Turbulência bancária

Imagem: Francesco Ungaro
image_pdf

Por STAVROS MAVROUDEAS*

Crítica de um artigo recente de Yanis Varoufakis

Num artigo recente, Yanis Varoufakis, referindo-se à atual turbulência bancária internacional, proferiu o slogan supostamente radical “deixem os bancos queimarem”. É claro que esse autor não é famoso pela coerência das suas análises econômicas. Como ele mesmo se descreveu, é um criador de contos de fadas que se passa por um economista. O referido artigo se enquadra totalmente nesta categoria.

Além disso, as visões políticas de Yanis Varoufakis variam – muitas vezes simultaneamente – de radicais (mas nunca realmente de esquerda) a descaradamente conservadoras. Recentemente, por razões eleitorais puramente oportunistas, ele professou dar uma virada à “esquerda”. Em sua recente máscara, ele encontrou apenas alguns cúmplices dispostos e igualmente oportunistas, mas seu sucesso eleitoral ainda está em jogo. É claro que, como em suas análises científicas, a “ambiguidade criativa” (que é sinônimo de oportunismo e falta de confiabilidade) é a marca de sua virada política supostamente radical.

O que é que Yanis Varoufakis propõe com o seu apelo para que os bancos queimem?

É um pouco complicado (mas não difícil) traçar sua perspectiva teórica. Deixando de lado uma autodescrição falsa mais antiga de que ele é um “marxista errático” (parece ser, no entanto, errático demais para ser marxista), ele mais uma vez prova ser um keynesiano superficial. Ele mistura essa perspectiva com a teoria errônea da financeirização (essa é a tese de que hoje há um novo capitalismo dominado por banqueiros que exploram de forma usurária tanto trabalhadores quanto empresários). Caracteristicamente, por meio de uma referência de classe que cria uma classe solitária e rapinante, argumenta que a classe dos “credores e bancos” aperta o laço em torno do pescoço da sociedade como um todo.

Ele então atribui os problemas financeiros contemporâneos à política do governo que “envenenou o dinheiro do Ocidente” sem falhar uma única vez. Não é preciso um conhecimento político-econômico profundo para saber que, ao nível da política econômica, nunca houve uma única taxa de juro nominal, mas que os Estados conduzem a política monetária intervindo no espectro das taxas de juro.

Ao nível da teoria geral, seria interessante se Yanis Varoufakis esclarecesse como – na sua opinião – é determinada uma taxa de juro de compensação de mercado no capitalismo. É uma quantidade puramente monetária que iguala a oferta monetária com a peculiar demanda keynesiana por dinheiro (que depende da demanda psicologicamente determinada por liquidez)? É uma taxa de juros natural como afirmam os neoclássicos? Ou é o equilíbrio entre a demanda e a oferta de capital de empréstimo, mas limitado pela taxa de lucro, como afirma o marxismo? Mas estas questões são letras miúdas para esse economista.

Em questões mais práticas, a opinião de Yanis Varoufakis de que os bancos devem ser autorizados a ir à falência é algo que não é novidade. Os seguidores de Friedrich Hayek, dogmaticamente neoliberais, estão constantemente sustentando essa mesma tese.

Posteriormente, ele se entrega, como de costume, a projetos de ficção científica reformistas. Ele propõe fechar bancos privados (!?). Indica que se deve criar uma moeda digital pelo Banco Central (no caso europeu, como se sabe, tanto para o BCE quanto para Yanis Varoufakis sair do euro é um desastre que apenas a desobediência europeia realista salva!!!). Sugere, ademais, que seja criada uma carteira digital baseada na tecnologia de blockchain (mas não se deve esquecer o seu envolvimento anterior com o mundo sujo das criptomoedas).

Com essas novas instituições, os cidadãos manterão depósitos totalmente garantidos. Se eles querem ter um retorno sobre seus depósitos, então poderiam – assumindo o risco de falência – colocá-los em bancos de investimento (!?). Tal sistema bancário seria capaz de “cumprir as regras de um mercado ordenado” (veja-se como o radicalismo varoufakeano só pode ir muito longe).

Ele ignora, é claro, que o sistema financeiro no capitalismo existe para canalizar capital para os capitalistas e não para servir aos pequenos depositantes. E esse capital monetário não faz essa mediação de graça.

Mas mesmo que o Banco Central se comprometa a arrecadar fundos, também não o fará de graça. Onde obterá lucros para comprar bens públicos (como Varoufakis sugere benevolente, mas obscuramente)? Se fixar uma taxa de juro mais baixa (como prêmio de risco) e/ou impuser uma senhoriagem mais elevada, explorará os depositantes.

A subsequente discussão acalorada de Yanis Varoufakis com os criptonomistas mais neoliberais sobre o “irmão mais velho” e a proposta de um comitê de supervisão monetária não é, para mim, uma discussão séria – mas indigna.

O epílogo do artigo de Yanis Varoufakis é revelador: ele iguala os mineiros aos banqueiros como destinatários nocivos de subsídios da sociedade. Excelente perspectiva de classe de fato!

Mas o problema mais essencial da ficção científica de Yanis Varoufakis é a ignorância (?) da relação do sistema financeiro com a produção e a acumulação real. Na terra do cuco muito esperto que canta de financeirizador, a taxa de juros é pura usura que não tem nada a ver com a taxa de lucro.

Pelo contrário, o marxismo mostra apropriadamente que o juro é parte da mais-valia criada pelos trabalhadores, apropriada pelos capitalistas industriais e redistribuída entre estes e os capitalistas monetários. A turbulência financeira de hoje se deve à incapacidade de aumentar a lucratividade que, por sua vez, limita a renda do sistema financeiro e leva ao colapso da estrutura capitalista da dívida e do capital fictício. O capitalismo responde a esse problema apoiando o capital estrategicamente importante (como os grandes bancos) e aumentando a exploração do trabalho.

Para o movimento operário e para a esquerda real, esta é a frente principal e não a busca de reformas bancárias utópicas que só causam confusão e desorientação. Contra a “ambiguidade criativa” dos companheiros de viagem da política burguesa, o programa de transição da esquerda real dá respostas claras e adequadas.

*Stavros Mavroudeas é professor de economia política da Universidade Panteão, Grécia.

Tradução: Eleutério F. S. Prado.

Artigo publicado no blog do autor.


O site A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
Clique aqui e veja como

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Para além de Marx, Foucault, Frankfurt
25 Jan 2026 Por JOSÉ CRISÓSTOMO DE SOUZA: Apresentação do autor ao livro recém-publicado
2
Avaliação e produtivismo na universidade
23 Jan 2026 Por DANICHI HAUSEN MIZOGUCHI: A celebração das notas da CAPES diante do estrangulamento orçamentário revela a contradição obscena de uma universidade que internalizou o produtivismo neoliberal como nova liturgia acadêmica
3
O Conselho da Paz de Donald Trump
24 Jan 2026 Por TARSO GENRO: Da aridez de Juan Rulfo ao cinismo da extrema direita mundial, Tarso Genro denuncia a transição da cena pública para uma era de tirania privada, em que a gestão do caos e a aniquilação de povos desafiam a humanidade a resgatar o frescor de suas utopias perdidas
4
Hamnet – a vida antes de Hamlet
19 Jan 2026 Por JOÃO LANARI BO: Comentário sobre o filme dirigido por Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
5
Notas sobre a desigualdade social
22 Jan 2026 Por DANIEL SOARES RUMBELSPERGER RODRIGUES & FERNANDA PERNASETTI DE FARIAS FIGUEIREDO: A questão central não é a alta carga tributária, mas sua distribuição perversa: um Estado que aufere seus recursos majoritariamente do consumo é um Estado que institucionaliza a desigualdade que diz combater
6
A ilusão da distopia
27 Jan 2026 Por RICARDO L. C. AMORIM: O novo capitalismo não retorna ao passado bárbaro; ele o supera com uma exploração mais sofisticada, onde a submissão é voluntária e a riqueza se concentra sem necessidade de grilhões visíveis
7
Júlio Lancellotti
28 Jan 2026 Por MARCELO SANCHES: A relevância de Padre Júlio está em recolocar a fé no chão concreto da vida, denunciando o cristianismo que serve ao poder e legitima a desigualdade
8
Enamed e cretinismo parlamentar estratégico
27 Jan 2026 Por PAULO CAPEL NARVAI: É mais prático e eficaz fechar cursos e colocar um fim na farra da venda de diplomas disfarçada de formação. Mas não é nada fácil fazer isso, pois quem consegue enfrentar congressistas venais?
9
O teto de vidro da decolonialidade
29 Jan 2026 Por RAFAEL SOUSA SIQUEIRA: A crítica decolonial, ao essencializar raça e território, acaba por negar as bases materiais do colonialismo, tornando-se uma importação acadêmica que silencia tradições locais de luta
10
Poder de dissuasão
23 Jan 2026 Por JOSÉ MAURÍCIO BUSTANI & PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.: Num mundo de hegemonias em declínio, a dissuasão não é belicismo, mas a condição básica de soberania: sem ela, o Brasil será sempre um gigante de pés de barro à mercê dos caprichos imperiais
11
O declínio da família no Brasil
21 Jan 2026 Por GIOVANNI ALVES: A explosão de lares unipessoais e a adultescência prolongada são duas faces da mesma moeda: a desintegração da família como infraestrutura antropológica, substituída por uma solidão funcional ao capital financeirizado
12
Qual Estado precisamos?
23 Jan 2026 Por ALEXANDRE GOMIDE, JOSÉ CELSO CARDOSO JR. & DANIEL NEGREIROS CONCEIÇÃO: Mais que uma reforma administrativa, é preciso um novo marco de Estado: que integre profissionalização e planejamento estratégico para enfrentar desigualdades estruturais, superando a falsa dicotomia entre eficiência e equidade
13
Hamnet
24 Jan 2026 Por RICARDO EVANDRO SANTOS MARTINS: Entre a fitoterapia de Agnes e a poética de Shakespeare, o filme revela como o saber silenciado das mulheres e o trabalho de luto desafiam a fronteira da morte
14
Por que Donald Trump quer a Groenlândia?
22 Jan 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: O interesse de Trump pela Groenlândia não é geopolítica, mas um presente pessoal às Big Techs: um ato performático de um líder sem projeto nacional, que troca recursos por lealdade em sua frágil trajetória política
15
No caminho do caos
16 Jan 2026 Por JOSÉ LUÍS FIORI: O direito à guerra das grandes potências, herança westfaliana, acelera a corrida ao abismo e consolida um império do caos sob a hegemonia norte-americana
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES