Uma “luta de classes” entre negros?

Imagem: Javier Gonzales

Por RONALDO TADEU DE SOUZA*

Existe hoje a presença de dois grupos negros com interesses e exigências materiais e simbólicas diferentes

Das Wahreist die Wahreit [o certo é a verdade]…” (Max Weber).
“Talvez o papel da publicidade seja mais político que econômico […] Talvez ela sirva, sobretudo para suprimir Mallarmé e sua metralhadora” (Viviane Forrester).

O Brasil é o país ocidental que talvez mais apresente traços específicos. Não é preciso elencá-los aqui para economizar texto e não aborrecer o leitor. Uma das últimas particularidades brasileiras – é a conformação de uma modalidade excêntrica de “luta de classes”. Uma “guerra de classes” entre negros. Ou para ser mais nuançado na formulação: ocorre hoje por aqui, uma sociedade estruturalmente fundada na escravização de pessoas de pele preta, que os interesses (materiais e simbólicos) daqueles e daquelas que supostamente deveriam ter o mesmo horizonte político, social, cultural, econômico e racial, sobretudo, são em certos aspectos distintos – antagônicos até.

Por outras palavras ainda, presenciamos na atualidade o fato irrefutável de dois grupos raciais-sociais assimétricos com perspectivas e objetivos que não convergem para uma mesma busca de emancipação e libertação do racismo. Entretanto, poder-se-ia dizer que sempre assim ocorreu e que isso tem seus traços positivos; que concretamente os interesses dos negros nunca foram homogêneos; que é uma virtude nunca ter havido demandas comuns, pois há uma diversidade de povos e grupos pretos na sociedade brasileira; ou ainda, tratar os negros como um grupo único é expressão de certo preconceito e desconhecimento da sua história em geral e história de suas lutas em particular. Esses “lugares-comuns” formulados com pretensão de sofisticação sociológica não ocultam o argumento factual que se segue.

Mas vejamos então. Desde os tempos da escravidão é certo que havia exigências peculiares entre negros e negras. É mais do que óbvio que os capitães-do-mato tinham um horizonte a ser atingindo. Que os negros e negras nas senzalas possuíam, com certeza, outra perspectiva social, cultural e política. E eram distintas dos que viviam nas casas-grandes. Do mesmo modo que os habitantes dos quilombos, evidentemente, tinham urgências que diziam respeito aos seus modos de existência ali vividos. Com efeito; ainda nos tempos do Brasil pré-moderno, em que vigorava a violenta e cruel escravidão, as reivindicações imediatas não se confundiam. Historicamente, assim, foram se constituindo os vários e múltiplos movimentos negros, com seus repertórios de luta e arranjos de ação coletiva, sobretudo a partir dos anos 1920 (com o delineamento da modernidade brasileira) com a conformação das primeiras organizações de combate ao racismo e figuras importantes que vocalizavam essa luta. (A bibliografia aqui é vasta, basta averiguar os trabalhos dos meus pares e principais pesquisadores e pesquisadoras do tema em nossas ciências sociais.)

Uma evidência irrefutável, não obstante, está presente em todas essas circunstâncias desde os tempos da Colônia passando pelo Império, a Primeira República e chegando à atuação das entidades negras iniciáticas e daí ao arco histórico de lutas até as últimas décadas do século XX e os primeiros anos desse século. As variações nas contendas para extirpar o racismo tinham o objetivo declarado de que o negro e a negra na sociedade brasileira necessitavam, de maneira indelével, buscar de todos os modos imagináveis e inimagináveis lutar com denodo para findar com a ferida nacional do racismo: consequência do modo de produção escravista-colonial. Havia, por exemplo, a convicção de que a organização seria decisiva. Que a formação de associações, clubes de cultura, a criação de movimentos sociais, círculos de debate não poderiam ser adiadas se os ex-escravizados desejassem, verdadeira e concretamente, acabar com o racismo e suas consequências (ou ao menos atenuar os impactos dessa chaga aberta).

A participação em partidos políticos, os de esquerda de preferência (uma relação sempre tensa e não resolvida, se é que chegaremos a termo algum dia…), foi ponto “consensual”. (Clóvis Moura e Minervino de Oliveira foram do PCB – e Lélia Gonzalez, primeiro no PT e na sequência no PDT, ambos no Rio de Janeiro são figuras de uma experiência, relativamente única na luta contra o racismo.) Unidade no diverso. Ou síntese de profusas peculiaridades. O combate de mulheres e homens de pele preta constituiu-se pela compreensão prática de que malgrado as exigências heterogêneas e os sentimentos diferenciados diante e sob a estrutura de dominação causadora do sofrimento racial, a luta contra o racismo e suas manifestações mais cruéis era, de certo modo, a mesma.

Por outras palavras, ao longo de todo o período em que vigorou o escravismo e, após seu “fim”, no século XX brasileiro em particular, a disposição dos interesses de negros e negras apresentava-se como o entendimento bem configurado de que as vias para findar com o racismo tinham de serem concentradas na luta política e organizativa – social e econômica. Isso jamais exclui a demanda por “representatividade” anacronicamente falando: Escolas de Samba, Bailes Blacks nos anos 1970, o Candomblé/Umbanda (a boa e velha Macumba), reivindicação de atrizes negras como Zezé Motta, Dona Ruth de Souza, e nosso Grande Otelo eram modalidades de exigência da presença da cultura negra na formação da sociedade brasileira.

Portanto, era um povo negro– esmagado pela materialidade da escravidão que atendia os interesses da classe dominante branca, um grupo altamente restrito, violento, cínico, mesquinho, discriminador e plenamente consciente dos modos pelos quais garantir seus ganhos (a reprodução sistemática da lógica da sociedade colonial) – vislumbrando a liberdade efetiva de si e, consequentemente, da nação. Ademais: os que haviam conseguido se tornar intelectuais, escritores e escritoras, pesquisadores e pesquisadoras, homens e mulheres de ação prática, figuras decisivas dos movimentos negros e políticos sabiam que estavam a vocalizar as necessidades daqueles que não teriam suas vozes ouvidas dadas as próprias relações sociais racistas que aqui se constituíram.

Esse cenário histórico e político hoje não mais existe. O que presenciamos atualmente na sociedade brasileira, são os interesses não mais de um povo negro com variedades de reivindicações que se fundem, a síntese dos diversos, articuladas pela organização e luta política “comum” com “viés de esquerda”, mas sim de dois grupos – que têm anseios fundamentalmente distintos. Conformou-se no Brasil um grupo de negros e negras que hoje “conseguiram” adentrar (é verdade que com esforço, sangue e suor) os lugares da elite branca dominante, o que na formulação de um tipo de literatura especializada em ciências sociais chama-se espaços de poder e privilégio brancos.

Não é preciso um olhar mais atento para verificarmos a presença de figuras negras a “ganharem” programas em grandes conglomerados de mídia; a circularem em instituições e juntos a membros da elite branca (debates com empresários, atores do judiciário, jornalistas de renome);a fazerem propagandas de grandes marcas (de roupa, cosméticos, acessórios etc.); a darem entrevistas em canais de enorme prestígio tratando de temas da negritude (essas entrevistas são como “conversas ao pé da lareira” regrada a vinho – e quando muito se transfiguram em “consultoria de diversidades”[1]); a proferirem palestras em locais de alto padrão de requinte; e em alguns casos a se tornarem empresários e empresárias com algum capital, diminuto óbvio.

E há um grupo, na verdade uma nação, de pessoas de pele preta que tem interesses radical e, essencialmente, diferentes daqueles que acima apresentei: resultantes de uma sociedade forjada pelo trabalho escravo, o racismo de classe e suas reproduções sistemáticas e por vezes conscientes da elite branca dominante. São mulheres negras que estão a trabalhar em dois, três empregos diariamente para sustentarem suas famílias; jovens meninas, pretinhas mesmo, em filas nas milhares de UBS’s espalhadas pelas periferias brasileiras aguardando uma vaga no pediatra ou na emergência com seus meninos e meninas enfermos enquanto seus companheiros, quando os tem, reproduzem o patriarcado vil deixando-as cuidar de tudo, quando não estão presos ou já foram exterminados pelos sicários a soldo (a polícia estatal e paraestatal) da elite branca dominante; homens pretos, alguns já de cabelos brancos, debaixo de sol escaldante a construir prédios e mais prédios e coletar resíduos não utilizáveis; meninos negros de 15 a 20 anos em motos e bicicletas a entregar o delivery por horas e horas para os mais abastados (a classe média e média alta branca) e são famílias negras, no último período, em filas de açougue à espera de sobras de carnes (ossos) na atual crise econômica e do desemprego que se abateu sobre o país com a pandemia da Covid-19 e o projeto de país do grupo de Bolsonaro-Guedes-Mourão.

A verdadeira realidade que se forma diante de nós é irrefutável. Se aquele grupo da “elite” negra mobiliza os “problemas” (se é que somos problemas… e não o “branco”, sobretudo o da classe dominante) históricos do povo preto para com “conveniência” forjar uma esfera de reconhecimento “conscientemente” ou não em articulação com a elite dominante branca, a princípio e numa primeira análise não nos importa. Bem como quais os eixos causais ou explicativos de uma perspectiva crítica para a existência tal fenômeno, também não. Estudos e pesquisas seguramente surgirão para ensaiar análises e explanações de muito maior folego que este brevíssimo texto de ocasião. De imediato, o que testemunhamos é uma “luta de classes” entre negros; bem entendida as coisas – são demandas, necessidades, exigências, anseios, reivindicações e objetivos materiais e simbólicos consideravelmente diferentes.

Nesse aspecto particular é sugestivo indagarmos acerca do grupo que atua em zona, por assim dizer, intermediária. Como pesquisadores negros e negras formados nos últimos 10-15 anos em centros de excelência (universidades públicas de alta qualidade na produção de pesquisa), com um arranjo disciplinar novo que apresenta outras possibilidades epistemológicas e cognitivas, e com uma literatura “heterodoxa” de ciências humanas a circular nos ambientes acadêmicos e de cultura científico-intelectual estão se posicionando ou irão se posicionar, direta e indiretamente, frente às circunstâncias acima?

Minha hipótese, bastante rudimentar evidentemente, e que precisará de tratamento acurado pelos pesquisadores interessados no tema e com melhor formação que a minha nessa área: é que há de algum modo uma tendência de “hegemonização” do grupo acadêmico pelo grupo de “elite negra” em termos de disposição simbólica (vocabulário, percepção social de si, gestos culturais) – mas não material. (Percebe-se, por exemplo, que há um intercâmbio, uma circulação, da estrutura teórica atual, a literatura de ciências sociais, filosofia, estudos culturais, que lida com questões de raça, racismo, preconceito etc. entre os grupos da “elite negra” e as universidades públicas de excelência; claro que com níveis de compreensão, abordagem, método, problematização e rigor distintos.)Mas isso, novamente, exige uma aproximação mais cuidadosa.

Neste momento basta o diagnóstico (crítico de certo modo) sobre a presença de dois grupos negros com interesses e exigências materiais e simbólicas, infelizmente, diferentes. E por vezes até antagônicos. “Queríamos nós” que todos e todas as pessoas de pele preta junto a pessoas de pele branca (da elite… ou não) estivessem a conversar diante de uma lareira aconchegante regrada a vinho, queijos finos e outras especiarias sobre assuntos vários – desde a ancestralidade até de quão potente é o livro de autor ou autora X ou Y passando pelos Orixás de cada um no bate-papo. Por hora, e se é de lamentar ou não cabe à posição política, teórica e intelectual dos que estão envolvidos nesse debate inclusive de quem escreve aqui, constata-se apenas imediata e concretamente, de que existe hoje no Brasil com inaudita excentricidade: uma “luta de classes” negra.

*Ronaldo Tadeu de Souza é pesquisador de pós-doutorado no Departamento de Ciência Política da USP.

 

Nota


[1]Sobre os termos “conversas de lareira” e “consultoria de diversidade” ver Hari Kunzru. “The Wages of Whiteness: whiteness is a concept that can be made to serve many interests and positions, not all of them compatible”. The New York Review of Books, September, 24, 2020, Issue.