Post streptum: espólio

Imagem: Digital Buggu
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Por DANIEL BRAZIL*

Comentário sobre o livro recém-lançado de Airton Paschoa

1.

Airton Paschoa é poeta renitente, com vários volumes lançados nos últimos 30 anos. Também experimentou a prosa, com a novela Dárlin e vários microcontos, antes desse formato se tornar moda. Seu livro Contos Tortos, de 1999, foi a carta de apresentação de um autor irônico, culto e trocadilhesco, que nunca cedeu às facilidades mercadológicas.

Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, passou pelo ensaio machadiano e flertou com a crítica cinematográfica, mas cultivou o eterno retorno à poesia, sina e exorcismo dos demônios que lhe (nos) atormentam.

E não são poucos. Airton Paschoa investe contra as mazelas do capitalismo insensato, lamenta os genocídios planetários, suspira o avanço implacável da idade, cutuca a mesquinhez da classe média, cospe na retórica acadêmica.

Seu humor cáustico às vezes cede algumas brechas para o lirismo desolado, contemplação de um mundo em ruínas, ou para o pequeno deslumbre de uma graça infantil ou um canto de pássaro.

Airton Paschoa surpreende agora o seleto grupo de leitores com o anúncio de seu último volume: Post streptum: espólio. Declara-se um autor defunto (nada mais machadiano!) desde 2022, e jura ter abandonado a labuta literária. Afirma no posfácio que “teve a bondade de poupar os amigos do mister sagrado de reunir os escritos espalhados pelos cantos e dá-los à luz em forma de Miscelânea, como de costume em preito a poetas desavisados”.

Airton Paschoa derrama em mais de 270 páginas sua original receita de prosa poética e poesia ipsis litteris, reafirmando todas as qualidades e cacoetes de sua produção literária. A tentação ao trocadilho vem acompanhada de citações eruditas, às vezes inalcançáveis, que muitas vezes oculta o verdadeiro sentido da empreitada.

Para quem detesta facilidades, é uma delícia. Para os apreciadores da poesia declamada em festinhas de família, pode ser um pesadelo.  É, enfim, e o que não é pouco, um autor de estilo próprio e inconfundível, espécime raro hoje em dia.

Os exemplos são muitos. Um primor de síntese é o poema Manhã:

Em si nua
Em meio à coberta
Promessa aberta
Se insinua.

2.

Mas estes rompantes de lirismo são vagalumes errantes dentro da noite perversa que o poeta descreve. No poema-prosa Histórias da Ironia, abraça “a extinção do homo pestiens”.

E vai além: “Gaza se recobria de gaza, o mais que podia, tripinha a vazar, tripinha de morte ferida, tripinha terminal. Quem te há de recordar? Alfarrábio esfarrapado, esquecido. Mas nós vimos! Acompanhamos ao vivo o genocídio que te varreu. Mas quem há de crer em nós, que também passamos e deixamos passar?”

O autoproclamado “defunto autor” mostra-se dolorosamente atento ao mundo, à crueldade da vida. Descreve o próprio fim, sempre com fino humor, como em Cruzadas:

mão sobe
mão desce
verso sobe
verso cede

mão sobe
peito desce
peito sobe
mão desce
hora cruzam.

E o poema se completa quando voltamos ao título, num jogo bem característico do seu estilo. Brinca com significados, dá pistas enganosas, sugere ecos de poesia clássica, e subverte tudo com piruetas encantatórias.

Embora declare-se “enjoados/ um e outro/ o mar de devolvê-las/ eu de lançar”, não é demais supor que o “autor defunto” ainda se levantará da tumba, indignado e chistoso, atirando suas garrafas no oceano literário que banha as praias do século XXI.

*Daniel Brazil é escritor, autor do romance Terno de Reis (Penalux), roteirista e diretor de TV, crítico musical e literário.

Referência


Airton Paschoa. Post streptum: espólio. São Paulo, e-galáxia, 2025, 282 págs. [https://amzn.to/4lHvkk0]


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