O Brasil entre Eros e Tânatos

Imagem: Nothing Ahead
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Por LISZT VIEIRA*

A vitória da direita fascista na próxima eleição presidencial é uma possibilidade não desprezível, e os partidos políticos da base do governo não estão preparados para enfrentá-la

A qualidade do governo Lula é um dos pontos que vão pesar no resultado das próximas eleições, mas provavelmente não será o mais importante. Um mau governo teria um forte peso negativo, mas um bom governo pode ter um peso de pouca valia dependendo da aprovação no eleitorado e também de outros fatores.

Um dos fatores a merecer maior consideração é a estruturação e consolidação da extrema direita no Brasil e em várias partes do mundo. A mais recente pesquisa Datafolha aponta que 90% dos que votaram em Jair Bolsonaro não se arrependeram e mantêm seu voto. Atualmente, os petistas são 30%, e os bolsonaristas, 25% do eleitorado brasileiro.

 “Com muito dinheiro internacional e nacional, com a criação de organizações que estruturam e alimentam a militância, a formação de seus integrantes, seu ativismo e suas bandeiras, a ultra direita, depois de perder as eleições de 2022, está preparada e atuante para continuar agindo, disputando corações e mentes, e o poder no Brasil” (Silvio Caccia Bava, Le Monde Diplomatique). É importante lembrar que boa parte do eleitorado bolsonarista não se comporta em termos racionais.

Como vimos agora na Argentina, o discurso anti-sistema, embora tresloucado e hipócrita, tem um forte apelo popular. Jair Bolsonaro venceu em 2018 sem nenhuma proposta ou plano de governo. Apenas criticava “tudo isso que está aí”, sua proposta era destruir e não tinha nenhum projeto para construir. Ele próprio disse no primeiro mês de seu governo, em janeiro de 2019: “Vim para destruir, não para construir”. A inspiração veio de seu guru Olavo de Carvalho, por sua vez discípulo dos ultraliberais da antiga Escola de Chicago. A ideia era destruir tudo para depois reconstruir em moldes privatistas neoliberais.

Tratava-se de destruir o Estado, acabar com as políticas públicas em todas as áreas e privatizar tudo, transformando direitos em mercadoria, seguindo ao pé da letra o catecismo neoliberal. Essa foi a orientação política do governo de Jair Bolsonaro: Morte ao Estado! Estávamos no reino de Tânatos, pulsão de morte. Se mais não destruiu, foi por incompetência dele, de seus ministros, com destaque para Paulo Guedes, e também pela resistência da sociedade. É bom lembrar que essa política radical de privatização conta com o apoio da mídia, sempre alerta para criticar os serviços públicos e elogiar os privados.

Com o apoio de diversos governadores, do mercado, de parlamentares e da mídia, os candidatos de direita poderão surpreender nas eleições municipais de 2024. Os próprios representantes da direita, do fisiológico Centrão, nomeados pelo atual governo para altos cargos no aparelho de Estado, inclusive ministros, irão trabalhar para seus candidatos, em geral em oposição aos candidatos lançados pelos partidos que apoiam o governo.

As eleições municipais serão um termômetro para a futura eleição presidencial. O candidato da direita, seja quem for, vai fazer o discurso contra o sistema. E Lula hoje é o próprio sistema. É o presidente, que fez acordo com o mercado, aceitando a tese do déficit zero que dificulta e até mesmo inviabiliza investimento público para garantir o desenvolvimento. O Congresso aprovou o Orçamento e cortou R$ 6 bilhões do PAC, fundamental para o desenvolvimento do país.

O Presidente fez acordo com o Centrão para garantir maioria parlamentar que nem sempre obteve e nomeou políticos de direita para altos cargos no governo. Assim, Lula garantiu certa governabilidade num clima de semiparlamentarismo e teve alguns ganhos. Desenvolveu políticas públicas em diversas áreas como saúde, meio ambiente, projetos sociais etc. A economia fechou o ano com bons resultados. E o mais importante: o Brasil voltou a respirar um clima democrático. Estamos agora no reino de Eros, pulsão de vida.

Mas, segundo o economista Ladislau Dowbor, “o problema é o dreno financeiro que paralisa a economia brasileira, em particular os juros (sobre a dívida pública, pessoas físicas e jurídicas), a evasão fiscal e o sistema tributário que isenta grandes fortunas, lucros e dividendos, exportações primárias e semelhantes. O essencial é que o dinheiro que é nosso, tanto o que está no Estado como nos depósitos bancários, tem de voltar a financiar a economia, em vez de alimentar rentistas” (Dowbor.org).

Um dos maiores ganhos do atual Governo foi a Reforma Tributária, lembrando que ela tratou apenas de racionalizar e simplificar os impostos sobre consumo, uma vez que os impostos sobre a renda e riqueza ficaram para uma segunda etapa. Mas, na próxima eleição, Lula ou o candidato por ele apoiado ficará vulnerável por representar o sistema. Tudo que estiver errado ou não resolvido cairá na cabeça dele. O grosso do eleitorado bolsonarista é irracional, acredita piamente nas fake news que recebe, desde ameaça comunista a banheiro unissex. E o candidato bolsonarista contará com o apoio de boa parte da mídia e do mercado.

Por outro lado, no plano internacional, teremos muitas crises pela frente. O capitalismo não sobrevive sem guerras. A chamada democracia capitalista liberal funciona para uma pequena minoria. Quase metade da riqueza no mundo está concentrada na mão de apenas 1% da população (Global Wealth Report 2023 e Dowbor.org). Em muitas partes, a extrema direita se fortalece. Dois países capitalistas em guerra, Rússia e Israel, embora em fronts diferentes, um contra a Ucrânia e outro contra a Palestina, um alegando defesa contra a OTAN, o outro alegando defesa contra o Hamas, têm interesses comuns no que diz respeito ao apoio à extrema direita.

Vladimir Putin apoiou e apoia Donald Trump e a ultradireita na Europa. Benjamin Netaniahu, a mesma coisa, por razões diferentes. Donald Trump, como Vladimir Putin, quer enfraquecer a União Europeia. Benjamin Netaniahu tem o apoio total do Partido Republicano nos EUA, enquanto o Partido Democrata está dividido. E é bom lembrar que Donald Trump, embora processado, está na frente de Joe Biden nas pesquisas eleitorais.

E agora a Argentina de Javier Milei vem engrossar o caldo da ultradireita. Na sua posse, estavam presentes Viktor Orban, presidente da Hungria, Volodymir Zelensky, presidente da Ucrânia, Felipe VI, rei da Espanha, o ex-presidente Jair Bolsonaro, além de lideranças de partidos de direita como Santiago Abascal, líder do partido de ultradireita Vox e deputado espanhol, entre outros.

Um dos fatores que une a extrema direita – em geral ignorado – é a rejeição da crise climática e a hostilidade em relação às políticas ambientais. O negacionismo a respeito das mudanças climáticas e da destruição da biodiversidade, a confiança em miraculosas soluções tecnológicas e o apoio aos poluidores de todo tipo são elementos comuns à ultra direita. No Brasil, o desmatamento da Amazônia, a destruição dos recursos naturais e o desmantelamento dos órgãos de defesa ambiental durante o governo passado confirmam a regra. O curioso é que, há décadas atrás, a esquerda também tinha essa mesma posição, considerando que a questão ambiental era um desvio da luta de classes.

O avanço da extrema direita não vem encontrando uma resposta à altura por parte dos partidos de esquerda, inteiramente dedicados às lutas institucionais, e dos sindicatos, enfraquecidos por anos de neoliberalismo. Não se vê uma campanha popular em favor de pautas de uma agenda de esquerda. Não se trava uma luta ideológica com a direita, salvo exceções, para não perder apoios políticos no Congresso.

Não se faz uma campanha junto aos evangélicos neopentecostais e outros mostrando que apoiar armamento para todos, tortura, guerra civil, não é uma atitude cristã, já que Jesus pregou o contrário disso e morreu torturado. Brigadas de evangélicos de esquerda poderiam visitar igrejas e dialogar com os fiéis, por exemplo. Não se faz uma campanha dirigida à juventude que, em sua grande maioria, é despolitizada e considera todos os políticos como corruptos, tornando-se presa fácil do discurso populista da ultra direita. 

Em 8 de janeiro, o Brasil relembra um ano da tentativa de golpe com a invasão da Praça dos Três Poderes em Brasília e a destruição dos prédios do Legislativo, Executivo e Judiciário. Até agora, só peixes pequenos foram fisgados e condenados. Nenhum militar de alta patente, diretamente responsável pelo vandalismo, foi sequer processado, embora seja público o apoio de alguns generais à tentativa de golpe de 8 de janeiro. O acampamento em frente ao QG do Exército em Brasília abrigou milhares de bolsonaristas que, com todo o apoio militar, conspiraram o ataque aos Três Poderes, atacaram antes a sede da PF e colocaram bomba no caminhão tanque junto ao aeroporto de Brasília.

Dos financiadores, apenas um, de Londrina, em fins de dezembro passado foi denunciado em petição enviada pela PGR ao STF. Dos 2.151 golpistas presos em flagrante, muitos foram libertados, diversos acordos foram homologados e, no “aniversário” de um ano do ataque terrorista, somente 66 continuam presos.

Isso não é apenas um assunto do Judiciário. É um problema que interessa a toda a nação, pois diz respeito à atuação e crescimento da extrema direita em sua luta pelo poder. Num país em que metade de todo crescimento fica com os 5% mais ricos (Marcelo Medeiros, “Os ricos e os pobres: o Brasil e a desigualdade”), Lula pode fazer um bom governo, mas a conciliação com o Congresso e o mercado, se garante sua governabilidade, pode paradoxalmente fortalecer a possibilidade da vitória da direita na próxima eleição, mergulhando o Brasil de novo nos braços de Tânatos, a caminho do reino de Hades.

Nada é certo, a questão está em aberto. Mas a vitória da direita fascista na próxima eleição presidencial é uma possibilidade não desprezível, e os partidos políticos da base do governo não estão se preparando para enfrentar uma extrema direita que se fortalece nas elites e na base da sociedade.

Liszt Vieira é professor de sociologia aposentado da PUC-Rio. Foi deputado (PT-RJ) e coordenador do Fórum Global da Conferência Rio 92. Autor, entre outros livros, de A democracia reage (Garamond). [https://amzn.to/3sQ7Qn3]


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