O “terceiro turno”

Imagem: Özer Özmen
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Por VALERIO ARCARY*

A partir de domingo a noite o bolsonarismo deverá deflagrar uma campanha política golpista questionando o resultado das urnas

“Facilmente acreditamos naquilo que queremos. Sem audácia não há fortuna” (Sabedoria popular portuguesa).

O episódio desta quarta-feira foi de máxima gravidade. Jair Bolsonaro queria criar um grande tumulto defendendo o adiamento das eleições, e começou a forjar pretexto para a contestação golpista do resultado, antevendo a perspectiva de vitória de Lula. Estava se reposicionando para um “terceiro turno” dos próximos dois meses em que ainda estará no Palácio, ou seja, para a etapa que se abre depois de domingo, confirmada uma derrota.

Jair Bolsonaro está preocupado com o seu destino, porque sabe que, fora do poder, será investigado e pode ser condenado e preso. A falsa denúncia sobre a supressão de programas de rádio de Jair Bolsonaro foi uma tentativa de preparar terreno para uma nova campanha golpista. Jair Bolsonaro não tem condições de articular uma quartelada: mantém enorme influência política na massa da burguesia, mas a classe dominante está dividida e, internacionalmente, seria insustentável. O plano era um ataque frontal contra Alexandre de Moraes por parcialidade e a exigência de adiamento das eleições forjando uma narrativa para sua base social. Foi obrigado, muito contrariado, a recuar da provocação golpista. O Centrão tem interesses próprios.

O objetivo da convocação dos comandantes do Exército, Marinha e Força Aérea e das consultas aos líderes da coalizão que sustenta seu governo era buscar apoio para a denúncia de alinhamento do TSE com o PT. A verdade é que Alexandre de Moraes se tornou uma referência internacional pelo gigantismo do seu papel no combate às fake news.

O centrão defendeu que essa tática seria equivalente ao reconhecimento de derrota, argumentando que haveria ainda possibilidade de vencer. Agitar a defesa de adiamento colocaria em risco Tarcísio de Freitas e Onyx Lorenzoni nas eleições em São Paulo e Rio Grande do Sul. O giro tático de radicalização tentava, também, buscar mudar a agenda do debate para a discussão de uma suposta fraude. Até esta quarta, dia 26, Jair Bolsonaro estava na defensiva total. A campanha girava, depois do “pintou um clima”, em torno do bang-bang de Jefferson e do congelamento do salário mínimo.

Previsivelmente, Jair Bolsonaro não aceitará o resultado das urnas. A partir de domingo a noite o bolsonarismo deverá deflagrar uma campanha política golpista questionando o resultado das urnas. A credibilidade desta campanha dependerá de vários fatores, por enquanto, imprevisíveis. Dependerá da diferença da votação, do grau de desmoralização de sua base social, de sua capacidade de impulsionar mobilizações de massas. Já estão testando com convocações de Atos por eleições limpas este sábado, 29 de outubro. Querem disseminar o medo. O maior perigo que ameaça uma vitória de Lula é uma elevação da abstenção em função do medo.

Embora as pesquisas confirmem uma manutenção da pequena vantagem de Lula a rigor o desfecho segue indefinido. Ainda há incerteza. Os erros da campanha de Jair Bolsonaro alimentaram uma sensação de alívio na esquerda. O perigo é acomodação em uma zona de conforto. O mais recente DataFolha, nesta quinta, 27 de outubro, confirma uma estabilidade na eleição presidencial, com 53% a 47% nos votos válidos, com uma pequena oscilação favorável a Lula. Aumentou a vantagem de Lula entre os mais pobres, e a vantagem de Bolsonaro entre os que ganham mais de dez salários mínimos.

Lula cresceu entre os evangélicos de 28% para 32%. Este segmento é avaliado como 27% dos eleitores. A pesquisa em São Paulo foi favorável a Jair Bolsonaro, com 6% de dianteira, e mantém 10% de vantagem no Rio de Janeiro. Lula teria preferência em Minas de 48% a 43%, ou seja, Bolsonaro não conseguiu aumentar sua vantagem no Sudeste. O Nordeste compensa com imensa diferença. No primeiro turno, foram 16 milhões de votos de vantagem. Na região metropolitana de São Paulo a vantagem de Lula é de 49% a 41% e a gratuidade dos transportes pode reduzir a abstenção. Em São Paulo 9% podem mudar de voto, contra 6% em Minas e 7% no Rio de Janeiro, enquanto entre os mais jovens são 15%. Um terço dos eleitores de Simone Tebet e de Ciro Gomes ainda pode mudar de voto. Três dias nos separam das urnas e teremos decisões de última hora, além do debate da Globo.

Às ruas, às ruas, às ruas. A luta só termina quando acaba. A hora é de mobilização da campanha de rua ao máximo. Todo esforço faz a diferença. Volume de campanha alenta a militância. No sábado ocorrerão as marchas de rua de encerramento da campanha. A luta contra a abstenção será decisiva. Será importante uma orientação para a apuração no domingo: juntar a militância em locais seguros. Ninguém deve ficar andando sozinho pelas ruas, muito menos em bares e em outros locais com bolsonaristas.

Garantida a vitória de Lula, a orientação imediata deve ser a ida às ruas em massa para celebrar. A comemoração em massa serve para demonstrar força, moralizar a base social da esquerda, acuando e desanimando o bolsonarismo.

*Valério Arcary é professor aposentado do IFSP. Autor, entre outros livros, de Ninguém disse que seria fácil (Boitempo).

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