Reportagens incompreendidas

Flamínia Mantegazza, Pequeno diário, 2015
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Por EUGÊNIIO BUCCI*

A imprensa não deve ser medida pela régua partidária, mas pela precisão com que revela os fatos que a política prefere esconder

1.

Um rumorejo arrevesado espreita as melhores redações deste país. A cobertura da ruína do Banco Master, um escândalo com carradas de cifrões, talvez o maior da história bancária dos nossos pobres trópicos, deflagrou azedumes sortidos que põem em dúvida a função insubstituível dos repórteres: apurar o que está acontecendo nas órbitas do poder. O caso adquire relevância porque parte dos queixumes vem de setores que guardam compromissos reais com a causa democrática, normalmente mais propensos a valorizar e defender a vigilância exercida pelos bons jornais.

O mal-estar, disperso e descosido, alastra-se em modulações ora estridentes, ora balbuciantes, sem unidade aparente. Os argumentos, no entanto, parecem ser os mesmos, ainda que com roupagens repaginadas conforme a ocasião. Aponto aqui os três mais chamativos.

A primeira alegação afirma que as reportagens enfeixam uma campanha articulada nas sombras para desmoralizar o Supremo Tribunal Federal. As notícias sobre o surrupio de 40 bilhões de reais teceriam um complô com o objetivo de desacreditar a instituição que resistiu à tentativa de golpe de Estado e, mais ainda, julgou e condenou os criminosos.

O segundo argumento, que é um prolongamento do primeiro, sustenta que o alvo seria o próprio Lula. O descalabro do Banco Master configuraria, então, um factoide agigantado cuja finalidade seria vincular o presidente República com os malfeitos e, assim, implodir suas chances de reeleição. Já o terceiro pressuposto identifica um vício originário: as fontes ocultas das redações seriam agentes do Centrão, que deram de falar em off com a intenção maquiavélica de enfraquecer o STF e derreter o capital político de Lula.

Pode haver elementos de verdade em cada um dos três? Eu não recusaria a possibilidade in limine, mas tendo a desconfiar de um juízo que reduza todo o jornalismo profissional de que dispomos a um coletivo de ingênuos ou, mais ainda, de propagandistas alienados. Sejamos razoáveis.

Com seus inúmeros defeitos, os profissionais de imprensa no Brasil são um pouco melhores do que isso. Fora o quê, não são iguais entre si. Aliás, um dos problemas com o azedume em curso reside justamente na generalização chapada, como se todas as redações fossem uma coisa só, unificadas sob um comando único e inalcançável aos olhos.

É evidente que, em qualquer grande cobertura, equipes diferentes podem pecar pelas mesmas falhas procedimentais. Durante a Lava Jato, por exemplo, repórteres de várias redações negligenciaram do mesmo modo o dever de não acreditar piamente das fontes que cultivavam (ou que os cultivava) na polícia e no Judiciário. Isso acontece e pode acontecer de novo, mas não parece ser o caso desta vez. Ademais, não há indícios convincentes de que esteja em marcha uma ação orquestrada das empresas de mídia para deixar o Centrão feliz da vida.

2.

A crítica à imprensa é sempre bem-vinda: ajuda a aguçar a sensibilidade cívica do público e qualifica a informação. Coisa distinta são os ataques autoritários contra jornalistas, como os que foram perpetrados durante o governo Bolsonaro. Não nos esqueçamos da gritaria covarde, impulsionada pessoalmente pelo então presidente, que insultava o jornalismo pátrio com cartazes onde se lia o palavrão “GloboLixo” – um eco da expressão “Lügenpresse” (imprensa mentirosa), alardeada pelos seguidores de Adolf Hitler. Os questionamentos atuais não têm nada a ver isso. São legítimos e de boa-fé. Devem ser levados a sério por quem leva a sério o debate público.

Subsistem, contudo, dois senões nos discursos contrários à cobertura das falcatruas do Master: os postulados distorcidos pelo exagero, como vimos nos três argumentos principais, e os desvios de método. Quanto a estes, digo apenas que não se deve medir a imprensa pelas réguas partidárias – nunca dá certo. Jornalismo e política são territórios reciprocamente independentes, por mais que se camuflem um no outro. O jornalismo se ocupa dos pontos de partida; a política, dos pontos de chegada.

Explico-me. Se algo funciona mal na sociedade ou no Estado, a reportagem vai lá e investiga. Seu papel é esmiuçar as disfunções. As consequências que a apuração acarretar serão resolvidas em outra esfera, que se situa além das redações: a política. O jornalismo sinaliza um fato (ponto de partida) – a sociedade politicamente organizada encaminha as soluções (ponto de chegada). O que aconteceu ali de fato? Isso quem responde é o jornalismo. Aonde tudo isso nos levará e como chegaremos lá? Essa resposta só pode vir da (boa) política.

Em suma, imprensa e política tendem a constituir campos separados, a despeito dos tais vasos comunicantes, às vezes espúrios, que os vinculam. Se os desdobramentos de uma série de reportagens não favorecem as aspirações de um determinado recorte político, isso não quer dizer as redações tenham trabalhado sem critérios objetivos. Não necessariamente. Portanto, não vale desqualificar o repórter só porque os acontecimentos que ele traz à luz não corroboram nossas predileções doutrinárias.

*Eugênio Bucci é professor titular na Escola de Comunicações e Artes da USP. Autor, entre outros livros, de Incerteza, um ensaio: como pensamos a ideia que nos desorienta (e oriente o mundo digital) (Autêntica). [https://amzn.to/3SytDKl]

Publicado originalmente no jornal O Estado de S. Paulo.


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