Vidas negras: quem se importa?

Artista Navajo Não Identificado, Serape, ca. 1865–70. (acervo The Met)
image_pdf

Por RAFAEL R. IORIS*

Qualquer reforma ambiciosa da estrutura policial e do sistema de justiça dos EUA, esbarra no conservadorismo da sociedade americana

O dia 25 de maio passado marcou o primeiro aniversário do assassinato de George Floyd pela polícia da cidade de Mineapolis, em meio a um debate profundo na sociedade norte-americana. Graças ao vídeo de celular feito, a cerca de um ano, por uma moça que presenciou o policial branco Derek Chauvin sufocando o pescoço do afro-amecinao Floyd por quase dez minutos, o movimento Vidas Negras Importam reacendeu as manifestações de rua em meio ‘a pandemia da Covid-19, levando milhões de pessoas a se mobilizar por uma reforma no sistema policial, que despropocionalmente prende, maltrata e mata pessoas negras nos EUA. A comoção do vídeo foi, de fato, tão intensa que em abril desse ano Chauvin foi condenado pelo crime, algo raro no sistema judicial do país que, em geral, tende a absolver policiais mesmo em crimes praticados em serviço.

Mas embora vitoriosas na obtenção da condenação de um dos assassinos de Floyd (outros três policiais presentes na cena do crime aguardam julgamento), e em pressionar o atual presidente Joe Biden – político de perfil moderado e mesmo conversador no que refere ‘a questão do tratamento policial e judiciário das minorias raciais –, a assumir o compromisso eleitoral de buscar reformar os departamentos de polícia (algo que, de fato, ele não pode fazer muito já que são todos orgãos de autoridade local); as mobilizações contra o racismo estrutural e a violência policial a ele associada expressam chagas abertas naquele país. De fato, no mesmo dia do anúncio da condenação de Chauvin, a adolescente negra Ma’Khia Bryant foi morta pela polícia de Columbus, no estado de Ohio, e vários outros jovens negros também foram mortos por diferentes policiais desde abril passado.

Ainda assim, é inegável que a tragédia envolvendo George Floyd ajudou a redefinir o perfil da mobilização por justiça racial nos EUA, tendo efetivamente servido para trazer um nível de reconhecimento amplo na sociedade sobre tais questões, inclusive entre americanos brancos; algo talvez anteriormente visto somente na era do Movimento por Direitos Civis da década de 1960. Além das milhares de marchas que tomaram conta das ruas das cidades mais variadas, em tamanho e localização no vasto território dos EUA, por noites sucessivas em junho do ano passado, muitas companhias se comprometaram a fazer mais para promover a diversificação da sua força de trabalho e criar mecanismos para atrair e promover um número maior número de pessoas das minorias raciais entre seus quadros, e jogos das principais ligas profissionais do país  presenciaram demonstrações de apoio a tais causas entre seus jogadores. No mesmo sentido, embora não tenha sido possível manter o nível de demonstrações de rua ao longo dos últimos 12 meses, especialmente dado que no final do ano passado, houve um recrudescimento fortíssimo dos números da pandemia, a mobilização tornou-se mais institucional mas não menos intensa.

Muitos Departamentos de Polícia tem implementado reformas nos procedimentos permitidos aos seus membros, embora muitas destas não chegem a atender as demandas mais fortes dos movimentos de base, como, em muitos casos, pela eliminação completa dos próprios departamentos e sua substituição por agências de serviço social e promoção de programas de educação de base em comunidades de alto risco. O Ministério da Justiça reestabeleceu forças tarefa e programas de supervisão, prevenção e punição de crimes de natureza racial (portanto de jurisdição federal), eliminados pela gestão Trump. E de maneira mais prospectiva, a questão da injustiça racial foi ainda mais integrada nas conversas diárias da mídia, escolas, igrejas e pessoas em geral, embora ainda haja, certamente, muita divisão nesse tema (entre outros vários) na sociedade como um todo e que se encontra hoje em meio a uma forte polarização ideológica.

De fato, como sociedade tradicionalmente conservadora que é, já se percebe, especialmente entre apoiadores do partido Republicano e, ainda mais, de Trump, que começa a crescer o clamor por cautela em qualquer tentativa de reforma mais ambiciosa, seja das estruturas policiais, seja do sistema de justiça, em geral. Muitos pais tem resistido a incorporação mais explícita de temas raciais nos currículos escolares e muitos políticos tem resistido intensamente a ideia de reduzir, senão mesmo eliminar de todo, o orçamento de distritos policiais, especialmente no momento em que se vê que as taxas de homicídios cresceram em várias cidades ao longo do ano passado. No mesmo sentido, as taxas entres os que veem a necessidade que se melhore as relações inter-raciais no país são vertiginosamente constrastantes já que enquanto três quartos dos Democratas percebe essa necessidade, somente um quarto dos Republicanos concordam com essa posição.

Portanto, mesmo que o assassinato de George Floyd tenha ajudado a galvanizar a luta por justiça racial nos EUA, ainda há, com certeza, um longo caminho pela frente. Caminho esse que certamente será marcado pela dor e, talvez mesmo, morte de outros afro-americanos até que o país consiga melhorar seu tratamento das suas ditas minorias raciais que, efetivamente, continuam sendo tratadas como cidadãos de segunda classa na suposta terra da democracia.

*Rafael R. Ioris é professor da Universidade de Denver (EUA).

 

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Em defesa das bibliotecárias e bibliotecários
12 Mar 2026 Por FELIPE SANCHES: As bibliotecas estão atravessadas pela política e, se negarmos seu papel político, fechamos os olhos ao seu papel estratégico no desenvolvimento cultural, educacional, científico e econômico do Brasil
2
Fim da guerra no Irã?
11 Mar 2026 Por LISZT VIEIRA: A guerra revelou que força militar sem estratégia política cobra um preço alto, e quem controla a escalada controla também o desfecho
3
No radar geopolítico – EUA x Irã
14 Mar 2026 Por RUBEN BAUER NAVEIRA: O que o Irã pretende é forçar os americanos a pedirem por negociações que não serão por algum "cessar-fogo", mas que envolverão concessões dolorosas, como o fim de todas as sanções e o desmantelamento das bases militares americanas no Oriente Médio
4
Daniel Vorcaro e o "novo capitalismo" brasileiro
10 Mar 2026 Por JALDES MENESES: O novo capitalismo brasileiro forja um Estado Predador onde o rentismo digital, o crime organizado e a política se fundem numa aliança que corrói o pacto de 1988
5
Hamnet – a vida antes de Hamlet
11 Feb 2026 Por GUILHERME E. MEYER: Comentário sobre o filme de Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
6
Um país (des)governado
13 Mar 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: A guerra no Irã não é imperialismo, é o espasmo de um país sem projeto, governado por um homem que trocou promessas por bombas
7
Uma batalha depois da outra
11 Mar 2026 Por WALNICE NOGUEIRA GALVÃO: Considerações sobre o filme de Paul Thomas Anderson, em exibição nos cinemas
8
Contraste entre lulismos
12 Mar 2026 Por FERNANDO NOGUEIRA DA COSTA: O ponto cego atual da esquerda é ela ganhar no PIB, ganhar no emprego, ganhar na redução da pobreza, mas perder na pergunta fundamental: “para onde estamos indo?”
9
A “filosofia” do cérebro podre
15 Mar 2026 Por EVERTON FARGONI: Uma crítica radical à colonização algorítmica da consciência, onde a promessa de prazer imediato culmina na falência do pensamento, da autonomia e da vida democrática
10
Os impactos da guerra no Irã
16 Mar 2026 Por LUIS FELIPE MIGUEL: Ao atacar o Irã sem estratégia, Trump revela o vazio de sua política externa e a submissão a Israel; no Brasil, o impacto imediato é a alta dos combustíveis, que exige do governo Lula coragem para romper de vez com a paridade internacional e proteger a economia popular do choque inflacionário
11
Linguagem inclusiva
12 Mar 2026 Por BEATRIZ DARUJ GIL & MARCELO MÓDOLO: Mais sintaxe, menos torcida: permitir não é prescrever, inovar não é normatizar
12
A imprensa como ideologia
11 Mar 2026 Por LUIZ MARQUES: A neutralidade da imprensa é a mais eficaz das ideologias: faz o golpe parecer democracia e o genocídio, conflito
13
O coturno no pátio
09 Mar 2026 Por JOSÉ CASTILHO MARQUES NETO: O silêncio imposto pelo coturno nos pátios escolares não educa, apenas endurece o solo onde a liberdade e o pensamento crítico deveriam florescer
14
A escolha de Donald Trump
13 Mar 2026 Por MICHAEL ROBERTS: Trump descobriu que decapitar um regime não é o mesmo que subjugar uma nação: o Irã resiste e o preço do petróleo cobra a fatura
15
A coragem de estar errado
10 Mar 2026 Por CELSO PINTO DE MELO: O conhecimento científico não se funda em fidelidade, mas em teste e revisão. Sem essa disciplina, a esfera pública retorna ao dogma
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES