Candidatas – os primeiros passos das mulheres na política no Brasil

Zhusup Mataev, Zhamila, 2015
image_pdf

Por MARIO LUIS GRANGEIA*

Comentário sobre o livro recém-lançado de Malu A. C. Gatto e Débora Thomé

Um livro lançado neste período eleitoral dirige atenção merecida a um tema invisibilizado há tempos na agenda democrática: as múltiplas e ainda atuais violências contra mulheres na disputa pelo voto. Em Candidatas: os primeiros passos das mulheres na política no Brasil, as cientistas políticas Malu A. C. Gatto e Débora Thomé iluminam, a partir de entrevistas feitas nas eleições de 2020 e 2022, um quadro familiar a grande parte das mulheres atuantes na política partidária. Assim, fazem refletir sobre uma pauta tanto política quanto científica: as cotas de gênero e outras inovações legislativas não livraram as candidatas de práticas avessas a seus direitos políticos.

Ao articularem depoimentos de 79 políticas, as autoras interpelam não só as persistentes violências contra elas. Candidatas pode ser lido inclusive como um convite para aplicar às eleições o termo “teto de vidro”, usual na alusão a limites invisíveis à ascensão de grupos sub-representados no mercado de trabalho. São bons os diálogos firmados entre olhares das candidatas e achados de estudos recentes da ciência política.

Mecanismos que limitam o trabalho das candidatas são evidenciados nos testemunhos do front das campanhas discutidos por Malu Gatto e Débora Thomé. A estrutura do livro ajuda a identificar a natureza e a dinâmica de tais barreiras. De início, o perfil das candidatas é revisado com base em dados sociodemográficos de 2020 e 2022 (ex.: idade, estado civil e raça/etnia). O foco depois recai nas percepções das candidatas sobre cinco temas (a que me detenho adiante): interesse pela política; filtro partidário; campanhas (offline e digitais); violências vividas; e pós-eleição. Por fim, as autoras repassam visões masculinas sobre tais temas e discorrem sobre o perfil de mulheres eleitas e novas perspectivas das candidatas.

Interesse pela política

Quatro motivações para a política são mais captadas entre elas: vontade de transformar a política; necessidade de maior representatividade; a percepção de sua vocação; e incentivos e convites à disputa (tais razões não se excluem). Muitas delas são convidadas a concorrer pela necessidade de partidos cumprirem a cota (30%). “Estavam precisando de mulheres”, contou candidata do PTC a vereadora em município nordestino.

Dados do Latin American Public Opinion Project (Lapop) citados mostram ser mais comum partidos encorajarem candidatos (18%) do que candidatas (11,5%). Ou seja, lideranças partidárias ainda os privilegiam, em detrimento delas, apesar do incentivo das cotas de gênero para candidaturas e orçamentos de campanha.

Filtro partidário

A relação com o partido, por razões como essa, nem sempre flui bem. Daí as candidatas serem ouvidas sobre a decisão da legenda e os laços com lideranças partidárias e com a distribuição de recursos. Houve caso até de quem soube de evento partidário só por ser casada com outro candidato. A disputa intrapartidária se mostrou até mesmo a mais tensa delas. “Algumas aceitam as dinâmicas de poder que já estão postas e caminham estrategicamente pelas brechas” (p. 76).

Aliás, o processo contra políticos do antigo PROS-RJ pelo boicote a candidatas à Alerj e Câmara dos Deputados, que recém-chegou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), é um exemplo nítido de que partidos podem fraudar a cota de gênero de forma tácita (e não só explicita), exigindo uma reação oficial à altura em prol da equidade de gênero buscada na legislação.

Campanhas (offline e digitais)

Os relatos delas sobre as campanhas têm o diferencial de clarear desafios ignorados por eleitores e até muitos estudiosos de processo eleitoral, sobretudo os da majoritária matriz quantitativa. Há estratégias criativas, como a candidata que aborda cidadãos entregando seu currículo, e as táticas usuais e seus desafios, como o papel de broker, em campanha também para nomes de outros cargos.

Violências

Uma lei de 2021 (no 14.192/2021) firmou a violência política de gênero como crime e ainda há muito a tratar nas violências contra candidatas. Eis, a meu ver, o maior mérito do livro: dar voz a candidatas que viveram algum tipo de violência, na classificação de Krook e Restrepo Sanín e seguida por Malu Gatto e Débora Thomé.

Há quatro tipos: violência física (ameaças limitam a campanha); psicológica (ofensas, ataques e questionamentos abalam sua saúde mental); econômica (a maioria das 79 ouvidas citou a falta de acesso a recursos como crucial); e simbólica (via difusão da desconfiança e a ocultação dos nomes delas).

Um relato ilustra como a violência pode ser implícita: “Se eu for olhar juridicamente, só o fato de eu não receber verba e não ter tido reuniões periódicas já é violência. Mas ninguém me desrespeitou ou fez fake news comigo”, notou candidata do Solidariedade a uma Assembleia Legislativa (p. 122). Aliás, teria sido bem-vindo expor mais da história da Lei 14.192/2021.

Pós-eleição

O título do capítulo 7 (“Ressaca de campanha”) já sinaliza as percepções debatidas ali. Frustrações e alegrias entremeiam avaliações sobre resultados nas urnas. “O apoio que eu tive foi de Deus e da população”, apontou candidata derrotada do PP-GO a deputada federal. Como frisam as autoras (p. 144) no fecho do capítulo (que caberia ao do livro), “vontade política, disposição para o risco, desejo de fazer a diferença. Movidas por esses sentimentos, apesar de tudo, as candidatas resistem, persistem e insistem nas candidaturas: é quase uma profissão de fé”.

*Mario Luis Grangeia, analista do Ministério Público, é doutor em sociologia pela UFRJ. Autor, entre outros livros, de Irmãos de além-mar? Portugueses e a imigração no Brasil (Ed. UFRJ).

Referência


Malu A. C. Gatto, Débora Thomé. Candidatas: os primeiros passos das mulheres na política no Brasil. Rio de Janeiro, FGV Editora, 2024, 200 págs.l. Rio de Janeiro, FGV Editora, 2024, 200 págs. [https://amzn.to/3Y4Bq5b]


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Rússia e China na guerra no Irã
18 Mar 2026 Por VALERIO ARCARY: No xadrez geopolítico da guerra contra o Irã, Rússia e China movem suas peças com cautela: Moscou não pode, Pequim não quer — e o regime persa descobre, na solidão estratégica, que alianças têm limites quando os interesses das potências apontam em outra direção
2
Os impactos da guerra no Irã
16 Mar 2026 Por LUIS FELIPE MIGUEL: Ao atacar o Irã sem estratégia, Trump revela o vazio de sua política externa e a submissão a Israel; no Brasil, o impacto imediato é a alta dos combustíveis, que exige do governo Lula coragem para romper de vez com a paridade internacional e proteger a economia popular do choque inflacionário
3
No radar geopolítico – EUA x Irã
14 Mar 2026 Por RUBEN BAUER NAVEIRA: O que o Irã pretende é forçar os americanos a pedirem por negociações que não serão por algum "cessar-fogo", mas que envolverão concessões dolorosas, como o fim de todas as sanções e o desmantelamento das bases militares americanas no Oriente Médio
4
Além de Jürgen Habermas e Richard Rorty
19 Mar 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: Ou nos parecemos com o que a Inteligência artificial e a internet nos fornece, ou não acreditamos na nossa própria realidade! Estamos no mundo, ontologicamente, se estamos na infosfera
5
Em defesa das bibliotecárias e bibliotecários
12 Mar 2026 Por FELIPE SANCHES: As bibliotecas estão atravessadas pela política e, se negarmos seu papel político, fechamos os olhos ao seu papel estratégico no desenvolvimento cultural, educacional, científico e econômico do Brasil
6
A “filosofia” do cérebro podre
15 Mar 2026 Por EVERTON FARGONI: Uma crítica radical à colonização algorítmica da consciência, onde a promessa de prazer imediato culmina na falência do pensamento, da autonomia e da vida democrática
7
O pior país do mundo
20 Mar 2026 Por PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.: Israel é um estado genocida e terrorista cuja existência é agora colocada em xeque; já os EUA não operam como uma democracia, mas sim como uma plutocracia, uma cleptocracia e uma kakistocracia
8
Fernando Haddad entrevistado por Breno Altman
19 Mar 2026 Por RODRIGO PORTELLA GUIMARÃES: Há uma relação de trabalho muito diversa do operariado dos séculos XIX e XX, que implica um novo projeto de esquerda. Precisamos compreender na prática as novas frações de classe e desafios, provocação central ofertada por Fernando Haddad
9
Pecadores
16 Mar 2026 Por BRUNO FABRICIO ALCEBINO DA SILVA: Comentário sobre o filme dirigido por Ryan Coogler , premiado com quatro estatuetas no Oscar 2026
10
Jürgen Habermas (1929-2026)
16 Mar 2026 Por MARCO BETTINE: Filósofo da esfera pública e do agir comunicativo, Habermas recusou o pessimismo da primeira geração frankfurtiana para mostrar que a modernidade ainda pode fundamentar racionalmente a crítica social
11
A honra de Donald Trump e a de Cuba
19 Mar 2026 Por GABRIEL COHN: O desafio atual para o Brasil consiste em não permitir que os EUA se ponham como núcleo e árbitro da nova ordem, como nesse momento tentam fazer em relação aos seus possíveis competidores
12
Hamnet – a vida antes de Hamlet
11 Feb 2026 Por GUILHERME E. MEYER: Comentário sobre o filme de Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
13
Por que a música?
15 Mar 2026 Por FRANCIS WOLFF: Trecho da primeira parte do livro recém-editado
14
A arte ante o neoliberalismo - parte 1
17 Mar 2026 Por LUIZ RENATO MARTINS: De que modo a tônica pró-capitalista envolve e afeta as artes e o público hoje em processo de formação, e, principalmente, as novas gerações universitárias, que, em breve, assumirão posições proativas no quadro da cultura brasileira?
15
A pornô-política
14 Jun 2020 Por RICARDO T. TRINCA: O político obsceno tem prazer pelo domínio, sob a forma de uma prestidigitação, algo que pode ser encontrado também nos mágicos
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES