Piedade

Carlos Zilio. PRATO, 1971, tinta industrial sobre porcelana, ø 24cm

Por ÉRICO ANDRADE*

Comentário sobre o último filme de Claudio Assis

Claudio Assis conseguiu, em seu cinema, transitar por uma estética do sujo, do Recife visceral e degradado, para uma abordagem poética que ora trouxe a poesia marginal para o cinema (Febre do Rato), pintado-a de preto e branco, ora rendeu homenagem à poesia de Maiakovski em Big Jato ao reproduzir, imageticamente, o diálogo entre o poeta e o fiscal da receita que está presente no imortal poema “Conversa sobre poesia com o fiscal de rendas”. A qualidade da sua obra não está em jogo.

Em Piedade ele parece arriscar uma síntese do seu cinema numa forma de trabalho de maturidade. A presença de Fernanda Montenegro no elenco é um indicativo disso. Temas como especulação imobiliária, crescimento urbano, cinemas decadentes compõem a geografia do filme. A exemplo de Amarelo Manga as tomadas se iniciam, e em outros momentos se repetem, num enquadramento por cima das casas. Com isso, ele mostra a espontaneidade do descolamento e também do diálogo interno das personagens. Notável; são as cenas de poesia que se espalham na tela quando o barco com Dona Carminha (Fernanda Montenegro) e Sandro (Cauã Reymond) trafega lento e com enormes estruturas que roubam do Recife, neste caso o grande Recife, a beleza.

Sem deixar a qualidade se desviar do seu trabalho Claudio Assis, contudo, dirige um filme com uma arriscada aposta na caricatura das personagens que pode as asfixiar de obviedade. E, no caso mais grave, achatar importantes pautas num vazio estético. A palavra talvez seja vácuo.

Aurélio (Mateus Nachtergaele) encarna a caricatura do empresário agressivo que com o whisky trama em segredo os seus desmandos num apartamento de frente para o mar. Para tornar o personagem mais complexo o diretor opta por compô-lo num enfoque de conflito e submissão à mãe, que contrasta com a sua posição “ativa” no sexo, mas que longe de tornar o personagem complexo o infantiliza como se fosse uma espécie de motivação infantil que o fizesse operar uma tentativa de compra da comunidade que na praia tinha o seu sustento.

No outro lado, o personagem Omar (interpretada por Irandir Santos) encarna um tipo de líder comunitário meio hippie, com os seus óbvios cabelos grandes e que fica criticando o desenvolvimento da região chamando, sobre uma pedra na qual está fumando o seu baseado, os navios do Porto de Suape de gafanhotos de aço. Ele é o único que faz a interlocução das pessoas da comunidade com o empresário. No entanto, abruptamente ele percebe que o seu elo de confiança é quebrado por um dos moradores que decide vender o seu terreno. Nada disso é apresentado durante o filme que por se centrar na figura do líder comunitário, que tem o monopólio da fala, perde em mostrar no desenlace das cenas de diálogo com o empresário, a complexidade de variáveis que estão presentes num tipo de negócio desses. As coisas não são óbvias como parece sugerir o filme.

Por fim, os jovens que se rebelam contra a empresa de petróleo seguem a toada de uma discussão simples que contrasta flagrantemente com a juventude de Recife, por exemplo, que ocupou o Estelita. Os protestos soam muitas vezes desconexos, com pessoas nuas e mascaradas sobre as pranchas no mar, porque não guardam uma reflexão mais aguda com uma crítica política ao desenvolvimento urbano predatório. No filme há uma desarticulação completa entre os jovens rebeldes e as pessoas da comunidade que só se conectam pelo parentesco, recurso de roteiro de novela, de um deles com o líder da comunidade.

No fim, a decisão de Osmar de vender o terreno para a construtora e garantir um apartamento é sequenciada com o menino com o seu brinquedo, 100% realidade virtual e que foi dado pelo empresário, que da janela do apartamento se prende à realidade que não existe. A cena perde em metáfora para ganhar em certa ingenuidade diante de um problema que o filme obviamente não tem e nem precisa ter pretensão de resolver, mas que não deveria tão pouco lhe retirar a complexidade com uma profusão de personagens rasos amarrados numa trama não menos rasa.

*Érico Andrade é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Referência

Piedade
Brasil, 2019, 98 minutos
Direção: Cláudio Assis
Roteiro: Anna Francisco, Dillner Gomes, Hilton Lacerda
Elenco: Fernanda Montenegrao, Cauã Reymond, Matheus Nachtergaele, Mariana Ruggiero, Irandhir Santos,Gabriel Leone