Mephisto

Carlos Zilio, PRATO , 1972, tinta industrial sobre porcelana, ø 24cm
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Por ARNALDO SAMPAIO DE MORAES GODOY*

Comentário sobre o filme de István Szabó

Em 24 de fevereiro de 1971 o Tribunal Constitucional Alemão ficou dividido ao julgar o famoso “Caso Mephisto”. Discutia-se a oposição entre liberdade artística e direito à honra, no contexto de um romance, Mephisto. No pano de fundo, tem-se a metáfora da sedução que o poder exerce sobre os artistas. A narrativa, da forma como concebida, também levantou uma questão constitucional: a oposição entre liberdade de criação artística e proteção de imagem e honra. O autor do romance, Klaus Mann, narrou a carreira de personagem imaginário, Hendrik Höfgen, ator no tempo do IIIº Reich, e que no enredo é caracterizado como um oportunista sem escrúpulos. Espécie de roman-a-clèf, Höfgen era a representação idealizada de um personagem real, Gustaf Gründgens.

O filho adotivo de Gründgens, autor da ação, invocava a honra do falecido ator, violação de sua imagem e de sua reputação social, bem como da memória do conhecido artista. Os editores do livro, por outro lado, insistiam que a concepção do romance e dos personagens, era protegida pela liberdade de expressão. O Tribunal entendia, de fato, que a liberdade artística se realiza nos âmbitos da obra e de seus efeitos. A arte contemplaria certa autonomia que conta com leis próprias.

O Tribunal entendeu que o autor e o ofendido detinham, ambos, direitos tutelados pela Constituição. Isto é, deveria se proteger a dignidade de Gründgens, do mesmo modo que deveria se proteger a liberdade de expressão de Klaus Mann. Reconheceu-se o pleno direito da liberdade de manifestação artística; porém, enfatizou-se mais a dignidade humana, pelo que se julgou improcedente a reclamação constitucional postulada por Klaus Mann, que havia perdido no Tribunal de Hamburgo, o qual havia decidido que o romance maculava a honra pessoal de Gründgens. Essa decisão foi mantida. O livro não foi mais comercializado na então Alemanha Ocidental, embora fosse encontrado na Alemanha Oriental, que a jurisdição ocidental não alcançava.

O caso é rumoroso. Klaus Mann, autor do livro, é filho do escritor Thomas Mann (cuja mãe, Julia, era brasileira). Gründgens casou-se em 1926 com Erika Mann (irmã de Klaus). O divórcio veio três anos depois, portanto antes da ascensão do nazismo. Thomas Mann foi um dos mais importantes opositores do regime nazista, contra o qual gravou vários discursos que o rádio transmitia ao longo da guerra. Klaus Mann sentia-se desprezado pelo pai. Faleceu de uma overdose de pílulas para dormir, em 1949, aos 43 anos de idade.

O argumento do livro de Klaus Mann, em linhas gerais, sustenta a narrativa de Mephisto, do diretor húngaro István Szabó. O filme levou o Oscar de melhor filme estrangeiro em 1981. O imaginário Hendrik Höfgen é protagonizado por Klaus Maria Brandauer. Um ator obcecado com o sucesso faz um pacto com o nazismo. Ainda que o nome de Hitler não seja nenhuma vez pronunciado no filme, e também não seja pronunciado o nome do protetor de Hendrik, Göering, as alusões ao nazismo são explícitas, claras, diretas, a exemplo de uma cena que relata membros da juventude hitlerista em treinamento.

Os personagens se confundem com a vida real. Há um ator comunista, Otto Ulrichs, que Hendrik abriga. Lotte Lidenthal, que protege Hendrik, é na verdade Emmy Göering, atriz de pouca importância, que se casou com Göering, tornando-se uma espécie de primeira-dama, dado que companheira da eminência-parda do regime. A primeira esposa de Hendrik, Bárbara Bruckner, é Erika Mann. O pai de Bárbara, no filme, é Thomas Mann. Sebastian, um amigo de infância de Bárbara, Klaus, é o autor do livro no qual se baseia o filme. O primeiro-ministro, claramente, é Göering.

O diretor István Szabó, a partir da obra de Mann, explorou o mito de Fausto, central na tradição literária alemã. O Doutor Fausto é um personagem mitológico e literário, que é tratado em várias obras. Thomas Mann, por exemplo, escreveu um Doutor Fausto no qual o personagem central é um fantasioso Adrian Leverkün, compositor alemão, que também pactuou com o demônio. Theodor Adorno, que conhecia música, teria aconselhado Mann na construção dessa belíssima novela.

Quanto ao Fausto tradicional, alguns sustentam que existiu e que teria vivido no fim da Idade Média. Teria feito um pacto com o demônio (Mefistófeles, ou Mephisto), que lhe ofereceu conhecimento por servidão, vida eterna por sujeição, amor por rendição. Fausto aceitou a oferta. Pagará o preço pela incauta decisão. No filme de István Szabó essa lógica é mantida. No entanto, Mephisto torna-se Fausto, e o nazismo passa a ser Mephisto. Nessa composição, e nessa inversão simbólica, o ponto alto desse filme perturbador.

Em sua forma mais erudita e exuberante, Fausto é desvendado na obra de Goethe (1749-1832), o mais emblemático dos poetas alemães, ao lado do não menos sedutor Friedrich von Schiller (1759-1805). Ambos protagonizaram a fase radical do romantismo teutônico, que os autores de manuais de literatura denominam de Sturm und Drang, o que nos remete às sensações de “tempestade e impulso”, tal como às vezes sentimos quando ouvimos Mozart e Haydn. O Fausto, de Goethe, é dividido em duas partes. A primeira delas foi concluída em 1808; a segunda, em 1832. Goethe dedicou 60 anos à composição dessa obra sediciosa. Assim como a descrição do inferno em Dante é mais aliciante do que a descrição do céu ou do purgatório, a primeira parte do Fausto é mais intrigante do que a segunda. O radicalismo romântico está em seu zênite. Tem-se uma tragédia, em forma de poema.

Goethe adiantou-se ao pensamento dos filósofos da Escola de Frankfurt, especialmente Horkheimer e Adorno, para os quais o esclarecimento é uma forma de ilusão, instrumento da astúcia, para quem trabalha a razão. A Fausto foi oferecida uma vida eterna, rica em prazeres. Fausto recusou; os deleites da terra não eram suficientes para contentá-lo. Buscava conhecimento. Porém, ajustaram um acordo. Mefistófeles seria servo de Fausto na Terra. No entanto, se numa única vez Fausto admitisse um prazer terreno que pensasse em viver indefinidamente, então morreria e seria servo de Mefistófeles no inferno. O contrato foi firmado com o sangue de Fausto. Fausto simboliza a soberba da busca do poder pelo conhecimento. É o mesmo enredo do compositor Adrian Leverkühn (no livro de Thomas Mann) ou do ator Hendrik (no livro de Karl Mann, levado ao cinema).

No filme de István Szabó o diabo toma o lugar de Fausto, e o nazismo o lugar do diabo. Hendrik é um ator em Hamburgo. Identificado com a esquerda, defende um teatro de esclarecimento ao operariado. A arte seria agente prospectivo na luta de classes. Odiava os nazistas, a quem chamava de patifes. Protegido pelo sogro, conhecido escritor (pode-se ter aqui alguma analogia com Thomas Mann) Hendrik muda-se para Berlim. Presencia a vitória do nazismo (primeiramente nas eleições) debochando do novo chanceler. Os nazistas proclamam que querem construir um novo mundo.

Hendrik se recusa a aceitar a vitória nazista. Ao contrário da maioria dos artistas que deixavam o país, não admitia deixar sua língua: gritava que precisava de sua pátria. Artistas, segundo Hendrik, deveriam ser neutros. Segue o incêndio do Reichtag e a violência contra os judeus, que Hendrik presencia nas ruas. Ao mesmo tempo, mantém um caso com sua professora de dança, alemã, negra, que será perseguida pelo nazismo, ainda que fosse alemã. A professora era vítima de um odioso preconceito de pele.

Percebendo que a situação política impactava o ambiente artístico, Hendrik paulatinamente vai aceitando a presença nazista. Um processo gradual, a exemplo do ocorrido na narrativa de Fausto, que gradualmente vai acolhendo a influência de Mephisto. Hendrik, nesse momento, quer representar Mephisto no teatro. Aproxima-se da esposa de Göering. O casal o protege. Göering mostra-se simpático, afirmando ter lido o horóscopo de Hendrik, que se transforma. Em uma das apresentações, vai até o camarote de Göering, em sinal de total obediência. A partir de então, deixa de ser apreciado por suas qualidades artísticas: é respeitado porque é amigo do regime.

Hendrik é nomeado diretor do Teatro Nacional Prussiano. Está no auge. Sua esposa já havia deixado a Alemanha, estava na Holanda. A professora de dança (de quem também era amante) seguiu para Paris. Já havia previsto a derrocada de Hendrik, dizendo que os olhos do amante já estavam mortos. Percebendo-se totalmente cooptado pelo nazismo, e inclusive humilhado por Göering, Hendrik reconhece que perdeu a liberdade. Justificou-se, questionando até que ponto e para que servia essa liberdade perdida.

Por ordens superiores começa a ensaiar Hamlet. Nacionalizam Shakespeare. O personagem dinamarquês, símbolo da indecisão, torna-se, na montagem de Hendrik, um protótipo de herói alemão. Cada vez mais dominado, Hendrik indaga o que querem dele, justamente porque se considera apenas um ator, de quem não se pode cobrar responsabilidades políticas. De um ator, acreditava, somente se poderia cobrar comprometimento com a arte.

No filme de István Szabó retoma-se o pacto faustiano que tanto atormenta artistas e intelectuais. A opção por uma arte pela arte justificaria a sedução pelo poder, a troca de favores, a desconfiança mútua e o total desprendimento para com referenciais éticos e para com alguma relação com valores humanos. Esse pacto de corvos descortina-se como drama no momento em que o demônio (seja Mefisto, o nazismo ou qualquer ente substancialmente maligno) cobra sua parte no contrato. Nesse momento, já não há mais espaço para arrependimento. O outro contratante (seja Fausto, ou Mefisto ou qualquer ente substancialmente ambicioso) descobre que o sucesso construído nessas bases é a medida de sua própria tragédia. Mas não há mais volta.

*Arnaldo Sampaio de Moraes Godoy é livre-docente pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP).

Referência

Mephisto
Hungria, 1981, 144 minutos
Direção: István Szabó.
Roteiro: Péter Dobau e István Szabó.
Elenco: Klaus Maria Brandauer, Krystina Janda e Ildikó Bánsági.

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