Feminismo popular

Shikanosuke Yagaki, Detalhe do corrimão, 1930–9
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Por VICENÇ NAVARRO*

As diferenças de classe social entre as mulheres e suas implicações para o desenvolvimento de políticas públicas relevantes

Este artigo refere-se às diferenças de classe social que existem entre as mulheres e suas implicações para o desenvolvimento de políticas públicas relevantes para as mulheres (e para os homens).

Entre os homens, a forma de expressar seu machismo (a forma de oprimir as mulheres) depende, em grande parte, da classe social da pessoa que o manifesta. Claro que há pontos e comportamentos comuns, mas sempre, ou quase sempre, a classe social do homem define muito fortemente como tal machismo é expresso. Não é, portanto, surpreendente que o mesmo ocorra entre as mulheres (num comportamento precisamente oposto ao machismo). A bem-vinda conscientização das mulheres, como coletivo social, da necessidade de conquistar os mesmos direitos que os homens, também é marcada de forma muito palpável pela classe social à qual a mulher pertence ou representa. Daí a pluralidade de movimentos feministas.

Isso ficou claro há alguns dias num evento de grande visibilidade midiática nos EUA, e que ocorreu na Universidade de Harvard, a instituição acadêmica com mais recursos, mais rica e mais poderosa dos EUA. Esta universidade tem 37 bilhões em endowment (ou seja, em bens sobre os quais gerar rendimentos). As matrículas dos estudantes são uma parte minúscula de seus rendimentos e, com tais propriedades, tornou-se um dos mais importantes centros de fundos de investimento do país. O fato de ser uma instituição de ensino é outra atividade que lhe dá nome, mas a maioria de seus fundos é obtida através dos investimentos de seu endowment.

A riqueza de recursos é, portanto, sua característica principal. Tal universidade é também onde parte da elite dos EUA é educada, socializada e modela sua forma de pensar através dos valores que esta universidade promove. Nos EUA, é bem conhecido que a cultura de tal centro é predominantemente conservadora e liberal (“liberal” no sentido europeu da palavra, pois a palavra “liberal” nos EUA significa social-democrata ou socialista, dos quais há muito poucos em Harvard. A propósito, o fato de que os correspondentes dos meios de informação espanhóis pareçam desconhecer esta diferença no uso do termo “liberal” cria uma enorme confusão em seu público).

O conservadorismo de Harvard aparece em todas as suas dimensões, incluindo em sua falta de sensibilidade em relação às populações vulneráveis e discriminadas, como afro-americanos, latinos e mulheres. No entanto, em 1977, tomaram a decisão de tentar parecer mais modernos e lentamente abriram-se aos afro-americanos (procedentes, contudo, de escolas privadas de elite, como foi o caso do estudante Obama, que chegaria a ser presidente do país), mais tarde aos latinos e, ultimamente, às mulheres. Harvard quer parecer moderna e feminista.

Entretanto, seu conservadorismo e liberalismo estrutural permanece e é marcado, aparecendo quando menos se espera, como aconteceu recentemente quando o ex-ministro da fazenda na administração Clinton, o senhor Larry Summers, foi nomeado presidente da Universidade pelo Executive Board desta instituição. Numa entrevista, o  senhor Summers disse que o fato de não haver mais mulheres catedráticas em disciplinas científicas como a física ou a química devia-se – segundo ele – a razões biológicas, ou seja, que as mulheres não eram habilitadas para estas ciências.

O feminismo da classe de renda alta e média-alta

O escândalo que tais declarações criaram foi tão grande que o Executive Board da Universidade rapidamente indicou que nomearia uma mulher como presidente, o que, por fim, ocorreu. Nomeou-se como presidente a Dra. Drew Faust, que era, além de mulher, uma feminista bem conhecida na comunidade científica que tinha encorajado as mulheres (de sua classe social, de renda alta e média-alta) a aspirar a lugares de alto poder institucional, rompendo assim o monopólio masculino sobre as estruturas de poder. Tal nomeação foi celebrada praticamente pela maioria das associações feministas dos EUA.

O feminismo popular

 Agora, havia algumas mulheres em Harvard que não celebravam esse acontecimento. Não eram nem professoras nem estudantes, mas trabalhadoras. Eram as mulheres da limpeza da Universidade de Harvard (especificamente do hotel que Harvard possui em seu terreno, de sete andares e quarentas quartos, gerido pela Hilton Hotels & Resorts). Este hotel é um dos mais exitosos de Boston (e todos eles dependem principalmente da clientela proporcionada por seus vínculos com o mundo acadêmico desta cidade). No ano passado, o hotel teve um dos maiores lucros no setor hoteleiro da cidade. Mas apesar desta riqueza, as mulheres da limpeza do hotel (na sua grande maioria latinas) estavam entre as mais mal pagas do setor, com maior número de quartos para limpar por dia e o maior número de acidentes.

Por mais de três anos estas mulheres tentaram sindicalizar-se, porque se o fizessem, poderiam defender-se coletivamente e negociar seus salários, benefícios e condições de trabalho. Harvard, incluindo sua presidente feminista, se opõe há muitos anos. E apesar das exigências das trabalhadoras, muitas feministas reconhecidas nos EUA, figuras do establishment político-midiático do país, ignoraram estas exigências. Num artigo interessante na revista The Nation, Sarah Lemand e Rebecca Rojas detalharam a enorme e heróica luta destas trabalhadoras para conseguir que Harvard aceitasse sua sindicalização. E as trabalhadoras da limpeza descobriram que existem tantos feminismos como classes sociais nos EUA. E que as feministas do establishment político-acadêmico-midiático estadunidense não representavam os interesses da maioria das mulheres que não pertencem a essas classes abastadas e endinheiradas. O conflito entre estas duas classes (as classes de renda alta e média-alta, de um lado, e a classe trabalhadora, de outro) também apareceu na definição de seus interesses. A realidade é que a integração das primeiras nas estruturas de poder foi e é irrelevante para a mulher das classes trabalhadoras.

Isto também ficou claro nas últimas eleições presidenciais nos Estados Unidos. O fato de que a candidata presidencial do Partido Democrata tenha tentado mobilizar as mulheres, apresentando-se como a candidata feminista, é um exemplo disso. A grande maioria das mulheres da classe trabalhadora não votou nela; apoiaram Trump que, junto com o candidato socialista, apelou ao voto de classe, incluindo um discurso e algumas questões de clara aceitação e apelo às classes trabalhadoras. A classe social, afinal, continua sendo uma variável chave para entender o que se passa à nossa volta, não só no mundo dos homens, mas também no mundo da mulher.

As consequências da fraqueza do feminismo popular

E isso acontece também na Espanha. A evidência científica existente mostra claramente que, na Espanha, os serviços do Estado de bem-estar que estão menos desenvolvidos são precisamente os serviços que ajudam as famílias, tais como creches – mal denominadas “guarderías” em nosso país – e os serviços em domicílio para pessoas dependentes. O déficit no desenvolvimento de tais serviços neste país é enorme.

E na Espanha, quando dizemos “família” queremos dizer mulher. É a mulher que carrega o maior fardo das responsabilidades familiares. O contraste entre os países do sul da Europa (onde a direita tem sido historicamente muito forte) e o norte (onde a esquerda tem sido historicamente muito forte) é esmagador. Na Suécia, por exemplo, o número de horas semanais dedicadas às tarefas familiares pelas mulheres é de 26, para os homens é de 22. Na Espanha, a proporção é de 42 para 8.

Esta é a razão para o desenvolvimento muito escasso dos serviços de apoio familiar no sul da Europa, com um custo humano enorme. A mulher espanhola tem três vezes mais doenças relacionadas com o estresse do que o homem. E a mulher mais afetada é a mulher da classe trabalhadora que não tem serviços privados como a mulher da classe abastada (a empregada), que a pode ajudar. Assim, a maioria das enquetes mostra que, para além de melhores condições de trabalho e melhores salários, as exigências mais comuns das mulheres das classes populares são direcionadas para estes serviços. É urgente que os partidos políticos que estão enraizados nas classes populares e se consideram a serviço dessas classes sejam protagonistas e liderem a universalização de tais serviços na Espanha. Espanha (incluindo a Catalunha) precisa de uma maior conscientização das necessidades das mulheres das classes populares. A evidência disso é esmagadora. Tudo está muito claro.

*Vicenç Navarro é professor de na Universidade Johns Hopkins (EUA) e na Universidade Pompeu Fabra (Espanha). Autor, entre outros livros, de Los amos del mundo (Booket).

Tradução: Fernando Lima das Neves.

Publicado originalmente no portal Nueva Tribuna.

 

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