O cidadão “moderado”

Imagem: Fidan Nazim qizi
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Por JEAN PIERRE CHAUVIN*

Dois signos do moderado: a soberba (em meio à miséria social) e a desfaçatez (em meio às críticas que recebe)

O moderado é, substancialmente, um oportunista. Quando o pleito eleitoral se avizinha, ele torna a disseminar os lugares-comuns mais perversos e óbvios. “Nem direita, nem esquerda: sou do meio-termo”; “o maior problema do país é a corrupção”; “os EUA dão exemplo de democracia a ser seguido pelo Brasil”. Eis alguns dos slogans que combinam hipocrisia, em relação aos abusos dos facínoras que elegeram, e intransigência, quando uma legenda partidária não defende apenas os interesses dos banqueiros, industriais, megaempresários, latifundiários et caterva.

Alguém objetará que essa figura sempre existiu. Talvez. Contudo, houve uma mudança preocupante nas últimas duas ou três décadas. O pretenso moderado costumava ser um espécime encontrado especialmente em setores das classes médias e altas. Mas, os prédios da FIESP a embalar a campanha contra os vinte centavos, em 2013; as bravatas do presidenciável tucano derrotado em 2014; o golpe parlamentar de 2016; o sequestro jurídico de Luiz Inácio em 2018; e a eleição do inominável e sua gangue naquele ano, sugerem que o discurso, em tese moderado, passou a ser reproduzido também pelas classes mais desfavorecidas.

A essa altura, deveria estar evidente para os cidadãos desta neocolônia que de 30 a 50% de nossos familiares, amigos e colegas integram a ala circense e maléfica dos cidadãos de bem, que, por preconceito de classe, detonam os partidos democráticos; mas fecham os olhos, tapam os ouvidos e emudecem, frente ao desfile diário de mentiras pelo atual mandatário e seus asseclas. Isso sem falar nas mortes de ambientalistas; da ameaça a políticos que ousaram divulgar o super esquema das milícias; dos castigos sofridos por aqueles que denunciaram deputados pedófilos; ou mostraram como amigos e familiares do presidente, estão sabidamente envolvidos em gigantescas tramas de corrupção (rachadinha; franquia para lavagem de dinheiro; aquisição de imóveis milionários etc.).

Dois signos do moderado: a soberba (em meio à miséria social) e a desfaçatez (em meio às críticas que recebe). Incapaz de reconhecer os incentivos e oportunidades que recebeu da família, esse espécime classifica a pessoa em situação de rua como vagabunda e vencida pela vida. Juiz implacável, o seu incômodo não decorre por testemunhar o aumento da pobreza; mas por notar que as sendas do seu bairro plano, cheiroso e arborizado estão repletas de obstáculos em forma de gente. “Gente?”. Ora, ora. Isso talvez explique a elegante petição de uma Associação de Bairro para que um Shopping Center removesse os seres enrodilhados em cobertores das imediações. A trilha do consumidor não pode ser afetada pela decrepitude.

O moderado não “tapa o sol com a peneira”; ele odeia o que vê e, se pudesse, comandaria o extermínio dos “fracos”. Não se engane: parte considerável desses seres reforça o próprio sentimento de vitória, quando estabelece comparações com os que foram expelidos pelo sistema por falta de “tenacidade” e “persistência”. O moderado soa, no café ao ar livre, como aqueles artistas midiáticos a repetir a máxima “não desista dos seus sonhos”. O moderado age feito ilha. Por isso, elege a mesma legenda há 30 anos, para desgovernar com máxima eficiência o estado de São Paulo. Do gestor que se dizia não-político ao maníaco religioso, nenhuma gestão tucana fez mais do que privatizar, “despoluir” o rio Pinheiros, retirar verbas da saúde, educação, saneamento e moradia popular e, claro, massacrar movimentos legítimos em defesa de direitos adquiridos.

Mas, como sabemos, eles são os candidatos ideais, segundo o cidadão moderado, porque reproduzem, em escala estadual, o que seus eleitores moderados fazem dentro e fora de casa. De um lado, fingem reconhecer seus funcionários como “gente da família”; de outro, adoram gastar verbos de ordem, seja com familiares, seja com serviçais. O importante é não votar na extrema direita, menos ainda na esquerda. Evidentemente, caso não haja opção, é claro que o moderado escolherá o representante dos seus interesses e privilégios. A sua concepção de mundo repousa no sentimento de superioridade natural e no receio de ser confundido com os tipos inferiores.

O moderado exemplar é aquele que, insatisfeito com o signo da destruição e da mitomania, que nos assola há três anos e meio, coça a cabeça e diz que a escolha presidencial será novamente muito difícil em 2022. Pouco importa que o país esteja sob a tutela dos Estados Unidos, com o beneplácito das forças armadas, pelo menos desde a década de 1940: ele não se incomoda com o pendão golpista. Desde que a sua rotina não se altere demasiadamente; desde que o país se veja livre do comunismo imaginário (ele nunca saberá a diferença entre os sistemas e regimes de governo, pois tem preguiça de ler); desde que as coisas continuem como estão, favorecendo a ilusão de que ele é melhor do que a maioria, esse espécime continuará a dizer que todo governo tem defeitos e recolocará democratas e facínoras no mesmo nível.

Que um sujeito das chamadas elites proceda desse modo, seria quase previsível, num pseudopaís excludente, feito este. Porém, a soberania e a ruína social se avizinham quando o “colaborador” precarizado; o trabalhador sem vínculo empregatício, nem direitos; o dono da vendinha; o vigia que trabalha e faz bicos; todos os que mais sofrem com a assimetria social, a falta de atendimento médico e a perda generalizada de direitos, introjetam o discurso da moderação simulada.

Agirão assim por acreditarem que reproduzir a opinião dos “superiores” poderá distanciá-los do discurso “de pobre”, assegurando alguma dignidade perante os grupos que frequentam? Ouse levar argumentos desse feitio, ao “dialogar” com um desses seres, e você será prontamente classificado como “muito radical”. Parodiando o que observou Antônio Vieira no Sermão da sexagésima, faltam ao cidadão moderado espelho, olhos e luz adequada para melhor ver. De todo modo, isso não acontece por falta de pastoreio estelionatário, ladainha, lucro e reza, não é mesmo?

*Jean Pierre Chauvin é professor na Escola de Comunicação e Artes da USP. Autor, entre outros livros, de Mil, uma distopia (Luva Editora).

 

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