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O Proust de Walter Benjamin

Imagem: João Nitsche.
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Por RONALDO TADEU DE SOUZA*

Comentário sobre a interpretação benjaminiana de Marcel Proust

Um dos modos de homenagearmos certas figuras do universo intelectual, filosófico e cultural é comentarmos quais eram seus gostos estéticos, sua lealdade política, os escritores de sua predileção e os autores que mais os influenciaram ao longo do seu percurso. Abordar as preferências de grandes pensadores – pode dizer mais sobre o significado de sua obra do que a própria análise em si de ideais e visões de mundo que expressaram. Os ombros sob os quais se apoiaram diz muito sobre olhar para as coisas da vida de algumas personalidades intelectuais – isto (os ombros sob os quais nós mesmos nos apoiamos), é certo que nem sempre admitimos, também, revelam algo de nossos amores. Não é mero acaso que três dos maiores críticos literários do século XX tinham em Marcel Proust o grande amor de suas existências. Preparação de Um Romance I e II, um dos últimos cursos de Roland Barthes no College de France – e que explicitava o desejo confesso de escritura ficcional, a real ambição do crítico francês – foi uma espécie de elegia ao autor do Em Busca do Tempo Perdido e o modo como escreve um romance (longo, de uma vivência inteira, essencialmente arranjado para uma presença extensa) em contraponto ao entusiasmo mínimo dos Haikais japoneses – a anotação ligeira, mas efetivamente necessária, na preparação do texto ficcionalizado, dirá Barthes –; e nos dizeres de Walnice Nogueira Galvão, para quem Antonio Candido havia sido um leitor de abrangência inesgotável, além de ter disposto suas lentes de crítico sobre os clássicos da literatura universal (Shakespeare, Goethe, Vitor Hugo), Marcel Proust era seu magnânimo escritor[i]. Nosso maior crítico devotou-se ao Em Busca do Tempo Perdido por toda sua vida. Ele foi sua paixão eterna.

Não foi diferente com Walter Benjamin. Proust constituiu-se no seu eterno interlocutor ausente; no seu confidente protetor; no seu espaço de beleza e de alegoria crítica. O Proust de Benjamin – é o Proust que está a sussurrar para nossos ouvidos sobre aquilo ao qual a neblina densa do cotidiano (semelhança) insiste, com perniciosa eficácia, em rebuçar.

A Imagem de Proust; o Walter Benjamin como ele nunca deixou de ser. Radical, materialista singular, avesso à social-democracia, filólogo erudito, crítico intransigente da burguesia, ensaísta dialético, sensível, literato, amigo de Hannah Arendt, revolucionário (e comunista messiânico). Um Benjamin que tomou Marcel Proust não como o escritor (enfadonho) da memória – mesmo a involuntária. Mas que interpretou o Em Busca do Tempo Perdido como uma carta lida e sussurrada (um alerta poeticamente ansioso) acerca da violência do esnobismo. Foi por isso que Benjamin comentou que Proust não meditou exaustivamente para criar seu romance; era isto sim um enredo “oposto do trabalho de Penélope” [ii], pois o que realizou instituiu-se como o pórtico de um mundo imbricado nos hábitos do embuste, da força estetizada do olhar condenatório: de um sistema de convivências que não permitia nem mesmo Marcel participar. No entanto, Benjamin nos fez perceber que Marcel nunca desejou compartilhar dos Guermantes. Proust parava no frontispício querendo fincar o arranjo narrativo da “urdidura” [iii] crítica, de sorte que só desta maneira ele conseguiria projetar a “luz [aos] […] arabescos entrelaçados” [iv] dos palácios que ocultavam (com desfaçatez) a todo um grupo social. E a cada um daqueles momentos – parado nos pórticos, nos frontispícios – ele revisava as impressões tecidas anteriormente.

