Histórias do marco zero

image_pdf

Por JOÃO LANARI BO*

Comentário sobre a obra conjunta de 22 cineastas palestinos

Histórias do marco zero é uma coleção de curtas-metragens filmados na Faixa de Gaza, rodados em meio a um dos maiores tormentos humanos na era dos conflitos modernos. Mesclando documentários sobre tragédias particulares, depoimentos subjetivos e perplexos, atividades artísticas envolvendo crianças, a obra reúne 22 cineastas palestinos que se empenharam em registrar sua visão do que se passa na rotina de terror que se abateu sobre a população desde que Israel começou a bombardear a área.

O violento ataque do Hamas em outubro de 2023 – e a resposta totalmente desproporcional israelense que se seguiu – catapultaram o conflito na região para um novo e inédito patamar, que parece não ter fim.

Hoje seriam 50 mil as vítimas palestinas, a maioria crianças, mulheres e cidadãos sem relação com o Hamas – simples habitantes locais. A Faixa de Gaza e seus poucos mais de dois milhões de habitantes são o produto, entre outros, de um esforço regulatório em cima de uma situação territorial complexa, que começou com a criação do Estado de Israel pela ONU em 1947.

Faltou combinar com os palestinos que ali residiam – seguiram-se guerras e a expulsão de centenas de milhares de pessoas que residiam nos territórios ocupados pelos israelenses para a faixa estreita ao sul, cercada por Israel, o Mediterrâneo e o Egito, conhecida como Faixa de Gaza.

Supervisionado pelo diretor e produtor Rashid Masharawi, Histórias do marco zero é sem dúvida um feito notável. Michael Moore, o combativo cineasta norte-americano, atuou como produtor executivo. É evidente que as condições de produção eram as mais precárias possíveis, em geral as tomadas foram feitas com celular – esse pequeno aparelho que se disseminou no globo terrestre e impactou radicalmente captação e memória de imagens e sons.

Eventualmente, são utilizados câmeras e equipamentos, há também animação e stop-motion: movimentos de câmera podem ser esquivos e velados, registrando uma pulsação do olhar que remete diretamente à guerra em curso. Podem ser também movimentos imprevistos, o grau de sofisticação varia entre os curtas, mas todos eles têm um solo comum – informar e alertar o resto do mundo sobre o estado limítrofe em que se encontram.

Algumas constantes atravessam o documentário e fornecem um fio condutor para a apreensão do contexto. Praia e a contemplação do espaço cênico infinito do mar funcionam como alívio visual momentâneo; zumbido assustador de drones patrulhando o espaço aéreo de Gaza assombram invisíveis; corpos presos sob pilhas de escombros em locais antes populosos; tendas de refugiados que ficaram sem casa, e são obrigados a conviver com todas as limitações imagináveis em termos de infraestrutura.

A tortura que são as noites – quando se intensificam os bombardeios, e chegam notícias de mortes e feridos – é outro ponto frequente abordado nos testemunhos.

Histórias do marco zero não tenciona descrever em detalhes gráficos a vida em Gaza – objeto, aliás, da cobertura da grande mídia, que impõe suas regras de espetáculo, como o ciclo efêmero das notícias e o viés editorial com que são produzidas. Os curtas são uma espécie de ponto de entrada, um meio pelo qual esses cineastas processam seu presente doloroso e esboçam visões esperançosas do futuro.

Com três a seis minutos em média de duração, foram resultado de encomenda por Rashid Masharawi, que simplesmente pediu a um grupo heterogêneo de moradores que idealizassem projetos que mostrassem a vida cotidiana no território palestino. Não havia nenhum gênero pré-determinado: muitos, sobretudo os que registram atividades artísticas de crianças, tem um propósito alentador.

Outros narram vivências de morte, deslocamento e sobrevivência. E outros fixam, de alguma forma, o fato de ainda estarem vivos.

Em janeiro de 2025, uma paz temporária suspendeu os ataques israelenses, mediada pelas bravatas populistas do Presidente Donald Trump. Não teve vida longa: na madrugada de 17 de março, Israel lançou uma série de ataques que romperam com a trégua entre as duas partes e deixaram 413 mortos e 660 feridos, segundo o Ministério da Saúde de Gaza.

Para o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, que comanda uma coalizão de direita em Israel, a guerra contra o Hamas “está mudando a face do Oriente Médio”. E conclui: “é uma guerra de renascimento”.

Numa conjuntura em que a contenção preconizada pelo sistema multilateral da ONU parece ter colapsado de vez – os anseios de conquista territorial de Trump, a invasão imperialista russa da Ucrânia – sobram poucas saídas para os palestinos em Gaza.

*João Lanari Bo é professor de cinema da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB). Autor, entre outros livros, de Cinema para russos, cinema para soviéticos (Bazar do Tempo) [https://amzn.to/45rHa9F]

Referência


Histórias do marco zero
Direção: Rashid Masharawi
Produtor executivo: Michael Moore


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Para além de Marx, Foucault, Frankfurt
25 Jan 2026 Por JOSÉ CRISÓSTOMO DE SOUZA: Apresentação do autor ao livro recém-publicado
2
Avaliação e produtivismo na universidade
23 Jan 2026 Por DANICHI HAUSEN MIZOGUCHI: A celebração das notas da CAPES diante do estrangulamento orçamentário revela a contradição obscena de uma universidade que internalizou o produtivismo neoliberal como nova liturgia acadêmica
3
O teto de vidro da decolonialidade
29 Jan 2026 Por RAFAEL SOUSA SIQUEIRA: A crítica decolonial, ao essencializar raça e território, acaba por negar as bases materiais do colonialismo, tornando-se uma importação acadêmica que silencia tradições locais de luta
4
A ilusão da distopia
27 Jan 2026 Por RICARDO L. C. AMORIM: O novo capitalismo não retorna ao passado bárbaro; ele o supera com uma exploração mais sofisticada, onde a submissão é voluntária e a riqueza se concentra sem necessidade de grilhões visíveis
5
O Conselho da Paz de Donald Trump
24 Jan 2026 Por TARSO GENRO: Da aridez de Juan Rulfo ao cinismo da extrema direita mundial, Tarso Genro denuncia a transição da cena pública para uma era de tirania privada, em que a gestão do caos e a aniquilação de povos desafiam a humanidade a resgatar o frescor de suas utopias perdidas
6
Júlio Lancellotti
28 Jan 2026 Por MARCELO SANCHES: A relevância de Padre Júlio está em recolocar a fé no chão concreto da vida, denunciando o cristianismo que serve ao poder e legitima a desigualdade
7
Notas sobre a desigualdade social
22 Jan 2026 Por DANIEL SOARES RUMBELSPERGER RODRIGUES & FERNANDA PERNASETTI DE FARIAS FIGUEIREDO: A questão central não é a alta carga tributária, mas sua distribuição perversa: um Estado que aufere seus recursos majoritariamente do consumo é um Estado que institucionaliza a desigualdade que diz combater
8
Enamed e cretinismo parlamentar estratégico
27 Jan 2026 Por PAULO CAPEL NARVAI: É mais prático e eficaz fechar cursos e colocar um fim na farra da venda de diplomas disfarçada de formação. Mas não é nada fácil fazer isso, pois quem consegue enfrentar congressistas venais?
9
Hamnet – a vida antes de Hamlet
19 Jan 2026 Por JOÃO LANARI BO: Comentário sobre o filme dirigido por Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
10
Energia nuclear brasileira
06 Dec 2025 Por ANA LUIZA ROCHA PORTO & FERNANDO MARTINI: Em um momento decisivo, a soberania energética e o destino nacional se encontram na encruzilhada da tecnologia nuclear
11
Poder de dissuasão
23 Jan 2026 Por JOSÉ MAURÍCIO BUSTANI & PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.: Num mundo de hegemonias em declínio, a dissuasão não é belicismo, mas a condição básica de soberania: sem ela, o Brasil será sempre um gigante de pés de barro à mercê dos caprichos imperiais
12
Hamnet
24 Jan 2026 Por RICARDO EVANDRO SANTOS MARTINS: Entre a fitoterapia de Agnes e a poética de Shakespeare, o filme revela como o saber silenciado das mulheres e o trabalho de luto desafiam a fronteira da morte
13
O exemplo de Sorbonne
29 Jan 2026 Por EVERTON FARGONI: A recusa da Sorbonne aos rankings é um ato de insubordinação: nega a redução do conhecimento a métricas e reafirma a universidade como espaço de crítica, não de produtividade alienada
14
Entradas: fotografias — Um ensaio de antropologia visual
25 Jan 2026 Por ANNATERESA FABRIS: Comentários sobre o livro de Carlos Fadon Vicente
15
O declínio da família no Brasil
21 Jan 2026 Por GIOVANNI ALVES: A explosão de lares unipessoais e a adultescência prolongada são duas faces da mesma moeda: a desintegração da família como infraestrutura antropológica, substituída por uma solidão funcional ao capital financeirizado
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES