Por uma ciência transparente e atual

Imagem: Nguyễn Thanh Ngọc
image_pdf

Por RAQUEL MEISTER KO. FREITAG*

A integridade na pesquisa é construída com a formação de cientistas conscientes de seu papel e responsáveis por suas práticas

O estereótipo de cientista é aquela pessoa sozinha que, do nada e instantaneamente, aparece como criadora de alguma coisa que muda a humanidade. Nada mais distante da realidade, pelo menos para algumas áreas do saber. A ciência não é resultado de um feito único e individual. Talvez a história contada reproduza somente aquela tentativa que funcionou, sugerindo um caminho linear e tranquilo.

Talvez existam gênios, talvez exista quem faça ciência assim.

Não é o meu caso. Meu ponto de partida é que a ciência é um trabalho coletivo e colaborativo. Não existe cientista, existe grupo de cientistas que se unem para fazer ciência. A união pode ser no laboratório, mas pode ser também no cafezinho ou no bar. São os encontros, os olhares e as perspectivas diversas que contribuem para o avanço da ciência.

Eu sou uma dessas cientistas que faz ciência coletiva. Mais do que coletiva, descobri que eu faço ciência de grandes times. Um grupo muito, mas muito grande de pessoas atuando em prol de uma causa ou problema de pesquisa. Nesse modo de fazer ciência, o conceito de autoria – entendida como expressão única e individual – perde o sentido. Por isso falamos em colaboração, e não em autoria. Existem propostas de taxonomia de colaboração (uma delas é a Credit) que reconhecem a contribuição de cada uma das pessoas que atuou em uma descoberta. Aquela pessoa que idealizou o experimento tem o mesmo valor que quem coletou os dados; quem fez a análise estatística tem o mesmo valor de que quem redigiu a versão final; quem validou o experimento tem o mesmo valor de que quem captou financiamento, e por aí vai. A autoria é de todas as pessoas que participaram, sem exceção ou hierarquia. Além disso, problemas complexos não são resolvidos de uma única vez: se algum dia alguém anunciar a cura para o câncer, por exemplo, é porque houve todo um engendrado conjunto de produtos científicos anteriores encaixados como um quebra-cabeça, cujo resultado final é a tal descoberta.

Em sendo o produto final coletivo, e em havendo diferentes produtos,  neste modo de fazer ciência é inconcebível pensar que pessoas que trabalharam no mesmo projeto, desenvolvendo a mesma tarefa, reportem seus achados de maneira diferente, em especial metodologias e proposições de problema. O que vertentes de ciência que se baseiam no conceito de autoria, a vertente de ciência de grandes times que se baseia na colaboração chama de reciclagem textual. Periódicos têm política clara quanto à diferença entre a reciclagem textual e plágio (no Brasil, ver as publicações chanceladas pela Associação Brasileira de Linguística: Cadernos de Linguística e Revista da Abralin). Não faz sentido que um problema de pesquisa seja parafraseado, a fim de burlar aplicativos detectores de similaridades. Pior ainda: a crise de reprodutibilidade na ciência, que faz com que resultados obtidos em experimentos não sejam possíveis de ser reproduzidos, é altamente afetada por conta do patrulhamento por conta da aplicação de conceitos como autoria e originalidade. Em projetos de grandes times, a reciclagem textual para explicitação de problema de pesquisa ou detalhamento de metodologia é uma constante. Desnecessário esforço é despendido para “dizer diferente” aquilo que já foi dito por uma voz coletiva de colaboração; não só é desnecessário, como pode ser danoso “dizer diferente” uma rotina metodológica que foi desenvolvida, tendo como consequência a inviabilização da reprodução.

Softwares detectores de similaridades entre textos são utilizados para embasar decisões quanto à integridade na pesquisa. Em produtos derivados de um mesmo projeto de grande time, inesperado seria identificar taxas de não similaridade. O lema do Google Scholar é “Sobre os ombros de gigantes”, frase usada por Sir Isaac Newton (mas que não é dele) quando da sua “descoberta” das leis de mecânica geral. Só podemos avançar porque existe uma base sólida constituída, paulatinamente. Se cada novo produto precisar reinventar a roda, ou melhor, dizer de modo diferente que a roda já foi inventada, apenas para satisfazer percentuais de similaridade, a ciência não avança, a ciência vive a circularidade de reafirmar o que já foi dito, com palavras diferentes.

