud, V. Descoutures, A-M. Devreux).
Paralelamente, ela continuou seu trabalho de pesquisa e exerceu funções de direção em vários laboratórios: por exemplo, diretora adjunta e depois diretora da equipe GTM (Gênero, Trabalho e Mobilidades)/CRESPPA –CNRS/Paris 8, entre 2010 e 2012. Em 15 de abril de 2013, realizou-se uma jornada de estudos em sua homenagem no Site Pouchet do CNRS. Sob o título Genre, féminisme et politique – autour des travaux d’Eleni Varikas, ela foi organizada pela equipe GTM/CRESPPA do CNRS.
O envolvimento de Eleni não era apenas intelectual. Assim, em 2003, ela foi uma das organizadoras da campanha de solidariedade com um revolucionário (“trotskista”) grego, Theologos Psaradellis, injustamente acusado pelos tribunais de ter participado de ações terroristas. Graças à campanha, Psaradellis foi finalmente absolvido. E, alguns anos depois, ela mobilizou-se em defesa de seu aluno italiano Paolo Persichetti, exilado na França, mas procurado pela polícia italiana; desta vez, não conseguiu evitar sua extradição…
Eleni e eu compartilhávamos o mesmo interesse por Max Weber, um grande pensador que não era socialista nem feminista, mas que não deixava de contribuir muito para nossa reflexão. Escrevemos em conjunto vários ensaios sobre Weber. O último, intitulado “Max Weber and Anarchism”, foi publicado na revista Max Weber Studies (julho de 2022) e posteriormente traduzido para grego, português, espanhol e francês.
Em 2017, Elsa Dorlin e Isabelle Clair tiveram a excelente ideia de reunir alguns dos escritos de Eleni, sendo cada texto precedido do comentário de um amigo ou colega. Participei deste livro, Eleni Varikas: pour une théorie féministe du politique (Ed. iXe, 2017), com um pequeno comentário sobre um desses escritos, que reproduzo aqui.
Eleni deixou-nos em janeiro de 2026, uma perda irreparável para quem compartilhou sua vida com ela desde 1981. Mas ela nos legou uma rica herança intelectual e política, profundamente humanista, universalista e subversiva.
O império monstruoso das mulheres
Breve comentário sobre o ensaio “Naturalisation de la domination et pouvoir légitime dans la théorie politique classique”, em Delphine Gardey e Ilana Löwy, L’Invention du Naturel. les sciences et la fabrication du masculin et du féminin, Paris, EAC, 2000.
Eleni Varikas convida-nos neste ensaio a uma viagem fascinante através de dois séculos de teoria política moderna. Visitando a gloriosa Florença do Renascimento (Pico della Mirandola, Maquiavel), Paris submersa pelas guerras religiosas (Bodin) ou Londres durante a Guerra Civil (Hobbes), com uma passagem indispensável pelo Parlamento de Bordeaux (Montaigne!), ela aborda alguns textos “canônicos” com uma abordagem nova, original e perfeitamente não conformista.
O ensaio se destaca por sua extraordinária capacidade de evitar uma série de armadilhas nas quais caem muitos trabalhos de história ou ciência política. São oito pecados capitais da ciência social moderna (lista não exaustiva):
1) A armadilha (positivista) da “neutralidade científica” ou “objetividade livre de juízos de valor”. O ensaio reivindica, sem hesitação, a teoria do ponto de vista, comum a Marx, Mannheim e às feministas (Christine Delphy, Nancy Hartsock e muitas outras): “Porque os sujeitos do conhecimento têm pontos de vista e paixões diferentes, porque estão situados de forma diversa nas relações sociais (…) não pode haver um conhecimento indiscutível da natureza das coisas sobre o qual possamos assentar princípios políticos” (p. 93). Uma vez que não existe conhecimento “indiscutível”, a discussão está aberta! O ensaio não emite “julgamentos” categóricos, mas procura desenvolver um ponto de vista crítico e desmistificador sobre os discursos de legitimação das hierarquias sociais.
2) A armadilha da disciplinaridade, que aprisiona tantos trabalhos na camisa de força das disciplinas acadêmicas, com o resultado de um empobrecimento considerável da pesquisa. O ensaio transgride alegremente essas fronteiras artificiais, através de uma abordagem “indisciplinada” que associa história social, filosofia política, teoria do gênero, antropologia. Só faltou a literatura, mas ela se encontra, abundantemente, em outros trabalhos da mesma autora.
3) A armadilha da teoria das “mentalidades” (Escola dos Annales) ou da “episteme” (Foucault) que afirma que as concepções de uma determinada época pertencem necessariamente ao mesmo horizonte cultural, ou a um paradigma epistemológico insuperável. O ensaio mostra que autores de uma mesma época, do mesmo país, às vezes da mesma cidade, pensam de maneira muito diferente, senão contraditória. As hipóteses otimistas de Pico della Mirandola sobre as múltiplas potencialidades da natureza humana não são antípodas das hipóteses amargas e pessimistas de outro ilustre florentino, Nicollo Machiavelli? Ou, para dar um exemplo do século XVII inglês, uma personagem como Mary Astell não é suficiente para refutar categoricamente a hipótese de que a “mentalidade” desta época não admitia questionar a inferioridade “natural” das mulheres? Apenas algumas décadas separam Bodin de Etienne de la Boétie, mas eles não compartilham nenhuma “episteme” comum em sua maneira de legitimar (para o primeiro) ou rejeitar (para o segundo) o postulado da submissão natural da multidão à vontade do Um.
4) A armadilha da ciência social gender-blind, que permanece surda e cega à dimensão do gênero na sociedade e na teoria política. Não se pode discutir o conceito de “povo” dos filósofos políticos ingleses do século XVII sem levar em consideração que, como diz cruamente James Tyrell – esse grande pensador Whig (liberal), amigo íntimo de Locke e paladino da “Revolução Gloriosa” de 1688 –, em Patriarcha non monarcha (1681), o povo exclui “a multidão indiferenciada de mulheres e crianças”. O ensaio mostra-nos que a questão da submissão das mulheres atravessa toda a reflexão política “clássica” da modernidade.
5) A armadilha da naturalização das hierarquias sociais, ou das instituições políticas, que não se limita, longe disso, aos grandes autores da teoria política dos séculos XVI e XVII. O ensaio lembra que a idade de ouro desse naturalismo pseudocientífico foi o século XIX, mas em outros trabalhos da autora vemos claramente que se trata de uma forma de pensamento que permanece muito presente nos séculos XX e XXI. A crítica a esse paradigma é o tema principal do ensaio.
6) A armadilha de explicar fenômenos como a caça às bruxas apenas por fatores “irracionais”, como o fanatismo religioso ou a superstição. O ensaio mostra todo o lugar do cálculo político “racional” nesta guerra de extermínio contra “o império monstruoso das mulheres” (John Knox), que causou um milhão de mortos na Europa, do final do século XVI ao início do século XVII. Bodin, esse grande teórico racional do Estado absolutista e da tolerância religiosa, não era o autor de um tratado de demonologia e um defensor ferrenho da caça às bruxas? Como mostra Ginevra Odorisio, a respeito do mesmo Bodin, existe uma continuidade teórica impressionante entre os imperativos da soberania e os da perseguição às bruxas: a ameaça que representa a “periculosidade pública das mulheres”. Na mesma época, no mesmo país, Montaigne recusa a extorsão de confissões de bruxas por meio da tortura e critica o poder discricionário dos magistrados, escolhendo “a justiça universal” contra “a necessidade de nossas polícias”, ou seja, a honestidade em vez da utilidade (ao poder real).
7) A armadilha de um estudo abstrato, formal e puramente “lógico” das obras de autores como Bodin ou Hobbes. São escritos de grande rigor e coerência intelectual, mas, como destaca o ensaio, são incompreensíveis se fizermos abstração do contexto histórico, dos interesses políticos e sociais em jogo e, sobretudo, da ameaça que a “multidão de várias cabeças” representa para as elites dominantes. Face à insubmissão, às heresias e aos problemas sociais, mas também à multiplicação das ideias de liberdade e igualdade, testemunhadas nos debates de Putnam (1647) e Whitehall (1648) – sem mencionar a evidência sólida que representa a decapitação do rei Carlos Stuart –, os filósofos do absolutismo percebem que a legitimação do poder pelo direito divino não é mais operacional e que é urgente encontrar outros fundamentos doutrinários para garantir todo poder ao soberano Leviatã.
8) A armadilha de uma visão linear da história como progresso, onde a racionalidade, a ciência e a secularização conduzem a mais igualdade e liberdade. Esta armadilha é talvez a mais difundida: é compartilhada por jornalistas e acadêmicos, pela direita e pela esquerda, por filósofos conservadores e progressistas, em suma, é uma daquelas pressuposições tão evidentes que nem sequer é necessário legitimá-la.
No entanto, o ensaio destaca as formas pelas quais a racionalidade e a ciência são colocadas a serviço da naturalização das desigualdades e opressões. A autora não hesita em abalar a imagem de alguns Grandes Homens da cultura francesa, lembrando, por exemplo, que, segundo René Descartes, “Deus estabelece as leis matemáticas como o rei estabelece as leis em seu reino”. Mas foi sem dúvida Hobbes quem melhor percebeu que o único fundamento sólido para o poder absoluto do soberano é o “conhecimento científico” da natureza humana. Se, “naturalmente”, o homem é um lobo para o homem, somente o Leviatã pode salvá-los do Behemoth, ou seja, do espectro da guerra civil perpétua. Por sua brutalidade, observa a autora, Hobbes “permite esclarecer as afinidades eletivas que ligam a ressacralização da autoridade política ao desenvolvimento da ciência moderna”.
Quanto ao poder conjugal do homem sobre a mulher, foi o liberal Locke quem lhe deu legitimidade racional e científica: o homem é naturalmente “o mais capaz e o mais forte”. Fundado na natureza, o poder doméstico masculino é o garante da propriedade privada e de sua transmissão hereditária. A secularização e a racionalização promoveram a transferência da legitimação da dominação do domínio religioso para o da natureza, sem, no entanto, questionar as hierarquias sociais e políticas.
Este artigo, como toda a obra de Eleni Varikas, faz parte de uma tradição herética e minoritária que não hesita em contrariar as doutrinas hegemônicas, obstinadamente, como ela lembra em sua conclusão, “ver na naturalização da dominação (dos sexos, das raças, dos povos, das classes) um produto da relação de força, uma modalidade do monopólio da violência”.
*Michae Löwy é diretor de pesquisa em sociologia no Centre nationale de la recherche scientifique (CNRS). Autor, entre outros livros, de Marx, esse desconhecido (Boitempo). [https://amzn.to/3FaMmEe]
Tradução: Fernando Lima das Neves.























