Donald Trump e as elites liberais

Imagem: Rosemary Ketchum
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Por BRANKO MILANOVIĆ*

A atitude das elites ocidentais no primeiro mandato de Donald Trump (e este será provavelmente o caso no segundo) consiste em tratá-lo como uma espécie de catástrofe natural e esperar que acabe rapidamente

1.

As elites da Europa do Leste experimentaram em relação a Mikhail Gorbachev um sentimento semelhante ao que as elites europeias experimentam atualmente em relação a Donald Trump. Tanto Mikhail Gorbachev como Donald Trump apresentam tonalidades totalmente dissonantes ao que era comum e aceitável nos países satélites da Europa do Leste e entre os aliados ocidentais durante meio século e oitenta anos, respectivamente.

As elites do leste europeu estavam habituadas aos sinais provenientes de Moscou que destacavam a unidade “indestrutível” do bloco socialista, a afirmação de que o bloco socialista era a parte mais politicamente desenvolvida do mundo e que estavam essencialmente passando de um sucesso para outro. Isso não significa que fosse justo ou verdadeiro. Significa apenas que era essa a mensagem proveniente de Moscou. As elites do Leste estavam habituadas a isso, embora soubessem adaptar-se às mudanças de acordo com o tipo de liderança da URSS.

Mas certamente não esperavam que o secretário-geral do Partido Comunista se dissociasse daquilo que seu partido fazia na União Soviética e no estrangeiro e, além disso, que dissesse que a existência do bloco socialista dependia efetivamente dos próprios países. Mikhail Gorbachev ficou célebre por ter dito, muito suavemente, que os países da Europa do Leste deviam seguir “seu próprio caminho”, citando as palavras de uma canção de Frank Sinatra.

Da mesma forma, as elites europeias (ocidentais) estiveram habituadas, desde 1945, a um tipo de mensagem de Washington, que pode ter variado ligeiramente de um presidente para outro, mas sua linha básica foi sempre a de que os Estados Unidos e a Europa (antes apenas a Europa Ocidental e nos últimos trinta anos toda a Europa) são democracias liberais, que estão unidos por seus valores políticos, assim como econômica e militarmente.

Com Donald Trump, ao menos duas partes dessa mensagem estão borradas. Em primeiro lugar, seu compromisso com a democracia liberal é muito fraco e nem sequer é certo que se preocupe em saber se os países que fazem parte da aliança política ocidental são democracias liberais ou não. Em segundo lugar, ele questionou, em seu primeiro mandato, e poderá fazer o mesmo no segundo, o significado da OTAN como bloco de defesa mútua. Em vez disso, considerou-a como um fardo para os Estados Unidos, que têm de pagar a maior parte das despesas militares.

Estes dois elementos não podem deixar de suscitar um sentimento de mal-estar nos círculos dirigentes ocidentais. É esta semelhança que eu tenho em mente.

A atitude das elites ocidentais no primeiro mandato de Donald Trump (e este será provavelmente o caso no segundo) consiste em tratá-lo como uma espécie de catástrofe natural e esperar que acabe rapidamente. Não podem se opor a ele porque o poder dos Estados Unidos é esmagador e sobretudo agora, quando a Europa precisa desesperadamente dos Estados Unidos, uma vez que as guerras na Ucrânia e na Palestina continuam.

2.

Por isso, não há qualquer dúvida de que devem seguir Donald Trump, ao menos verbalmente. Como eu disse anteriormente, talvez experimentem um sentimento de desconforto extremo com a situação atual. Os europeus sentem-se com Donald Trump como se estivessem presos numa jaula com um tigre e o objetivo fosse simplesmente esperar o tempo suficiente para que o tigre saísse da jaula (e não ter sido comido primeiro).

Não creio que as elites europeias mudarão simplesmente porque não sentem a necessidade de mudar.

Consideram o que aconteceu nos Estados Unidos como uma anomalia temporária, uma anomalia muito americana, e esperam que a situação se normalize dentro de quatro anos. No entanto, é verdade que os líderes populistas e de direita, cuja visão de mundo está muito mais próxima da de Donald Trump, podem sentir-se encorajados e esperar, de forma mais realista agora, que serão capazes de aceder ao poder e substituir (a seus olhos) as elites liberais eclipsadas.

Como já dito, penso que as elites europeias tratariam Donald Trump como uma catástrofe natural, como um terremoto, e simplesmente esperariam sobreviver. É certo que elas não podem se opor a ele diretamente. Muito menos na atual situação, próxima da guerra. Mas terão que “dançar” muito cuidadosamente em torno das questões e, combinando a apresentação de interesses mútuos a Donald Trump com afagos pessoais, tentar conquistá-lo para seu lado.

O problema para eles é que há outras elites alternativas no horizonte que estão muito mais em sintonia com Donald Trump. Penso aqui nos partidos de direita da Alemanha, Áustria, Espanha, França, Países Baixos e Suécia. Compartilham com Donald Trump a aversão aos migrantes e não se oporiam à aplicação de políticas de protecionismo industrial. É claro que este último ponto pode ser uma faca de dois gumes, uma vez que o protecionismo europeu pode afetar igualmente as empresas americanas. Mas, elas poderão ser encorajadas a defender seus interesses junto a seus eleitores com menos inibição, agora que têm um aliado ideológico em Washington (tal como as elites anticomunistas passaram a ter um aliado em Moscou).

3.

O problema da União Soviética era diferente do da China. Não só a União Soviética estava muito mais próxima geograficamente da Europa e dispunha de um exército que poderia potencialmente, nos anos 1950 ou mesmo 1960, conquistar partes da Europa, mas, além disso, a União Soviética tinha partidos políticos e sindicatos no Ocidente que lhe eram ideologicamente afiliados. Nada disto se aplica à China.

A China está muito longe e certamente não tem qualquer intenção ou possibilidade de atacar militarmente a Europa. Em segundo lugar, a China não dispõe do poder brando ou do apelo ideológico que a União Soviética possuía. A ameaça chinesa à Europa é, portanto, a meu ver, inexistente. Por outro lado, o desafio que a China representa para os Estados Unidos é real, muito simplesmente porque a questão, nesse nível, é saber quem será o hegemon global. Por isso, é do interesse dos Estados Unidos ter a seu lado países grandes e ricos como os da União Europeia.

Não creio que os Estados Unidos abandonarão a Europa. Ela é muito importante para os Estados Unidos. É claro que o que eu afirmo aqui não considera diretamente a questão da liderança de Trump, mas uma questão mais ampla da importância estratégica da Europa para os Estados Unidos.

Estou de acordo que a questão do impacto da mundialização sobre as desigualdades tem desempenhado um papel importante tanto no plano geopolítico como no plano da política interna. É este o argumento que apresento em meu próximo livro. Ele não é propriamente novo, mas não creio que tenha sido apresentado de forma unificada e coerente.

A ascensão da China, e, mais amplamente, da Ásia, está deslocando o centro da atividade econômica do Atlântico para o Pacífico. Isso está fazendo com que a renda asiática, em relação à do Ocidente, volte ao nível em que se encontrava há 300 anos. As diferenças entre a Europa e a China, e a Ásia em geral, eram então muito menores do que na sequência, quando a Revolução Industrial tornou a Europa muito mais próspera e militarmente mais forte. No que diz respeito aos Estados Unidos, a China está tornando-se um concorrente formidável, tanto econômica como militarmente. Este é o efeito da China na geopolítica e, em particular, no papel dos Estados Unidos como hegemon mundial.

E há também um segundo efeito da China, que é econômico. Trata-se do efeito do crescimento chinês e asiático sobre as posições relativas das classes médias ocidentais. É um fato que as classes médias europeias, embora ainda muito mais ricas do que as chinesas, não progrediram a taxas comparáveis às da China, e que certas partes das classes médias ocidentais estão decaindo na ordem hierárquica mundial. Isto não significa muita coisa num primeiro momento, mas, gradualmente, se os membros da classe média francesa, que se situavam no percentil 70 em nível mundial, caírem para o percentil 50, serão incapazes de comprar certos bens e serviços cujos preços são fixados internacionalmente.

O declínio relativo da Europa será experimentado, portanto, num nível muito pessoal. Gostaria de destacar que, embora o desafio geopolítico venha claramente da China e se dirija aos Estados Unidos, o desafio econômico é mais amplo, pois outros países asiáticos altamente povoados, como Índia, Vietnã, Indonésia, etc., também registram um crescimento rápido. Para dar um exemplo: há apenas 40 anos, o Reino Unido e a Índia tinham um PIB global (total) idêntico. Atualmente, o PIB da Índia é quatro vezes superior. Esta é, portanto, uma das principais mudanças no poder econômico relativo entre a Ásia e a Europa.

*Branko Milanović é professor na City University de Nova York. Foi economista-chefe do departamento de pesquisa do Banco Mundial. Autor, entre outros livros, de Capitalismo sem rivais: o futuro do sistema que domina o mundo (Todavia).

Tradução: Fernando Lima das Neves.


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