O lado sombrio da neutralidade

Imagem: Kaique Rocha
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Por SLAVOJ ŽIŽEK*

Render-se ao imperialismo não trará paz nem justiça

Luís Inácio Lula da Silva afirmou que o presidente ucraniano Volodymyr Zelenksky e seu homólogo russo, Vladimir Putin, eram igualmente responsáveis pela guerra na Ucrânia. Independentemente de uma tal recusa a tomar partido vir do Brasil, da África do Sul ou da Índia, alegar neutralidade diante da agressiva guerra russa é inaceitável.

O mesmo vale para os indivíduos. Se alguém topar com um homem agredindo incessantemente uma criança em um cruzamento qualquer, é de se esperar que a testemunha tente impedi-lo. A neutralidade está fora de questão. Pelo contrário, a torpeza moral da inação seria deplorável.

Como devemos, então, responder aos comentários recentes de Roger Waters no Conselho de Segurança das Nações Unidas? Em uma videoconferência, o ativista e cofundador da banda Pink Floyd afirmou falar em nome de “mais ou menos quatro bilhões de irmãos e irmãs” por todo o mundo. Ele reconheceu que a guerra da Rússia contra a Ucrânia é ilegal e deve ser condenada “nos termos mais rígidos possíveis”.

Mas logo se precipitou e disse: “A invasão russa da Ucrânia não se deu na ausência de provocações, e também condeno os provocadores nos termos mais rígidos possíveis. (…) Atualmente, a única conduta sensata é demandar um cessar-fogo imediato na Ucrânia. Nenhuma vida ucraniana ou russa a mais deve ser perdida, nenhuma, todas elas são preciosas para nós. Chegou a hora de dizer a verdade ao poder”.

A “verdade” de Roger Waters é realmente uma expressão de neutralidade? Neste mês, em uma entrevista ao Berliner Zeitung, ele disse: “talvez eu não devesse, mas hoje estou muito mais disposto a ouvir o que Vladimir Putin realmente diz. De acordo com vozes independentes que tenho ouvido, ele governa de forma cuidadosa, tomando decisões baseadas em um consenso no governo da Federação Russa”.

Enquanto voz independente que acompanha a mídia russa bem de perto, estou bastante familiarizado com o que Vladimir Putin e seus propagandistas “realmente dizem”. Os principais canais de televisão estão repletos de comentadores recomendando que países como a Polônia, a Alemanha ou o Reino Unido sejam alvo de ofensivas nucleares. O chefe militar checheno Ramzan Kadyrov, um dos aliados mais próximos de Putin, agora reivindica abertamente que “a guerra contra o satanismo continue por toda a Europa e, em primeiro lugar, no território da Polônia”.

De fato, o discurso oficial do Kremlin descreve a guerra como uma “operação especial” de desnazificação e desdemonização da Ucrânia. Dentre as “provocações” da Ucrânia estão permitir paradas de orgulho gay e que os direitos LGBTQ+ subvertam as normas sexuais e os papeis de gênero tradicionais. Comentadores alinhados com o Kremlin falam de um “totalitarismo liberal”, chegando ao ponto de argumentar que o livro 1984, de George Orwell, não era uma crítica do fascismo ou do stalinismo, mas do liberalismo.

Não encontramos nada parecido na mídia Ocidental, onde o tema principal é o de que devemos ajudar a Ucrânia a sobreviver. Até onde eu sei, ninguém defendeu a alteração das fronteiras russas ou a tomada de parte de seu território. No pior dos casos, encontramos demandas contraproducentes de boicote à cultura russa, como se o governo de Vladimir Putin representasse figuras como Pushkin, Tchaikovsky e Tolstói. Assim como defendemos a Ucrânia contra um agressor, também devemos defender a cultura russa de seu abusador no Kremlin. Também devemos evitar o triunfalismo e traçar nossas metas em termos positivos. O principal objetivo não é que a Rússia seja derrotada e humilhada, mas que a Ucrânia sobreviva.

Países “neutros” fora do Ocidente argumentam que a guerra é um conflito local que se apequena diante dos horrores do colonialismo ou de outros eventos mais recentes como a ocupação do Iraque pelos Estados Unidos. Mas isso é uma artimanha óbvia. Afinal, a guerra imperialista russa é, ela própria, um ato de colonialismo. Aqueles que afirmam neutralidade renunciam a seu direito de reclamar dos horrores da colonização em qualquer lugar. Roger Waters é um expressivo expoente da resistência palestina à colonização israelense. Por que a resistência ucraniana à colonização russa seria menos digna de apoio?

Às vezes as coisas são realmente simples assim, especialmente agora que a Rússia se prepara para comemorar o aniversário de sua guerra com uma nova ofensiva. É obsceno culpar a Ucrânia pelos atos russos de destruição, ou caracterizar incorretamente a heroica resistência ucraniana como uma rejeição da paz. Aqueles, como Roger Waters, que demandam um “cessar-fogo imediato” esperam que a resposta dos ucranianos à agressão russa seja abandonar sua própria autodefesa. Isso não é uma fórmula para a paz, mas para a pacificação.

Devemos mencionar – mais uma vez – que a Rússia está contando com a vitória final do argumento “neutralista”. Conforme explica o historiador militar Michael Clarke, “o plano do Kremlin é continuar lutando até que o Ocidente se canse e pressione Kiev a apaziguá-lo entregando qualquer que seja o território que tenham tomado até então”. A Rússia está se preparando para uma guerra prolongada que incluirá a mobilização silenciosa de cerca de 600 mil soldados por ano até um “futuro indefinido”.

Roger Waters está quase certo: a Ucrânia está realmente “provocando” a Rússia ao recusar a se submeter às suas ambições imperialistas, mesmo diante de probabilidades desesperadoras. Nesta altura, a única forma de parar de provocar seu vizinho agressivo e revisionista seria abandonar as armas e render-se. Roger Waters concordaria que o mesmo vale para a Palestina.

Mas render-se ao imperialismo não trará paz nem justiça. Para que possamos alcançar qualquer uma delas, devemos abandonar a pretensão de neutralidade e agir adequadamente.

*Slavoj Žižek, professor de filosofia na European Graduate School, é diretor internacional do Birkbeck Institute for the Humanities da Universidade de Londres. Autor, entre outros livros, de Em defesa das causas perdidas (Boitempo).

Tradução: Daniel Pavan.

Publicado originalmente no portal Project Syndicate

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