Com efeito, dirá Walter Benjamin, o sempre exausto Proust levava seus “[editores] e tipógrafos ao desespero” [v] a cada correção que elaborava daqueles cínicos palácios. Ademais; tal estilo de escrita resguardava Proust do paradigma do esnobismo. Era como se o Em Busca do Tempo Perdido exercesse a magia do esvaziamento de si para ter condições de traçar os males de uma sociedade que recusava, com vil intenção, “o impulso de felicidade”[vi]. Assim, o Proust de Benjamin – reverso ao Proust de Gilles Deleuze que retinha os vários signos da existência, ao Proust de Georges Poulet ao qual o preencher o espaço da memória era obrigação do romancista e ao Proust de Samuel Beckett para quem a profusão do hábito adquiri aspecto primordial na experiência dos indivíduos – é a “criança [que] não se cansa […] de esvaziar com [o] gesto”[vii] da linguagem a sociedade das roupas glamourizadas, do pince-nez imprescindível para a conversação nobre, da bolsa fina, da aparência frágil, da distinção violenta porque exige semelhança. Idêntico a uma abelha que salta de flor em flor à procura de uma doce “dialética da felicidade”[viii], o Proust de Benjamin, seu Proust singular, enquanto construtor do Eu que está incansavelmente a recomeçar o sussurro rebelde acerca de “nosso mundo deformado pela semelhança”[ix] de classe, é o escritor que compreendeu o sentido mesmo do século XX. Não obstante, antes ele “fez do século XIX” [x] seu lugar de lembrança – e está a nos ensinar nesta época do esnobismo intransigente (o século XXI) a ver os “campos de força” que estão ocultos pela língua da similitude do gosto. Por isso o Proust de Benjamin é subversivo; a trama caudalosa que ele conta não nos oferece um espaço simplório de crítica cultural diante de estruturas sociais opressoras: seu romance nos lança aos “estilhaços”[xi] espirituais de um mundo representado em cada grupo (Guermantes, Verdurin), em cada olhar estamental condenatório (a desconfiança da masculinidade do Sr. De Charlus), em cada cinismo sexual (a obsessão de Marcel sobre Albertine) e em cada “unidade da família”[xii] (sintetizada na sociedade nacionalista francesa no caso Dreyfus). Um mundo que Proust, com seus longos parágrafos, não permitia o respiro organizado do ar esnobe de classe das “pretensões da burguesia” [xiii], e que assim, sem aquele, foi “derruba[da] ao chão”[xiv] pela incansável sintaxe do Em Busca do Tempo Perdido.

Mas havia algo na leitura de Walter Benjamin acerca de Proust que encantou singularmente aos frequentadores de um e de outro. Era (e é) a emergência de uma filologia do mimetismo (crítico). Proust não percorreu a sociedade francesa (e europeia) no intuito de construir o cosmo real e concreto das relações de interesses que compunham a vida (restaurada) de então; não há nos sussurros proustianos um Luciano Rubempré (de Balzac), um Julian Sorel (de Stendhal) e uma Ema Bovary (de Flaubert). Sua mimese, para além de explicitação da realidade, tinha o aspecto da “curiosidade” [xv] apaixonada na persecução da transcendência. Benjamin viu com argúcia materialista-filológica-curiosa, estas que Adorno encontrou, também, em Kracauer para quem não há humano sem interior e exterior, ou seja, a linguagem tensa da não-identidade, e que o tornou com esse traço antissistemático em inimigo da filosofia (foi o próprio Benjamin quem o chamou assim[xvi]), que Proust estava a soprar através do mimetismo: as “folhagens da sociedade”[xvii] aos quais os “serviçais, […] o mundo dos empregados domésticos”[xviii], eram a contraposição metafórica da sincera gesticulação “graciosa” em busca da felicidade – “a dialética da felicidade”[xix]. Assim, como mestre da hermenêutica a contrapelo, Walter Benjamin leu na tessitura íntima do Em Busca do Tempo Perdido que a articulação entre a disposição mimética e o arrebatamento pela metáfora foi um expediente romanesco de sorte a fazer desabar “a máscara da grande burguesia, [a máscara] das dez mil pessoas da classe alta [que para Proust] eram […] um clã de criminosos”[xx].

Benjamin comentará ainda, acerca do significado da “asma nervosa” [xxi] de Proust transfigurada em linguagem. Transformada em estrutura alegórica. Aqui, o ensaísta da exceção dos de baixo, entendeu mais do que ninguém a circunstância na qual a atimia da respiração de Proust, explicitada na torrencial elaboração de palavras, frases, orações, parágrafos – e mais parágrafos, “[uma] eternidade” [xxii] de parágrafos que sufocam o eu – que deixam o narrador (Marcel) e o leitor sem os alicerces do ar enquanto condição da fala era na verdade, o desejo latente de fazer com que as reminiscências “do tempo entrecruzado” [xxiii] irrompessem na “existência vivida” enquanto “força rejuvenescedora capaz de enfrentar a implacável”[xxiv] luva de ferro (Conceição Evaristo) da semelhança de classe: “[posta] a serviço [da] classe [dos Guermantes-Verdurins]” e seu “véu” moral e cultural exigidos violentamente de todos. Com efeito, como uma espécie de Ponciá Vicêncio, Marcel volta aos seus instantes originários – para lançá-los de modo transliterado no rosto de um grupo social que fez do seu cotidiano de similitude compulsória um longo parágrafo para “encobrir o mistério único e decisivo de sua classe: o econômico”[xxv]. Daí que Walter Benjamin pode dizer que “o passado se reflete no instante, [no] […] [instante] que a paisagem”[xxvi], a experiência de si na outridade do mundo, “se agita como um vento”[xxvii], mas um vento histórico que se transforma em denso “relâmpago” ao atingir aqueles que o Proust de Benjamin insistiu em sussurrar, tenazmente, aos nossos ouvidos que revelariam a violência do esnobismo na “luta final”[xxviii]. Em Busca do Tempo Perdido foi o andaime sobre o qual Walter Benjamin construiu seus avisos de incêndio. E neste novo tempo do mundo, na acídia – estaremos sempre em situação de sofrimento e morte.

*Ronaldo Tadeu de Souza é pesquisador de pós-doutorado no Departamento de Ciência Política da USP.

 

Notas


[i] A “citação” aqui é de memória, ou de cabeça como diz o linguajar popular, de uma intervenção de Walnice por ocasião do Seminário de 100 Anos de Antonio Candido realizado na USP em 2018. Por hora perdi as anotações da fala e o vídeo da mesa desapareceu do youtube.  

[ii] Walter Benjamin – A Imagem de Proust. In: Obras Escolhidas. Brasiliense, vol. 1, 2010, p. 37.

[iii] Ibidem.

[iv] Ibidem.

[v] Ibidem.

[vi] Ibidem, p. 39.

[vii] Ibidem.

[viii] Ibidem.

[ix] Ibidem, p. 40.

[x] Ibidem.

[xi] Ibidem, p. 41.

[xii] Ibidem.

[xiii] Ibidem.

[xiv] Ibidem.

[xv] Ibidem, p. 43

[xvi] Sobre este trecho ver Theodor W. Adorno – O Curioso Realista: Três Vezes Siegfried Kracauer. Novos Estudos Cebrap, nº 85, 2009.

[xvii] Walter Benjamin – A Imagem de Proust. In: Obras Escolhidas. Brasiliense, vol. 1, 2010, p. 43.

[xviii] Ibidem.

[xix] Ibidem p. 39.

[xx] Ibidem, p. 44.

[xxi] Ibidem, p. 48.

[xxii] Ibidem, p. 45.

[xxiii] Ibidem.

[xxiv] Ibidem.

[xxv] Ibidem.

[xxvi] Ibidem, p. 46.

[xxvii] Ibidem.

[xxviii] Ibidem, p. 45.

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