Não é difícil parafrasear o que já foi dito. Aliás, hoje em dia, com os modelos de grande linguagem como os que embasam GPT3, as paráfrases podem ser conseguidas a um clique, e mais: softwares de similaridade não captam que foi a inteligência artificial que produziu. O grande debate na ciência hoje é como usar a inteligência artificial para avançar a ciência; nossa postura é que ela deve ser usada (até porque nós trabalhamos para que ela exista!), mas sempre com transparência, explicitando o seu uso (ChatGPT tem sido arrolado como colaborador de pesquisas, tendo inclusive entrada no Scopus). Inovações tecnológicas demandam reflexões sobre as práticas: se a inteligência artificial pode produzir escrita científica, como equacionar o papel de autoria? Se softwares de similaridade ainda não são capazes de identificar se houve interferência de inteligência artificial na elaboração do texto, como saber se houve ou não o seu uso? As aplicações do tipo ChatGPT na ciência automatizam trabalho (são capazes de resumir, parafrasear, sistematizar informações, organizar referências, elaboraram códigos de programação, revisarem códigos de programação, dentre outros usos) e liberam demanda de tempo e de cognição para que cientistas façam aquele que é o seu papel primordial: pensar em soluções para os problemas! Usá-las no fluxo da pesquisa científica, da etapa inicial (https://elicit.org, por exemplo, escreve uma revisão sistemática), até a correção da versão final do texto (https://edit.paperpal.com, por exemplo), é um caminho irreversível e que tem potencial para grandes revoluções. A discussão sobre autoria, nesse sentido, torna-se ainda menos relevante. Mas a discussão sobre práticas éticas e íntegras de pesquisa, explicitando o uso destas aplicações em cada uma das etapas do desenvolvimento do trabalho, é um caminho a ser trilhado.

A integridade na pesquisa é construída com a formação de cientistas conscientes de seu papel e responsáveis por suas práticas. Como militante do movimento Ciência Aberta, advogo pela transparência nas práticas e pela democratização da ciência.

*Raquel Meister Ko. Freitag é professora do Departamento de Letras Vernáculas da UFS.


O site A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
Clique aqui e veja como

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Em defesa das bibliotecárias e bibliotecários
12 Mar 2026 Por FELIPE SANCHES: As bibliotecas estão atravessadas pela política e, se negarmos seu papel político, fechamos os olhos ao seu papel estratégico no desenvolvimento cultural, educacional, científico e econômico do Brasil
2
Rússia e China na guerra no Irã
18 Mar 2026 Por VALERIO ARCARY: No xadrez geopolítico da guerra contra o Irã, Rússia e China movem suas peças com cautela: Moscou não pode, Pequim não quer — e o regime persa descobre, na solidão estratégica, que alianças têm limites quando os interesses das potências apontam em outra direção
3
No radar geopolítico – EUA x Irã
14 Mar 2026 Por RUBEN BAUER NAVEIRA: O que o Irã pretende é forçar os americanos a pedirem por negociações que não serão por algum "cessar-fogo", mas que envolverão concessões dolorosas, como o fim de todas as sanções e o desmantelamento das bases militares americanas no Oriente Médio
4
Os impactos da guerra no Irã
16 Mar 2026 Por LUIS FELIPE MIGUEL: Ao atacar o Irã sem estratégia, Trump revela o vazio de sua política externa e a submissão a Israel; no Brasil, o impacto imediato é a alta dos combustíveis, que exige do governo Lula coragem para romper de vez com a paridade internacional e proteger a economia popular do choque inflacionário
5
Hamnet – a vida antes de Hamlet
11 Feb 2026 Por GUILHERME E. MEYER: Comentário sobre o filme de Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
6
A “filosofia” do cérebro podre
15 Mar 2026 Por EVERTON FARGONI: Uma crítica radical à colonização algorítmica da consciência, onde a promessa de prazer imediato culmina na falência do pensamento, da autonomia e da vida democrática
7
Um país (des)governado
13 Mar 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: A guerra no Irã não é imperialismo, é o espasmo de um país sem projeto, governado por um homem que trocou promessas por bombas
8
Pecadores
16 Mar 2026 Por BRUNO FABRICIO ALCEBINO DA SILVA: Comentário sobre o filme dirigido por Ryan Coogler , premiado com quatro estatuetas no Oscar 2026
9
Jürgen Habermas (1929-2026)
16 Mar 2026 Por MARCO BETTINE: Filósofo da esfera pública e do agir comunicativo, Habermas recusou o pessimismo da primeira geração frankfurtiana para mostrar que a modernidade ainda pode fundamentar racionalmente a crítica social
10
A pornô-política
14 Jun 2020 Por RICARDO T. TRINCA: O político obsceno tem prazer pelo domínio, sob a forma de uma prestidigitação, algo que pode ser encontrado também nos mágicos
11
Sonhos de trem
14 Mar 2026 Por VANDERLEI TENÓRIO: Comentário sobre o filme dirigido por Clint Bentley.
12
A escolha de Donald Trump
13 Mar 2026 Por MICHAEL ROBERTS: Trump descobriu que decapitar um regime não é o mesmo que subjugar uma nação: o Irã resiste e o preço do petróleo cobra a fatura
13
Por que a música?
15 Mar 2026 Por FRANCIS WOLFF: Trecho da primeira parte do livro recém-editado
14
A figura do pai
13 Mar 2026 Por SAULO MATIAS DOURADO: Nos filmes indicados ao Oscar, a figura do pai emerge como sintoma de uma época que perdeu a direção do futuro e busca na transmissão um sentido
15
Contraste entre lulismos
12 Mar 2026 Por FERNANDO NOGUEIRA DA COSTA: O ponto cego atual da esquerda é ela ganhar no PIB, ganhar no emprego, ganhar na redução da pobreza, mas perder na pergunta fundamental: “para onde estamos indo?”
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES