As sanções norte-americanas à Rússia

image_pdf

JOSÉ LUÍS FIORI*

Veto americano ao gasoduto do Báltico: imperativo geopolítico e concorrência capitalista.

Segundo Halford Mackinder, “quem controla o ‘coração do mundo’ comanda a ‘ilha do mundo’, e quem controla a ‘ilha do mundo’ comanda o mundo”. A ‘ilha do mundo’ seria o continente eurasiano, e seu coração estaria situado – mais ou menos – entre o mar Báltico e o Mar Negro, e entre Berlim e Moscou.
(J. L. Fiori. A geopolítica anglo-americana. In: História, Estratégia e Desenvolvimento. Petrópolis: Vozes, 2014, p. 141).

Halford Mackinder (1861-1947), o pai da geopolítica anglo-americana, formulou no início do século XX uma teoria sobre a distribuição espacial do poder mundial e traçou uma estratégia correspondente de conquista e controle anglo-saxão do poder global. Sua teoria e estratégia foram na verdade uma sistematização e racionalização daquilo que a Inglaterra já vinha fazendo desde o fim das Guerras Napoleônicas, quando o Foreign Office inglês definiu, pela primeira vez, a Rússia imperial dos Romanov como principal concorrente do poder britânico na Europa, na Ásia Central e, inclusive, na América. A mesma estratégia que depois se manteve no século XX, com relação à Rússia comunista de Vladimir I. Lênin a Mikhail Gorbachev, e segue vigente hoje, com relação à Rússia nacionalista e conservadora de Vladimir Putin.

No século XIX, esta preocupação britânica foi a verdadeira origem da chamada Doutrina Monroe, que foi de fato formulada e sugerida aos americanos pelo ministro das Relações Exteriores da Inglaterra, George Canning, e que depois de ser rejeitada pelo presidente James Monroe, foi apropriada e anunciada por ele como sendo de sua própria lavra, no seu discurso ao Congresso americano, de dezembro de 1823.[i]

No final do século XIX, e em particular durante o século XX, essa estratégia de isolamento da Rússia adquiriu uma nova dimensão, e um objetivo mais específico, a partir da “primeira unificação” da Alemanha, em 1871, como fica quase explícito na visão de Mackinder, que aparece na epígrafe deste texto: não permitir jamais que a Rússia e a Alemanha estabelecessem entre si algum tipo de aliança estratégica ou de interdependência econômica que lhes permitisse hegemonizar a Europa, e, como consequência, controlar o poder mundial.

A mesma ideia foi retomada pelo diplomata americano George Kennan, em seu famoso telegrama de 22 de fevereiro de 1946, no qual defendia a necessidade de “contenção permanente” da URSS, ideia que foi referendada por Winston Churchill em seu famoso discurso no Westminster College, na cidade de Fulton, Missouri, em 5 de março de 1946, quando propôs a criação de uma espécie de “cortina de ferro” separando a Europa Ocidental da URSS e seus países aliados da Europa Central.

Essa mesma doutrina estratégica está sendo retomada agora – de forma ainda mais radical – pela nova administração democrata de Joe Biden e seu chefe do Departamento de Estado, Antony Blinken, com relação à Rússia de Vladimir Putin. Houve aumento das sanções, das ameaças e da pressão militar em cima exatamente do eixo que conecta o Mar Báltico com o Mar Negro, e que envolve interesses estratégicos diretos da Alemanha e da Rússia em torno da Ucrânia e da Crimeia, na região do Mar Negro, e em torno da Polônia, Lituânia, Letônia e Estônia, na região do Mar Báltico.

É essa mesma estratégia de bloqueio e distanciamento entre Rússia e Alemanha que explica o veto cada vez mais agressivo dos norte-americanos ao projeto de construção do gasoduto “Nord Stream 2”, que começa na cidade de Vyborg, noroeste da Rússia, e chega até a cidade de Greifswald, no nordeste da Alemanha, passando pelo fundo do Mar Báltico, com 1.230 km de extensão e um custo previsto de U$ 10,5 bilhões. Este gasoduto já está instalado em 95% da sua extensão, e ao ser concluído dobrará a capacidade do Nord Stream 1.

Este foi concluído em 2011, com uma capacidade para 55 milhões de metros cúbicos de gás por ano, e com a instalação do novo pipeline, passará para 110 milhões de metros cúbicos por ano. O projeto desse gasoduto do Mar Báltico inclui sua alimentação terrestre na Rússia, sua parte submersa e inúmeras ligações através da Europa Ocidental, e foi financiado por um consórcio liderado pela empresa russa Gazprom, associada com as alemãs Uniper e Wintershall, a austríaca OMV, a francesa Engie e a anglo-holandesa Shell.

Nos seus quatro primeiros meses, o governo Biden já praticou mais duas rodadas de novas sanções contra todas as empresas e governos envolvidos no projeto, e ameaçaram transformar seu veto numa “linha vermelha” intransponível, com ameaças ainda mais graves e destrutivas do que as que já foram feitas, sobretudo com relação ao governo da Alemanha. Nessa sua geopolítica, os EUA contam com o apoio da Polônia, da Ucrânia e dos países bálticos e nórdicos, além de uma parte significativa dos governos e forças políticas da própria União Europeia.

Apesar disso, a Rússia tem insistido na natureza exclusivamente comercial de seu projeto conjunto com os alemães, até porque a Alemanha já recebe o gás russo através do próprio Nord Stream 1, além de outros dois pipelines que atravessam a Ucrânia e a Turquia, sem que esses projetos tenham sido vetados no momento de sua construção. No entanto, deve-se lembrar que essas “autorizações” aconteceram antes da intervenção militar russa na Síria, que consagrou um novo patamar na correlação de forças militares entre a Rússia e os Estados Unidos, e, em particular, com relação às forças da OTAN.

Pelo lado da Alemanha, entretanto, o panorama aparece mais complexo e indefinido, e neste momento os olhos estão postos nas eleições gerais do próximo mês de setembro, quando será eleito(a) o(a) substituto(a) de Angela Merkel, chanceler desde 2005. E a posição alemã frente ao seu projeto do Nord Stream 2 tem estado no epicentro das discussões eleitorais: o Partido Socialdemocrata apoia majoritariamente o projeto, mas hoje é apenas a terceira ou quarta força política da Alemanha, mas o próprio Partido Democrata-Cristão de Angela Merkel está dividido com relação ao tema; e os Verdes, finalmente, que são a segunda força política do país, opõem-se terminantemente ao projeto do gás russo.

A chanceler, Angela Merkel, não vê diferença entre o projeto do Nord Stream 2 com relação aos demais gasodutos que já fornecem gás russo aos alemães e europeus, e considera que a oposição americana atual envolve questões políticas e geopolíticas que transcendem os campos econômico e energético propriamente ditos. O mesmo pensa Gerard Schroeder, antigo chanceler socialdemocrata e atual dirigente do consórcio Nord Stream AG, que lidera o projeto do gasoduto, que considera que o Nord Stream 2 é uma alternativa energética eficaz e “limpa” ao uso do carvão e da energia nuclear, e que resolverá o problema da escassez energética da Alemanha por várias gerações. Além disso, Schroeder considera que o gás russo fracking gas é menos caro, de melhor qualidade e menos agressivo ecologicamente do que o fracking gas americano.

Nessa mesma linha, mas utilizando uma linguagem ainda mais agressiva, o ministro das Finanças da Alemanha, Olaf Scholz, denunciou as sanções americanas como uma “severa intervenção nos assuntos internos da Alemanha e da Europa”,[ii] e o ministro de Relações Exteriores alemão, Helko Maas, chegou a tweetar que a “política de energia europeia tem que ser decidida pelos europeus, não pelos Estados Unidos”.[iii] Assim mesmo, o projeto está “no ar” e é provável que se manterá assim até as eleições gerais do mês de setembro, apesar de que os russos estejam avançando por sua própria conta para concluir os cerca de 150 km que ainda faltam para completar a construção desse gasoduto russo-alemão. Mas não há dúvida de que a solução do impasse parece cada vez mais embaralhada pelo aumento das tensões geopolíticas e militares entre Estados Unidos e Rússia, e, portanto, seu desfecho é imprevisível, ou pelo menos deverá ser adiado ainda por algum tempo.

Enquanto isto, entretanto, os produtores de gás liquefeito americano conseguem ir conquistando e se estabelecendo dentro do mercado europeu, expondo uma vez mais a relação direta que existe entre a geopolítica e sua luta pelo poder, e a conquista e monopolização dos mercados mundiais de petróleo e de gás pelas grandes empresas produtoras e exportadoras de petróleo e gás.

É como reconhece e denuncia a Associação de Negócios do Leste da Alemanha (OAOEV), quando declara que “na prática, a América quer vender seu gás liquefeito na Europa e suas sanções americanas visam expulsar seus competidores do mercado europeu”.[iv] Uma lei de ferro que transcende esta conjuntura imediata, e que se repete todos os dias no mundo do petróleo e do gás, e em toda a “economia de mercado capitalista.[v]

*José Luís Fiori é professor do Programa de Pós-graduação em Economia Política Internacional da UFRJ. Autor, entre outros livros, de História, estratégia e desenvolvimento (Boitempo).

Notas


[i] Fiori, J.L.; “ O poder global dos Estados Unidos: formação, expansão e limites”, in Fiori J.L. (org), O Poder americano, Vozes, Petrópolis, 2004, p, p:73.

[ii] “Germany, EU, decry US Nord Stream sanctions”, Deutsche Welle, 21 December 2019.

[iii] “Ukrania and Russia look to strike new gas deal amid US sanctions threats”. CNBC, 16 December 2019.

[iv] “Nord Stream 2 gas pipelines faces sanctions under Us defense bill”. Deutsche Welle 12 December 2019.

[v] “Os ‘grandes predadores’ que estão na origem do capitalismo junto com os grandes e sistemáticos ‘lucros extraordinários’ foram a verdadeira mola propulsora do capitalismo, por cima da economia de mercado na qual se produzem e acumulam apenas os ‘lucros normais’, incapazes por si só de explicar o sucesso originário europeu, na acumulação e concentração da riqueza mundial”. (Fiori, J. L. Formação, expansão e limites do poder global. In: ______. [Org.]. O poder americano. Petrópolis-RJ: Vozes, 2004, p. 31).

 

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Para além de Marx, Foucault, Frankfurt
25 Jan 2026 Por JOSÉ CRISÓSTOMO DE SOUZA: Apresentação do autor ao livro recém-publicado
2
Avaliação e produtivismo na universidade
23 Jan 2026 Por DANICHI HAUSEN MIZOGUCHI: A celebração das notas da CAPES diante do estrangulamento orçamentário revela a contradição obscena de uma universidade que internalizou o produtivismo neoliberal como nova liturgia acadêmica
3
O teto de vidro da decolonialidade
29 Jan 2026 Por RAFAEL SOUSA SIQUEIRA: A crítica decolonial, ao essencializar raça e território, acaba por negar as bases materiais do colonialismo, tornando-se uma importação acadêmica que silencia tradições locais de luta
4
A ilusão da distopia
27 Jan 2026 Por RICARDO L. C. AMORIM: O novo capitalismo não retorna ao passado bárbaro; ele o supera com uma exploração mais sofisticada, onde a submissão é voluntária e a riqueza se concentra sem necessidade de grilhões visíveis
5
O Conselho da Paz de Donald Trump
24 Jan 2026 Por TARSO GENRO: Da aridez de Juan Rulfo ao cinismo da extrema direita mundial, Tarso Genro denuncia a transição da cena pública para uma era de tirania privada, em que a gestão do caos e a aniquilação de povos desafiam a humanidade a resgatar o frescor de suas utopias perdidas
6
Júlio Lancellotti
28 Jan 2026 Por MARCELO SANCHES: A relevância de Padre Júlio está em recolocar a fé no chão concreto da vida, denunciando o cristianismo que serve ao poder e legitima a desigualdade
7
Notas sobre a desigualdade social
22 Jan 2026 Por DANIEL SOARES RUMBELSPERGER RODRIGUES & FERNANDA PERNASETTI DE FARIAS FIGUEIREDO: A questão central não é a alta carga tributária, mas sua distribuição perversa: um Estado que aufere seus recursos majoritariamente do consumo é um Estado que institucionaliza a desigualdade que diz combater
8
Enamed e cretinismo parlamentar estratégico
27 Jan 2026 Por PAULO CAPEL NARVAI: É mais prático e eficaz fechar cursos e colocar um fim na farra da venda de diplomas disfarçada de formação. Mas não é nada fácil fazer isso, pois quem consegue enfrentar congressistas venais?
9
Hamnet – a vida antes de Hamlet
19 Jan 2026 Por JOÃO LANARI BO: Comentário sobre o filme dirigido por Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
10
Energia nuclear brasileira
06 Dec 2025 Por ANA LUIZA ROCHA PORTO & FERNANDO MARTINI: Em um momento decisivo, a soberania energética e o destino nacional se encontram na encruzilhada da tecnologia nuclear
11
Poder de dissuasão
23 Jan 2026 Por JOSÉ MAURÍCIO BUSTANI & PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.: Num mundo de hegemonias em declínio, a dissuasão não é belicismo, mas a condição básica de soberania: sem ela, o Brasil será sempre um gigante de pés de barro à mercê dos caprichos imperiais
12
Hamnet
24 Jan 2026 Por RICARDO EVANDRO SANTOS MARTINS: Entre a fitoterapia de Agnes e a poética de Shakespeare, o filme revela como o saber silenciado das mulheres e o trabalho de luto desafiam a fronteira da morte
13
O exemplo de Sorbonne
29 Jan 2026 Por EVERTON FARGONI: A recusa da Sorbonne aos rankings é um ato de insubordinação: nega a redução do conhecimento a métricas e reafirma a universidade como espaço de crítica, não de produtividade alienada
14
Entradas: fotografias — Um ensaio de antropologia visual
25 Jan 2026 Por ANNATERESA FABRIS: Comentários sobre o livro de Carlos Fadon Vicente
15
O declínio da família no Brasil
21 Jan 2026 Por GIOVANNI ALVES: A explosão de lares unipessoais e a adultescência prolongada são duas faces da mesma moeda: a desintegração da família como infraestrutura antropológica, substituída por uma solidão funcional ao capital financeirizado
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES