O que Daniel Vorcaro falou na polícia?

Imagem: Marcelo Camargo/Agência Brasil
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Por PAULO GHIRALDELLI*

O erro de Vorcaro foi confundir cinismo com realismo: acreditou no Brasil caricato dos derrotistas, não no país sério que o julga e condena

1.

“Se eu tivesse amigos poderosos, como vocês falam, eu não estaria aqui do modo que estou, de tornozeleira eletrônica e passando isso que estou passando”. Essa é a frase marcante do depoimento de Daniel Vorcaro no inquérito que segue, o do Banco Master. Essa frase tem que ser lida com a maior atenção. É uma peça retórica das mais significativas a respeito da mentalidade de uma boa parte dos setores conservadores no Brasil, e que às vezes se espalha mais do que deveria.

Daniel Vorcaro acreditou nessa frase, por isso criou e funcionou como um gigantesco polvo. Queria encontros com todos, amizade com todos. Quanto mais ele acreditava que alguém tinha poder, dentro de seus parcos conhecimentos teóricos a respeito da sociedade, mais ele insistia em trazer tal pessoa para os tentáculos de seus negócios. Queria comprometer as pessoas, e se achava capaz de enganar até o diabo.

Ele tinha fé nesse lema que, no Brasil, costumo dizer que ganha em Luís Felipe Pondé um tipo ideal de adepto, defensor e propagandista. Trata-se daquele que faz questão de se nutrir da ideia barata e essencialmente falsa de que o ser humano é um erro, que a política é violência, poder e dinheiro – e só.

Trata-se de dizer que o Brasil é corrupto por natureza. Sempre escutamos desse tipo de gente a frase “ah! Se fosse em outro país, fulano de tal estaria já preso”. Até parte da esquerda, de vez em quando, cai nisso! Não digo toda a esquerda, mas aqueles que adotam postura política sem reflexão, acompanhados de péssima sociologia e de filosofia social de palestrante.

Por conta do folclore político, há a conversa de que Charles De Gaulle teria adornado nosso país com a frase: “O Brasil não é um país sério”. Mas nós somos sérios. Levamos tudo muito a sério. Temos um ex-presidente que tentou um “golpe Tabajara”, e ele está na prisão, a “papudinha”. Fomos sérios. Não demos chance, nem mesmo ele se defendendo dizendo que era por demais imbecil para preparar um golpe.

Recentemente o governador de Santa Catarina disse que o estado dele é só de brancos, e quis colocar na berlinda a política de cotas. Imediatamente o STF reagiu dizendo que o que ele fez é inconstitucional. Posso multiplicar os exemplos e encher volumes e mais volumes contando de como o Brasil é sério.

O país que se considera o mais sério do mundo, por manter uma democracia que se imagina exemplo, são os Estados Unidos. Bem, Donald Trump foi condenado pela justiça americana e, mesmo assim, virou presidente. Donald Trump favoreceu a invasão do Capitólio, e está como presidente. Donald Trump está matando americanos na rua, com sua “gestapo”, e diz que os americanos fazem “terrorismo doméstico”. Em termos de seriedade, estamos na frente. Em termos de tomarmos atitudes para que o país ande para a frente, estamos vencendo. Daniel Vorcaro não percebeu isso.

2.

Daniel Vorcaro recebeu um sinal, no meio de tudo isso. Ele tentou ser recebido por Fernando Haddad, ministro da Fazenda. O ministro não lhe deu chance de se aproximar. Era o sinal. Mas mentalidade pondezista estava tão arraigada, que o sinal não sinalizou!

O criminoso do Banco Master não conseguiu sequer perceber que a frase dele o compromete. Ela pode ser lida da seguinte maneira: confio que o Brasil é um país corrupto, e só estou com tornozeleira eletrônica por não ter feito mais amigos poderosos do que fiz. Mas a questão é que ele fez bastante. Fez mais que todos que já tentaram coisa parecida.

Todavia, qual foi o seu erro? Ora, simples: ele acreditou em gente que é do tipo do Pondé, ele foi educado pela mentalidade de gente como Pondé. Ele faz parte de um espírito malévolo que aportou aqui quando D. João VI veio fugido de Portugal e fixou no Rio de Janeiro a capital da metrópole. Nem todos vieram com a mesma disposição do próprio D. João.

Boa parte dos que vieram com o rei não queriam construir algo na nova capital, contavam os dias para voltar. E trataram o Brasil como quem defeca no mato e, mesmo sem limpar a bunda, corre para a sala de jantar e senta em cadeiras estofadas, com as nádegas escorregando. Aliás, assim fizeram os nobres que aqui aportaram. Viviam sem esgoto, fedendo, mas marcavam no calendário o dia em que voltariam a usar perfume francês na corte de Portugal, em um clima europeu, sem o calor tropical que, afinal, lhes exigia o banho – algo que eles tomavam como costume selvagem.

Um dia Napoleão iria cair, e então voltariam – assim sonhavam! Enquanto isso, podiam se divertir sexualmente com as “negrinhas” e espancar “negrinhos”. E como era gostoso cavalgar no lombo de um negro! Mais delicioso ainda era cavalgar no lombo de uma “mulata” jovem e fogosa, ou solicitar um escravo forte capaz de lhe penetrar as entranhas. Eram montarias capazes de entender a língua e realizar desejos com mais facilidade que o cavalo propriamente dito. Daniel Vorcaro é o resto empresarial disso. Luís Felipe Pondé é o resto ideológico disso.

3.

Em todos os lugares que estiveram, os homens da metrópole agiram de modo espoliativo, cruel e nojento. Não só os portugueses, claro. Franceses, ingleses e espanhois etc. sugaram suas colônias de maneira obscena. Mas quem olha a colonização portuguesa na África sabe muito bem o quanto nós, brasileiros, tivemos de ficar atentos para não perder tudo.

Hoje o português é um dono de padaria. No passado, um personagem de piadas. Mas, na colonização e, ainda mais quando o Brasil foi o centro do Império, uma parte dos portugueses se achava superior em todos os sentidos. Eles deixaram para a elite brasileira uma nefasta mentalidade que premia a desigualdade e, em seguida, vocifera contra o país por ele ser desigual.

Não faziam isso por serem portugueses, mas simplesmente por serem proprietários de terras e títulos. Viveram em um lugar em que o capitalismo não conhecia o mercado, era tocado pela escravidão. Não devemos esquecer quão tardia foi a nossa abolição da escravatura.

Diminuir o Brasil é uma especialidade dos setores conservadores. Então, todas as vezes que alguém que diz que vota na esquerda, mas se apresenta ao meu lado com frases do tipo “se fosse em outro lugar, não aconteceria tal barbárie” ou “só no Brasil, mesmo, ocorre tal desgraça”, eu não deixo de replicar.

Respondo com algo que eu sei que tal pessoa irá entender: “ué, então vá viver em outro lugar”. Essa é uma resposta ruim, lembra o “Ame-o ou deixe-o”, da ditadura militar. Mas, os tempos são outros, e a pessoa que recebe essa minha resposta, não raro, é aquele que, mesmo sendo rico, não sabe morar em outro lugar, nem a língua do outro ele sabe. Ele é “pope-corno-aicecrim”. Ele é “Bolsonaro Free”. E por aí vai!

Jair Bolsonaro dizia que não leria um livro jamais. Agora, pede para Alexandre de Moraes para entrar no “programa de leitura” da prisão, para diminuir a pena. Mas como fará os resumos obrigatórios? Daniel Vorcaro na prisão terá o mesmo problema. Eles não diferem em inteligência ou cultura não.

*Paulo Ghiraldelli, filósofo, youtuber e escritor, é pós-doutor em Medicina Social pela UERJ. Autor, entre outros livros, de Capitalismo 4.0: sociedades e subjetividades (CEFA Editorial). [https://amzn.to/3HppANH].

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