Em destaque – XIV

Imagem: Stela Grespan
image_pdf

Por BENICIO VIERO SCHMIDT*

Comentário sobre acontecimentos recentes

O primeiro destaque é a confusão a respeito do Renda Brasil. Depois de autorizar estudos no Ministério da Economia, o presidente negou a possibilidade de apresentar qualquer programa, especialmente se visa “tirar dos pobres para dar para os paupérrimos”. Depois dessa declaração a ameaça de congelamento das aposentadorias e pensões por dois anos saiu da pauta.

Jair M. Bolsonaro adotou uma estratégia aparentemente confusa, para dizer o mínimo, que põe em xeque a presença e o poder do ministro Paulo Guedes à frente da economia brasileira. De qualquer forma, fica pendente a indagação sobre o que farão para atrair, em 2022, os votos dos eleitores pertencentes às faixas de menor renda. A proposta inicial foi o Bolsa Família ampliado, depois o Renda Brasil. Qual será a próxima?

De outro lado, o presidente vetou, com uma manobra esperta, o projeto de isenção dos tributos e da receita fiscal das igrejas. Parece uma operação do mundo da fantasia, porque ao mesmo tempo em que faz isso, ele pede que o Congresso rejeite o seu veto – numa incongruência ímpar – e promete uma Proposta de Emenda Constitucional tratando dessa questão, abrangendo igrejas de todos os credos.

Isso significa que a solução do veto à isenção e à anistia das dívidas das igrejas é meramente temporário. Resta saber se o novo projeto presidencial virá antes ou depois do fim de outubro, prazo que o Congresso tem para se manifestar sobre o veto presidencial.

Muitos manifestam surpresa com a insistência do ministro Paulo Guedes em permanecer no Ministério depois de mais uma reprimenda pública do presidente. Cabe lembrar que embora essa e alguma outra medida não estejam sendo aprovadas por Jair M. Bolsonaro, muitas medidas orientadas por Paulo Guedes estão sendo adotadas sem qualquer resistência por parte do poder executivo, do legislativo ou do judiciário. É o caso, por exemplo, da venda das subsidiárias e do fechamento das refinarias da Petrobrás.

Por conta de um artigo autocrítico do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso no fim de semana retrasado, voltou-se a discutir a questão da reeleição. O deputado Alexandre Molon apresentou ao Congresso Nacional um projeto de lei que impede a reeleição. As possibilidades de aprovação de um projeto dessa natureza são, em princípio, muito baixas. Um levantamento dos grandes jornais, no fim da semana passada, mostra, porém, que 15 dos 24 partidos com representação parlamentar concordam com uma revisão do instituto da reeleição. Talvez ocorra uma mobilização nesse sentido, mas não com um desenlace imediato.

Na área do meio-ambiente, o general Mourão – diretor presidente da Comissão do Conselho da Amazônia – continua a brigar com os fatos. As reservas do Pantanal têm índices de incêndio que chegam a 70% de seus territórios, as queimadas na Amazônia nunca foram tão fortes e freqüentes como agora. O general Mourão, no entanto, continua alegando é uma conspiração dos funcionários de INPE interessados em divulgar apenas dados negativos.

Trata-se evidentemente de uma inverdade que amplia a imagem negativa do país no exterior. O pagamento dos custos das aeronaves que fazem o combate mais efetivo às queimadas, por exemplo, eram pagos com fundos ofertados pelos governos da Alemanha e da Noruega. Tais fundos foram suspensos, devido à política ambiental brasileira. Com isso, não há aeronaves do IBAMA trabalhando nos incêndios. Isso é um poderoso ponto negativo na deflagração da catástrofe ambiental brasileira.

Além disso, enquanto a crise ambiental aumenta o governo anuncia um corte considerável – que chega até a 34% em certos setores – nas verbas destinadas a dois dos órgãos responsáveis pela preservação do meio-ambiente, o ICMBio (Instituto Chico Mendes) e o IBAMA. Ou seja, justamente quando é mais necessário o governo recusa os fundos europeus destinados para o combate ao fogo e à devastação e anuncia cortes de recursos em suas principais agências ambientalistas.

*Benicio Viero Schmidt é professor aposentado de sociologia na UnB. Autor, entre outros livros, de O Estado e a política urbana no Brasil (LP&M).

 

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Rússia e China na guerra no Irã
18 Mar 2026 Por VALERIO ARCARY: No xadrez geopolítico da guerra contra o Irã, Rússia e China movem suas peças com cautela: Moscou não pode, Pequim não quer — e o regime persa descobre, na solidão estratégica, que alianças têm limites quando os interesses das potências apontam em outra direção
2
Em defesa das bibliotecárias e bibliotecários
12 Mar 2026 Por FELIPE SANCHES: As bibliotecas estão atravessadas pela política e, se negarmos seu papel político, fechamos os olhos ao seu papel estratégico no desenvolvimento cultural, educacional, científico e econômico do Brasil
3
No radar geopolítico – EUA x Irã
14 Mar 2026 Por RUBEN BAUER NAVEIRA: O que o Irã pretende é forçar os americanos a pedirem por negociações que não serão por algum "cessar-fogo", mas que envolverão concessões dolorosas, como o fim de todas as sanções e o desmantelamento das bases militares americanas no Oriente Médio
4
Os impactos da guerra no Irã
16 Mar 2026 Por LUIS FELIPE MIGUEL: Ao atacar o Irã sem estratégia, Trump revela o vazio de sua política externa e a submissão a Israel; no Brasil, o impacto imediato é a alta dos combustíveis, que exige do governo Lula coragem para romper de vez com a paridade internacional e proteger a economia popular do choque inflacionário
5
A “filosofia” do cérebro podre
15 Mar 2026 Por EVERTON FARGONI: Uma crítica radical à colonização algorítmica da consciência, onde a promessa de prazer imediato culmina na falência do pensamento, da autonomia e da vida democrática
6
Além de Jürgen Habermas e Richard Rorty
19 Mar 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: Ou nos parecemos com o que a Inteligência artificial e a internet nos fornece, ou não acreditamos na nossa própria realidade! Estamos no mundo, ontologicamente, se estamos na infosfera
7
Hamnet – a vida antes de Hamlet
11 Feb 2026 Por GUILHERME E. MEYER: Comentário sobre o filme de Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
8
Pecadores
16 Mar 2026 Por BRUNO FABRICIO ALCEBINO DA SILVA: Comentário sobre o filme dirigido por Ryan Coogler , premiado com quatro estatuetas no Oscar 2026
9
Jürgen Habermas (1929-2026)
16 Mar 2026 Por MARCO BETTINE: Filósofo da esfera pública e do agir comunicativo, Habermas recusou o pessimismo da primeira geração frankfurtiana para mostrar que a modernidade ainda pode fundamentar racionalmente a crítica social
10
Fernando Haddad entrevistado por Breno Altman
19 Mar 2026 Por RODRIGO PORTELLA GUIMARÃES: Há uma relação de trabalho muito diversa do operariado dos séculos XIX e XX, que implica um novo projeto de esquerda. Precisamos compreender na prática as novas frações de classe e desafios, provocação central ofertada por Fernando Haddad
11
Um país (des)governado
13 Mar 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: A guerra no Irã não é imperialismo, é o espasmo de um país sem projeto, governado por um homem que trocou promessas por bombas
12
A pornô-política
14 Jun 2020 Por RICARDO T. TRINCA: O político obsceno tem prazer pelo domínio, sob a forma de uma prestidigitação, algo que pode ser encontrado também nos mágicos
13
Sonhos de trem
14 Mar 2026 Por VANDERLEI TENÓRIO: Comentário sobre o filme dirigido por Clint Bentley.
14
Por que a música?
15 Mar 2026 Por FRANCIS WOLFF: Trecho da primeira parte do livro recém-editado
15
A arte ante o neoliberalismo - parte 1
17 Mar 2026 Por LUIZ RENATO MARTINS: De que modo a tônica pró-capitalista envolve e afeta as artes e o público hoje em processo de formação, e, principalmente, as novas gerações universitárias, que, em breve, assumirão posições proativas no quadro da cultura brasileira?
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES