O que fazer com o militar

Cecil Collins, Cabeça, 1963
image_pdf

Por GILBERTO MARINGONI*

Comentário sobre o livro recém-lançado de Manuel Domingos Neto

Um preocupante consenso de elites ronda a democracia brasileira: o de que as Forças Armadas nada tiveram a ver com a escalada golpista dos últimos quatro anos, cujo ponto culminante foi o terror de 8 de janeiro, em Brasília. Governo, Judiciário e a maioria do Legislativo irmanados com boa parte da mídia apressam-se em construir orações sem sujeito diante de um histórico de ordens do dia, acampamentos em frente a quartéis e participação de altos oficiais em articulações para desacreditar urnas, instituições e organizações da sociedade. Uma passação de pano ampla, geral e irrestrita busca convencer a opinião pública de que sem os fardados, a legalidade teria ido à breca.

Inúmeras vozes se insurgem contra esse acordão. Uma das mais qualificadas é a de Manuel Domingos Neto, no recém lançado O que fazer com o militar – Anotações para uma nova defesa nacional. Professor aposentado da Universidade Federal do Ceará e ex-deputado federal, o autor apresenta uma espécie de síntese de quase meio século de pesquisas, incontáveis contatos com oficiais e refinada análise do passado recente. Não faz rodeios em seu raciocínio: “Escrevi este livro para os que acham possível apaziguar o quartel com atendimento às demandas corporativas. Lula acreditou nisso e foi preso. Voltou ao governo contingenciado pelo fuzil. Dilma também acreditou e perdeu o cargo”.

Para Domingos Neto, o problema essencial é o que chama de transtorno de personalidade funcional do militar. Toda a pregação dos comandos superiores exalta a defesa da soberania e de um difuso conceito de Pátria. Contudo, desde a independência, os soldados são majoritariamente treinados para outra atividade, o combate ao “inimigo interno”. Isso teria se concretizado na manutenção do sistema colonial-escravista, na repressão a movimentos separatistas no Império e a qualquer tipo de rebelião popular na República.

Na Guerra Fria, a partir de 1945, a missão foi embalada pelas teorias de contra-insurgência e no combate à chamada subversão. A partir daí o soldado se percebe como “político, policial, empresário, assistente social, administrador público, construtor de estradas, perfurador de poços no semiárido, guarda florestal, vigia de fronteira, entendido em Segurança Pública, controlador dos tráfegos aéreo, costeiro e fluvial, supremo avaliador da moralidade e planejador do destino nacional”, escreve o autor. Incapazes de desempenhar sua função essencial, a defesa contra a agressão externa, as Forças arrogaram-se o papel de interventoras frequentes na vida política.

Domingos Neto avalia que o Brasil possui um arremedo de Defesa. “Neste domínio, a República fracassou. Para a afirmação da soberania brasileira, precisamos de uma nova Defesa, que revise as funções, a organização e a cultura das Forças Armadas. Chamo essa revisão de reforma militar”, afirma.

A partir daí o livro esboça bases de uma profunda mudança na organização e nos objetivos da caserna. O passo inicial seria o rompimento das Forças com a grande indústria transnacional de armas e com os desígnios das potências hegemônicas.

A reforma proposta deveria rever o número excessivo de generais sem função e a distribuição das tropas pelo país, além de abrir caminho para que mulheres e negros tenham ascensão hierárquica. O trabalho exalta a necessidade de maior investimento estatal em ciência e tecnologia, para dotar o setor de capacidade operacional diante das novas características da guerra. Por fim, deve-se abrir um grande debate nacional sobre Defesa. Trata-se de articulação eminentemente política, que não pode se restringir aos muros da caserna. “Comandantes precisam ser consultados sobre a Defesa, mas a sua concepção e condução cabem ao político”, sublinha Domingos Neto.

Dois pontos buscam amarrar o conjunto de proposições feitas no livro. O primeiro é acabar com a ideia de que as Forças Armadas seriam um poder moderador, com capacidade de intervir na vida política do país, como estabelece o artigo 142 da Constituição. O segundo aponta para uma política abrangente de Defesa, que precisa incluir a coesão social e cidadã do país. Isso implicaria redução da pobreza e da desigualdade, de toda ordem de preconceitos e das disparidades regionais, além da consolidação do regime democrático.

O que fazer com o militar é obra de intervenção e quase um libelo pela mudança do lugar das Armas nas políticas de Estado. O apelo é enfático: “Hoje, os generais tentam administrar perdas e danos por seu envolvimento direto e indireto na baderna golpista. Lula persiste no apaziguamento: comemora o Dia do Exército, ritual enaltecedor da índole colonial da corporação e exalta o Exército de Caxias, expressão que legitima as intervenções domésticas da Força Terrestre”.

Tudo indica haver uma oportunidade histórica para se promover uma grande reestruturação nas forças de Defesa e segurança. O livro de Manuel Domingos Neto é um poderoso alerta de que essa oportunidade não dura para sempre.

*Gilberto Maringoni, é jornalista e professor de Relações Internacionais na Universidade Federal do ABC (UFABC).

Referência


Manuel Domingos Neto. O que fazer com o militar – Anotações para uma nova defesa nacional. Parnaíba, Gabinete de Leitura: 2023, 224 págs.


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
O STF está validando a fraude trabalhista
03 Mar 2026 Por DURVAL SIQUEIRA SOBRAL: Ao legitimar a pejotização, o sistema jurídico reconfigura o trabalho como negócio e não como relação social
2
Guerra na Ucrânia – um duelo sem vencedores
04 Mar 2026 Por EURICO DE LIMA FIGUEIREDO: O conflito que deveria ser relâmpago virou atrito eterno, onde vidas são o preço que nenhuma planilha consegue calcular
3
O cinema revela Jeffrey Epstein
05 Mar 2026 Por EUGÊNIO BUCCI: Para entender Epstein, a lição dos filmes que expõem a orgia dos poderosos
4
Lévi-Strauss
06 Mar 2026 Por AFRÂNIO CATANI: Comentário sobre a biografia do antropólogo realizada por Emmanuelle Loyer
5
Erro de cálculo?
07 Mar 2026 Por PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.: A resistência do Irã e a coesão interna do país só aumentaram com a decisão realmente estúpida, tomada por Estados Unidos e Israel, de assassinar o aiatolá Ali Khamenei
6
O escritor e o intelectual
28 Feb 2026 Por LUCIANA MOLINA: Na escrita acadêmica, já vi quem compartilhasse da ideia de que deve existir uniformidade no tamanho dos parágrafos. O sentido passa a ser construído por coerção externa. Essa homogeneização artificial substitui melodia por monotonia
7
Quem tem medo das mestiçagens?
05 Mar 2026 Por ALIPIO DESOUSA FILHO: Reconhecer as mestiçagens é encarar a história e recusar as ficções de pureza que sustentam o racismo
8
Tempos de exceção
04 Mar 2026 Por OLGARIA MATOS: Na lógica da segurança que governa a desordem, a alienação não é mais apenas do trabalho, mas da própria condição de existir no tempo — e só a reabertura do futuro como promessa, não como ameaça, que se pode interromper a regressão para o reino das emoções primárias
9
A hegemonia da lógica da financeirização
04 Mar 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: Sem compreender a simbiose entre plataformização e financeirização, toda análise do capitalismo contemporâneo permanece cega para a alma dos trabalhadores e vazia de transformação possível
10
Universidade pública e coragem institucional
05 Mar 2026 Por RODRIGO OTÁVIO MORETTI: A universidade pública sustenta direitos no tempo longo. Defendê-la é um gesto de responsabilidade democrática
11
O novo imperialismo de Donald Trump
03 Mar 2026 Por CARLOS EDUARDO MARTINS: O Hemisfério Ocidental substitui o Oriente Médio na condição de espaço vital estadunidense, mas o projeto de poder mundial de Trump não delimita zonas de influência: é o de construir um império global que impeça o surgimento de qualquer força regional
12
Cenários para o fim da terceira guerra do Golfo
06 Mar 2026 Por ANDREW KORYBKO: Entre a rendição estratégica e a balcanização, o futuro incerto do Irã no tabuleiro do Golfo
13
Marx, a técnica e o fetichismo tecnológico
07 Mar 2026 Por ANTONIO VALVERDE: Artigo da coletânea recém-lançada “Figuras do marxismo”.
14
Europa: 50 países em busca de um continente
06 Mar 2026 Por FLAVIO AGUIAR: Do Concerto Europeu ao silêncio obsequioso, a longa agonia de um continente
15
Trabalho e desenvolvimento no Brasil
07 Mar 2026 Por FLORESTAN FERNANDES: Texto da arguição da tese de livre-docência de Luiz Pereira
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES