Guernica e Gaza

Pablo Picasso, Guernica
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Por JOÃO QUARTIM DE MORAES*

Assim como Guernica permanece um símbolo eterno da barbárie fascista, Gaza hoje sangra sob as mesmas sombras. Que a memória dos mártires bascos e palestinos nos lembre: o silêncio diante da crueldade é cumplicidade

“Para os israelenses que se incomodam de serem chamados de nazistas, há uma solução simples: deixem de se comportar como nazistas”.

1.

Guernica é uma pequena cidade basca (cerca de 7.000 habitantes), no norte da Espanha. Os bascos, em sua maioria, resistiram ao golpe de Estado militar fascista de 1936, comandado pelo grande carniceiro Francisco Franco. Embora protegidos, municiados e armados por Hitler e Mussolini, ele e seus asseclas não conseguiram derrubar a República democrática.

A resistência popular deteve os golpistas nas principais regiões do país, salvo no sul, onde eles procederam a execuções em massa. A guerra civil entre republicanos e fascistas prolongou-se até 1939.

A justo título, os cidadãos decentes, que não perderam o sentido do patriotismo e da dignidade, escandalizaram-se com o apelo da “famiglia” Bolsonaro para que Donald Trump golpeasse a economia brasileira. Esse é, entretanto, um comportamento recorrente dos fascistas d’aquém e d’além mar: suplicam a seus protetores (hitlerianos, trumpistas et caterva) que os ajudem, castigando seus adversários com implacável virulência.

Assim fizeram os fascistas de Francisco Franco, enfurecidos pela resistência popular ao golpe militar fascista. Pediram a Hitler que a Luftwaffe nazista enviasse a chamada “Legião Condor” para bombardear os centros urbanos da Espanha republicana.

Os bombardeios foram muito intensos em Madri, mas não conseguiram enfraquecer o ânimo dos defensores da República. Operários, estudantes, mulheres, homens, defenderam com heroísmo a capital, atacada de todos os lados pelos mercenários da contrarrevolução.

Hermann Göring, chefe da Luftwaffe, não era desprovido de curiosidade científica, notadamente na área da psicologia de massas. Resolveu estudar os efeitos de um bombardeio maciço com artefatos incendiários sobre uma pequena aglomeração urbana em zona rural. Escolheu o dia 16 de abril de 1937, uma segunda-feira, quando tradicionalmente ocorria em Guernica um animado mercado que atraía a população das redondezas.

Não havia interesse estratégico algum na localidade. Por isso as vítimas estavam desprevenidas. Após a primeira vaga de bombardeios, os aviadores alemães, em pouca altitude, treinaram pontaria metralhando os camponeses que corriam desesperados para as colinas circundantes.

Terminado este prólogo, veio o ataque principal da “Legião Condor”: 50 aviões de bombardeio despejaram cerca de 22 toneladas de explosivos, entupindo de chamas e de fumaça toda a área em torno da pequena cidade martirizada.

Pablo Picasso perenizou a memória desse horror no quadro pungente que leva o nome de Guernica.

2.

No Vietnã, três décadas depois, os estadunidenses aprimoraram este procedimento criminoso, usando napalm para castigar camponeses considerados rebeldes. A foto de uma garota correndo apavorada com a costas em chamas integra o dossiê da crueldade dos degenerados que massacraram o povo vietnamita em nome do “mundo livre” e da “democracy”.

Em Gaza, com o apoio de seus protetores trumpistas, os genocidas israelenses, comandados pelo “serial-killer” Benjamin Netanyahu (que se mostra ainda mais feio por dentro do que por fora), massacram a população famélica quando ela se aglomera junto aos caminhões de ajuda humanitária.

Querem matar pela fome os que eles não mataram pelos bombardeios. São literalmente degenerados: decaíram em barbárie e em crueldade aquém do patamar civilizatório e dos valores básicos do gênero humano.

Em 3 de dezembro de 2023, por ocasião de um dos atrozes e covardes ataques de Israel ao povo de Gaza, a população de Guernica prestou uma bela e comovedora homenagem aos palestinos martirizados pelo neofascismo sionista, unindo a memória deles à de seus próprios antepassados martirizados pelos nazistas. Ela pode ser vista na Rede: “gernika basque country 1937”.

Com Donald Trump ou sem Donald Trump, o imperialismo estadunidense, “o maior inimigo do gênero humano”, como sempre reiterava o inesquecível comandante Ernesto Guevara, continuará a apoiar o Estado terrorista israelense, sua principal base militar no Médio Oriente.

A trágica condição do povo palestino seguirá interpelando a consciência dos espíritos livres de toda a humanidade.

*João Quartim de Moraes é professor titular aposentado do Departamento de Filosofia da Unicamp. Autor, entre outros livros, de A esquerda militar no Brasil (Expressão Popular) [https://amzn.to/3snSrKg]


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