As ideias precisam circular. Ajude A Terra é Redonda a seguir fazendo isso.

Escravidão na serra gaúcha

Imagem: Omar William
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por EDSON BALESTRIN*

Hoje, os bisnetos dos imigrantes italianos vivem bem, mas muitos o fazem explorando os necessitados

Nós, nascidos, criados e moradores da região da serra gaúcha, precisamos parar, olhar para nossas origens e repensar o que somos, fazemos e queremos. Excetuando-se, por ora, o apagamento da trajetória indígena, nossa região está às portas de completar 150 anos por conta da chegada dos imigrantes italianos. E sejamos objetivos quanto a nossas bisavós.

Muitos de nós já tiveram a oportunidade de conhecer a casa natal dos antepassados, invariavelmente um casarão insalubre em que várias famílias dividiam áreas comuns nos poucos momentos em que não estavam trabalhando as terras de um senhor para receber a terça, e olhe lá. Analfabetos, mas sem culpa, pouco tinham como se defender num momento de intensa reorganização política, econômica e social pelo qual passava não só a Itália, mas praticamente toda Europa impactada pela segunda Revolução Industrial.

Alguns até puderam dar-se ao luxo de decidir pela migração à ’Mérica, mas muitos foram expulsos porque eram um peso para a nação que se estabelecia. Além de que há registros de que alguns foram expatriados por crimes cometidos. Ma da romai i era tuti bona gente.

Os italianos que foram para São Paulo substituíram a mão de obra dos escravos negros quase nas mesmas horrendas condições, enquanto que os italianos chegados ao Rio Grande do Sul tiveram a sorte de poder fazer a própria sorte. Mas isso significava derrubar uma floresta, enfrentar animais, epidemias, entre mil outros medos. Com muito sparagnar e outro tanto de desprezo pela educação, aos poucos o capital se acumulou, bem como a discriminação, o racismo, a xenofobia. A região tornou-se uma potência de riqueza e de falso moralismo.

A soberba de uma superioridade étnica e moral deslumbra os bisnetos. O que não falta é gringo enaltecendo-se pela narrativa da superação dos bisavôs. Poucos destes cidadãos de bem se interessam em pesquisar que o bisnonno teve que detonar os pulmões trabalhando em mina de carvão por uns trocados que permitissem iniciar uma lavoura na colônia, que o nonno teve que ser agregado pela terça na colônia alemã para pagar as contas, que o outro nonno implorou para pode ajudar na instalação da ferrovia em troca de uns pilinhas que dessem um pouco de segurança além do cotidiano escambo.

Mas aqueles que conhecem a história além do estereótipo sabem transpor o entendimento das condições precárias passadas para um exercício de empatia por quem vive a mesma situação contemporaneamente – e com a acréscimo de choques elétricos e spray de pimenta em caso de atrito. E há quem ache ruim que não varriam o alojamento e buscavam alívio na bebida.

Hoje, os bisnetos dos imigrantes italianos vivem bem, mas muitos o fazem explorando os necessitados tal qual um dia aconteceu com os próprios bisnonnos. Arrotam polifenóis dizendo que política assistencial é para vagabundo, quando na verdade só estão aqui porque os bisnonnos sem-terra tiveram auxílio do governo – e muito –, seja para obter um lote, para adquirir ferramentas, para ter direito a parcelamentos e até anistias.

Decantam notas cítricas para dizer que baiano por aqui não serve, como se há 150 anos não tivessem sido nossos bisnonnos que se submeteram a condições brutais em razão da sobrevivência tal qual fazem agora os baianos, tal qual fizeram os do oeste catarinense, os da fronteira sul, todos que vêm para cá, porque é sempre o pobre que se submete, é sempre o pobre que não tem escolha e precisa se submeter ao gringo que olha de cima para baixo, os pobres que são pessoas cheias de incertezas, que apostam tudo para recomeçar a vida, abandonando familiares e partindo para um lugar distante, desconhecido, inóspito.

Uma comunidade com a história de precariedade como a nossa votar em política de opressão, apontar dedo, julgar sem provas, rechaçar quem pensa diferente e humilhar quem depende de auxílio só pode colher prejuízo. E o prejuízo desse preconceito exacerbado virá, na dificuldade em vender nosso vinho, no desaparecimento de turistas. Já somos manchete na Folha de S. Paulo, recebemos intermináveis minutos de destaque no Jornal Nacional, temos abaixo-assinados e notas de repúdio provenientes de todo o país.

Caso a Serra Gaúcha não consiga compreender o próprio passado de dificuldade e reverter isso numa cultura de respeito para com o outro, caso não reflita sobre a imagem que está consolidando perante o Brasil, o dano vem. E vai faltar vinho para afogar as mágoas.

*Édson Balestrin é juiz aposentado.

O site A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
Clique aqui e veja como

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
Otaviano Helene Antônio Sales Rios Neto Julian Rodrigues João Paulo Ayub Fonseca Everaldo de Oliveira Andrade Ronald León Núñez Elias Jabbour Gabriel Cohn Afrânio Catani Ronald Rocha Valerio Arcary Vinício Carrilho Martinez Denilson Cordeiro João Sette Whitaker Ferreira Anderson Alves Esteves Rodrigo de Faria José Geraldo Couto João Carlos Loebens Leonardo Sacramento Remy José Fontana Tarso Genro Manchetômetro Jean Marc Von Der Weid Ladislau Dowbor João Carlos Salles Benicio Viero Schmidt José Micaelson Lacerda Morais Salem Nasser Paulo Martins Daniel Brazil Ricardo Antunes Rubens Pinto Lyra José Dirceu Armando Boito Daniel Costa Claudio Katz Luiz Roberto Alves Lorenzo Vitral Eduardo Borges Jorge Branco Gilberto Maringoni Anselm Jappe João Adolfo Hansen Roberto Noritomi Luis Felipe Miguel José Costa Júnior Kátia Gerab Baggio Renato Dagnino Igor Felippe Santos Heraldo Campos Maria Rita Kehl Lucas Fiaschetti Estevez Airton Paschoa Alexandre de Lima Castro Tranjan Tales Ab'Sáber Marilena Chauí Bento Prado Jr. Gilberto Lopes Samuel Kilsztajn Fernando Nogueira da Costa Francisco de Oliveira Barros Júnior Luiz Costa Lima Marcos Silva Walnice Nogueira Galvão Caio Bugiato Eliziário Andrade Annateresa Fabris Leonardo Boff Henri Acselrad Eugênio Bucci João Lanari Bo Dennis Oliveira Marilia Pacheco Fiorillo Marjorie C. Marona Daniel Afonso da Silva Eleonora Albano Vanderlei Tenório Boaventura de Sousa Santos Luís Fernando Vitagliano Bruno Fabricio Alcebino da Silva Henry Burnett Chico Alencar Fernão Pessoa Ramos Paulo Capel Narvai Juarez Guimarães Francisco Fernandes Ladeira Flávio R. Kothe José Luís Fiori Valério Arcary Flávio Aguiar Slavoj Žižek Jean Pierre Chauvin Dênis de Moraes José Machado Moita Neto Vladimir Safatle Mariarosaria Fabris José Raimundo Trindade Alexandre Aragão de Albuquerque Gerson Almeida Antonio Martins Paulo Nogueira Batista Jr Sergio Amadeu da Silveira Yuri Martins-Fontes Celso Frederico Michael Löwy Lincoln Secco Jorge Luiz Souto Maior Carlos Tautz André Singer Paulo Sérgio Pinheiro Thomas Piketty Rafael R. Ioris Alysson Leandro Mascaro Luiz Eduardo Soares Atilio A. Boron Bernardo Ricupero Andrew Korybko Luiz Carlos Bresser-Pereira Paulo Fernandes Silveira Marcus Ianoni Bruno Machado Luiz Marques Plínio de Arruda Sampaio Jr. Mário Maestri Ari Marcelo Solon Sandra Bitencourt Priscila Figueiredo André Márcio Neves Soares Marcelo Guimarães Lima Marcelo Módolo João Feres Júnior Érico Andrade Eugênio Trivinho Ronaldo Tadeu de Souza Berenice Bento Francisco Pereira de Farias Marcos Aurélio da Silva Alexandre de Freitas Barbosa Eleutério F. S. Prado Milton Pinheiro Antonino Infranca Ricardo Abramovay Celso Favaretto Luiz Renato Martins Luiz Werneck Vianna Leda Maria Paulani Osvaldo Coggiola Michael Roberts Luciano Nascimento Chico Whitaker Roberto Bueno Ricardo Fabbrini Luiz Bernardo Pericás Liszt Vieira Tadeu Valadares Fábio Konder Comparato Ricardo Musse Carla Teixeira Manuel Domingos Neto Leonardo Avritzer

NOVAS PUBLICAÇÕES

Pesquisa detalhada