Estado-bomba

Imagem: Elīna Arāja
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Por SAMUEL KILSZTAJN*

Filho de sobreviventes do Holocausto, fui criado e sigo o lema “não matarás”. Assim, assisto com horror à irresponsabilidade dos sionistas em relação à vida e ao mundo

Em 21 de outubro de 1956, minha mãe simplesmente sumiu de casa e eu fiquei sob os cuidados de minha avó materna e do meu pai. Eu já tinha então cinco anos de idade e não lembro quais foram as explicações que recebi, se é que houve alguma. De qualquer forma, minha mãe voltou alguns dias depois carregando no colo um fofinho bebê embrulhado em panos. Eu nem tinha notado que ela havia ficado barriguda. Por incrível que pareça, naquele tempo, conversas sobre sexo e gravidez não faziam parte da agenda doméstica e social de uma criança. De acordo com Michel Foucault, falar sobre sexualidade, mesmo entre adultos, é uma característica da modernidade.

Entre o sumiço e a volta de minha mãe, provavelmente para me distrair, meu pai trouxe uma televisão que ficava chiando o tempo todo, às vezes veiculava um indígena norte-americano estampado na tela e, raramente, alguma outra imagem e som. O indígena, soube depois, era o símbolo da TV Tupi, a primeira emissora a operar no Brasil. Embora tenha me entretido na ocasião, nunca me amarrei nem nunca tive televisão em minha própria casa.

Você já ouviu a Nona Sinfonia de Beethoven? Carinhoso de João de Barro e Pixinguinha ou Assum Preto de Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga? Talvez Sampa de Caetano Veloso? Pois é, você provavelmente já ouviu todas essas músicas mais de uma vez e, mesmo assim, continua disposto a ouvi-las novamente. Leio e releio Sófocles, Shakespeare e Liev Tolstói que, embora conheça os enredos de trás para frente, sempre me emocionam como se os estivesse lendo pela primeira vez. Posso dizer o mesmo de O Garoto de Chaplin, Sunset Boulevard de Billy Wilder e Blade Runner de Ridley Scott.

Então, eu não tinha televisão e vivia enterrado em livros que lia e relia e filmes antigos que assistia nos cinemas. Em 1990, quando eu morava na Rua Frei Caneca, foi inaugurado o Elétrico Cineclube na Rua Augusta 973 [http://www.cinemasdesp.com.br/2008/08/eltrico-cineclube.html], a duas quadras da minha casa. Eu frequentava tanto as salas do cinema que, a certa altura, resolvi ficar sócio vitalício do Cineclube, que garantia entrada gratuita até o final da minha vida. Eu continuo vivo, mas a vida do Elétrico chegou ao fim um ano após eu me tornar vitalício (o que sobrou foi a minha carteirinha de sócio que guardo até hoje).

Em 1985, ano que marca o fim da ditadura militar, eu era professor efetivo da Unicamp e solicitei demissão da universidade que, despótica e irregularmente, não autorizou meu afastamento para um pós-doutorado, nem sem remuneração. Enquanto meus colegas, indicados por Ulisses Guimarães, se dirigiam para Brasília, eu zarpei para a New School de Nova York.

Meus amigos mais íntimos ficaram abismados com a minha iniciativa, porque o Instituto de Economia da Unicamp era o mais importante do país e, como professor efetivo, eu tinha um cargo vitalício e direito a uma aposentadoria integral. A Unicamp que me perdoe, mas eu achava tudo aquilo um atraso de vida. Estava na casa dos meus 30 anos de idade e não queria sacrificar minha vida para garantir uma aposentadoria integral. Vivia o presente, nunca pensei no meu futuro e em chegar a viver uma velhice milionária.

Sempre tive desapego à vida. Não temer a morte, para mim, era uma forma de viver a vida de modo pleno. Em 20 de julho de 1971, depois de passar por interrogatórios e torturas na sede da Operação Bandeirantes da Rua Tutóia, fui levado e adormeci na cela, invadido por um desejo de não acordar vivo para o dia seguinte. Mas eu continuo vivo e a Ditadura morreu, apesar das saudades que ainda despertam em vários meios macabros.

Hoje, já na casa dos meus setenta anos de idade, programei minha partida para 2035. Mantenho desprendimento à vida, não fui abduzido pela TV, sobrevivi à Ditadura Militar, à Unicamp e ao Elétrico Cineclube, mas não me preparei para sobreviver ao mundo, ver o mundo se acabar. Sentado aqui no meu sofá, sinto-me totalmente impotente frente às notícias que me cercam, especialmente a carnificina na Palestina e a destemida provocação de Israel ao Irã.

Há pessoas que acham que tudo estava tranquilo antes da violência que Israel sofreu em 7 de outubro de 2023. Outras, mais conscientes, atribuem o conflito à ascensão da direita sionista ao poder em 1977 e, definitivamente, em 2001. Outras ainda conseguem ver a origem dos problemas na ocupação da Faixa de Gaza e da Cisjordânia a partir de 1967, responsável pelo surgimento do movimento nacional palestino.

Poucas são aquelas que conseguem assumir a violência e a expulsão perpetradas contra a população nativa da Palestina desde o início do século XX, quando os judeus representavam 8% da população, e especialmente por ocasião da criação do Estado de Israel em 1948. Em suas várias gradações, os defensores do Estado de Israel se posicionam como se não houvesse relação entre o moderno sionismo político e a liderança de um primeiro-ministro que prefere ver o mundo ir a pique do que ter que enfrentar o judiciário e a prisão reservada a ele por corrupção.

A história da humanidade, em algumas culturas, convive com ataques suicidas e homens-bomba. Mas há também o conceito de estado-bomba ou estado suicidário, nos termos de Paul Virilio, utilizado por Bentzi Laor, referindo-se ao Estado de Israel. Patrick Lawrence, em artigo após o assassinato de Ismail Haniyeh, escreveu que Israel está determinado a buscar uma guerra mais ampla na região, centrada na destruição da República Islâmica. Ao que tudo indica, o Estado de Israel almeja alastrar o conflito e, se preciso for, de acordo com o seu entendimento, está disposto a ver o mundo, munido de bombas de hidrogênio, ingressar numa guerra mundial para salvaguardar a sua existência enquanto estado judeu.

Filho de sobreviventes do Holocausto, fui criado e sigo o lema “não matarás”. Assim, assisto com horror à irresponsabilidade dos sionistas em relação à vida e ao mundo. E, como sempre, passo preto no branco, despejo minhas angústias no papel. Também, como posso estar errado em relação ao fim do mundo, vou continuar empenhado em me manifestar contra a carnificina em Gaza, a crise climática, a injustiça social, arrumar as minhas gavetas e pagar as contas que vencem no final deste mês. Minha mãe sumiu de casa mas voltou carregando no colo um fofinho bebê embrulhado em panos.

* Samuel Kilsztajn é professor titular em economia política da PUC-SP. Autor, entre outros livros, de Jaffa [amz.run/7C8V].


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