O dia de Hiroshima

Imagem: David Warner
image_pdf

Por CAIO HENRIQUE LOPES RAMIRO*

Um tempo do fim que a qualquer momento poderá se converter no fim do tempo

No último dia 6 de agosto, há 79 anos, tinha início uma nova era para a humanidade. Estes são os termos da primeira tese de Günther Anders, quando afirma que esta data deve ser lembrada como o “dia de Hiroshima”, isto é, este dia marca a era em que nós tomamos conhecimento de que temos o poder de transformar qualquer lugar e até mesmo o planeta inteiro em uma Hiroshima. Portanto, em sentido apocalíptico, há uma revelação de que estamos vivendo no tempo do fim.

Neste horizonte de perspectiva, parece interessante retomar esta temática considerando um texto de George Orwell, pseudônimo de Eric Arthur Blair. O escritor e crítico literário – nascido na Índia subjugada pelo domínio colonial da coroa britânica –, é bastante conhecido por seu livro distópico 1984, bem como seu romance A revolução dos bichos. Todavia, pretendemos esboçar algumas linhas a partir de outro trabalho de George Orwell, a saber: “Você e a bomba atômica”.[i]

George Orwell publicou este texto no jornal Tribune, em 19 de outubro de 1945. Portanto, o escrito veio a público dois meses após a explosão da bomba em Hiroshima e apresenta questões muito interessantes, inclusive para o tempo de agora.

Em primeiro lugar, George Orwell afirma que apesar da ameaça de todos sermos dizimados e feitos em pedaços, a bomba atômica não é objeto de discussão, ao menos não tanto quanto deveria se esperar. Na compreensão de Orwell existem algumas publicações, contudo, não são tão úteis aos cidadãos comuns, em especial naquilo que diz respeito à formação de uma compreensão acerca das dificuldades de produção desta arma e da pretensão de monopólio no que tange a sua utilização.

Não obstante, é bastante interessante a afirmação orwelliana de que há um lugar comum que diz respeito à imagem em paralelo da história da civilização e a história das armas. A partir desta aproximação, George Orwell apresenta algumas linhas da história a fim de demonstrar que, salvo, por óbvio algumas exceções, poderíamos pensar que existe uma regra que diz que em “tempos em que a arma dominante é exorbitantemente cara ou difícil de construir tendem a ser tempos de despotismo”.

Ora, por aqui a reflexão de George Orwell vai se construir a partir de um exame da facilidade ou não do acesso às armas, tendo por objetivo examinar a disputa acerca do monopólio da nova tecnologia de destruição, algo que já colocava no horizonte a corrida armamentista que testemunhamos na guerra fria.

Assim, ao que parece, um dos pontos centrais do argumento de George Orwell é evidenciar que se mostra possível pensar que o processo de produção da bomba, que exige uma ampla planta industrial e investimento em tecnologia, é algo custoso e difícil, o que exige inúmeros esforços, o que, todavia, para alguns pode representar algo como uma imagem do progresso técnico e que poderia colocar fim às guerras de longa escala.

No entanto, haveria um custo adicional e este último seria o prolongamento indefinido de uma “paz que não é paz alguma”. Portanto, trata-se de uma “era de suspensão”, isto é, retomando alguns termos de Günther Anders, um modo de estar no mundo que se apresenta como a vida dos ainda não inexistentes, sendo que esta última se desenvolve sob a sombra de Hiroshima, um tempo do fim que a qualquer momento poderá se converter no fim do tempo.

Logo, a questão moral básica passa a ser: Iremos sobreviver? Para George Orwell, “uma arma complexa faz do forte mais forte”, de tal modo, observa-se que a era de suspensão é também um tempo de despotismo.

*Caio Henrique Lopes Ramiro é doutor em direito pela Universidade de Brasília (UnB).

Nota


[i] Para a leitura de uma boa tradução do texto, ver: https://zeroaesquerda.com.br/index.php/2022/09/22/voce-e-a-bomba-atomica-george-orwell/.


Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Em defesa das bibliotecárias e bibliotecários
12 Mar 2026 Por FELIPE SANCHES: As bibliotecas estão atravessadas pela política e, se negarmos seu papel político, fechamos os olhos ao seu papel estratégico no desenvolvimento cultural, educacional, científico e econômico do Brasil
2
No radar geopolítico – EUA x Irã
14 Mar 2026 Por RUBEN BAUER NAVEIRA: O que o Irã pretende é forçar os americanos a pedirem por negociações que não serão por algum "cessar-fogo", mas que envolverão concessões dolorosas, como o fim de todas as sanções e o desmantelamento das bases militares americanas no Oriente Médio
3
Rússia e China na guerra no Irã
18 Mar 2026 Por VALERIO ARCARY: No xadrez geopolítico da guerra contra o Irã, Rússia e China movem suas peças com cautela: Moscou não pode, Pequim não quer — e o regime persa descobre, na solidão estratégica, que alianças têm limites quando os interesses das potências apontam em outra direção
4
Os impactos da guerra no Irã
16 Mar 2026 Por LUIS FELIPE MIGUEL: Ao atacar o Irã sem estratégia, Trump revela o vazio de sua política externa e a submissão a Israel; no Brasil, o impacto imediato é a alta dos combustíveis, que exige do governo Lula coragem para romper de vez com a paridade internacional e proteger a economia popular do choque inflacionário
5
Hamnet – a vida antes de Hamlet
11 Feb 2026 Por GUILHERME E. MEYER: Comentário sobre o filme de Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
6
A “filosofia” do cérebro podre
15 Mar 2026 Por EVERTON FARGONI: Uma crítica radical à colonização algorítmica da consciência, onde a promessa de prazer imediato culmina na falência do pensamento, da autonomia e da vida democrática
7
Um país (des)governado
13 Mar 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: A guerra no Irã não é imperialismo, é o espasmo de um país sem projeto, governado por um homem que trocou promessas por bombas
8
Contraste entre lulismos
12 Mar 2026 Por FERNANDO NOGUEIRA DA COSTA: O ponto cego atual da esquerda é ela ganhar no PIB, ganhar no emprego, ganhar na redução da pobreza, mas perder na pergunta fundamental: “para onde estamos indo?”
9
Linguagem inclusiva
12 Mar 2026 Por BEATRIZ DARUJ GIL & MARCELO MÓDOLO: Mais sintaxe, menos torcida: permitir não é prescrever, inovar não é normatizar
10
Pecadores
16 Mar 2026 Por BRUNO FABRICIO ALCEBINO DA SILVA: Comentário sobre o filme dirigido por Ryan Coogler , premiado com quatro estatuetas no Oscar 2026
11
Fim da guerra no Irã?
11 Mar 2026 Por LISZT VIEIRA: A guerra revelou que força militar sem estratégia política cobra um preço alto, e quem controla a escalada controla também o desfecho
12
Jürgen Habermas (1929-2026)
16 Mar 2026 Por MARCO BETTINE: Filósofo da esfera pública e do agir comunicativo, Habermas recusou o pessimismo da primeira geração frankfurtiana para mostrar que a modernidade ainda pode fundamentar racionalmente a crítica social
13
A escolha de Donald Trump
13 Mar 2026 Por MICHAEL ROBERTS: Trump descobriu que decapitar um regime não é o mesmo que subjugar uma nação: o Irã resiste e o preço do petróleo cobra a fatura
14
Sonhos de trem
14 Mar 2026 Por VANDERLEI TENÓRIO: Comentário sobre o filme dirigido por Clint Bentley.
15
O STF está validando a fraude trabalhista
03 Mar 2026 Por DURVAL SIQUEIRA SOBRAL: Ao legitimar a pejotização, o sistema jurídico reconfigura o trabalho como negócio e não como relação social
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES