A instabilidade do poder na França

Imagem: Andrew Taylor
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Por JORGE FELIX*

A geopolítica do envelhecimento expõe a fragilidade do poder: ao escolher a austeridade contra os idosos, Macron desestabilizou a França e enfraqueceu a Europa

1.

No dia 14 de janeiro de 2026, o primeiro-ministro da França, Sébastien Lecornu, conseguiu sobreviver a mais uma tentativa de a “França Insubmissa” – a extrema esquerda – e o “Reunião Nacional” – a extrema direita – de derrubá-lo do poder ao vencer na Assembleia Nacional duas moções de censura – o dispositivo legal para o parlamento destituir o chefe de governo.

Em três meses, é o segundo embate de Sébastien Lecornu com os deputados e as deputadas. Ele foi indicado pelo presidente da República, Emmanuel Macron, em 9 de setembro, e seu primeiro mandato durou apenas 28 dias, sofrendo uma moção de censura, já bastante esperada, diante de manobras quase ingênuas para manter o mesmo ministério e, portanto, a mesma arrumação partidária, desenhado por seu antecessor, François Bayrou – removido depois de se mostrar incapaz politicamente de reunir votos suficientes para aprovar o orçamento de 2026.

A vitória de Sébastien Lecornu é “pas mal”, como dizem os franceses diante de situações ou coisas definidas como boas, mesmo sendo longe do ideal. O episódio, porém, tem de ser lido como mais um importante dado a comprovar a fragilidade e a instabilidade do poder na França, que agora se apresenta como um problema para todo o planeta.

Em oito anos, Emmanuel Macron indicou sete primeiros-ministros. Se contarmos as duas indicações de Sébastien Lecornu, são oito mandatos, ou seja, um por ano. É a maior instabilidade desde o início da 5ª República que, destaca-se, foi instituída justamente depois de um longo período de instabilidade no pós-Segunda Guerra, tanto no governo provisório quanto na 4ª República (com 21 mandatos em 12 anos).

Qual foi, recentemente, a origem dessa instabilidade? Resposta: o envelhecimento da população. Ou melhor, as respostas de praxe que os governos têm lançado mão para enfrentar os desafios demográficos contemporâneos, desde o fim do século XX. Existe uma demografia política em curso ou, como prefiro denominar, uma “geopolítica do envelhecimento”,[i] a desenhar o mapa global de relação de poder.

A crise francesa recente tem início em junho de 2024, com a eleição para o parlamento da União Europeia, vencida pelo Reunião Nacional, até então liderado por Marine Le Pen (atualmente em processo de apagamento pelo partido).[ii] Uma das principais causas apontadas para essa derrota de Emmanuel Macron e vitória da extrema direita é a reforma da previdência de 2023.

2.

A mudança foi implantada goela abaixo do parlamento depois de a então primeira-ministra Elizabeth Born recorrer ao artigo 49.3 da Constituição que permite a imposição de uma lei pelo chefe de governo mesmo com a reprovação do congresso. Assim, Elizabeth Born postergou a idade mínima de aposentadoria para 64 anos e esse foi seu último ato como primeira-ministra, pois logo sofreu uma moção de censura e caiu.

Luc Rouban, do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS) e da Science Po, foi um dos primeiros a apontar a reforma como um dos principais motivos da derrocada de Emmanuel Macron. Em 2024, Luc Rouban justificou “o fracasso do macronismo” ao fato de o presidente vir “se inclinando para a direita desde a reforma da previdência de 2023, à lei de imigração de 2024 e à consequente decomposição de seu eleitorado, com o retorno dos eleitores socialistas ao partido”.[iii]

A insatisfação do eleitorado com a forma que Emmanuel Macron escolheu para cumprir a austeridade fiscal, já abalada depois do “custe o que custar” para encarar a pandemia de Covid-19, provocou o que os especialistas denominaram de “voto de protesto” contra o presidente. Foi assim que Mathieu Gallard, diretor de estudos do instituto Ipsos, analisou: “A situação deteriorou-se desde a reforma da previdência, que criou um conflito entre o partido do presidente e a classe média”.[iv]

A reforma também foi listada como uma das fontes de apreensão social que o Reunião Nacional soube capitalizar eleitoralmente, consolidando a sua base entre as classes populares. Em outras palavras, Emmanuel Macron ofereceu ao partido de extrema direita, como analisam especialistas, um adequado combustível para a instrumentalização das questões sociais, ferramenta típica dessa linha política. Bastava recorrer à história[v].

Quais foram as consequências dessas políticas públicas para o envelhecimento? Elas podem ser sentidas hoje diante das ameaças e incertezas. A pobreza na França está no nível mais alto das últimas três décadas. Cresce o endividamento das pessoas idosas e o poder de compra diminui nesse segmento da população. A taxa de fecundidade cai a 1,56 filhos por mulher (bem abaixo de 2,1, a taxa mínima de reposição da população).

Emmanuel Macron está com uma popularidade de um dígito, em torno de 7%, e sua sobrevivência política (junto com a da 5ª República) corre sério risco. É legítimo constatar, portanto, que a geopolítica do planeta é hoje influenciada enormemente pela demografia, forjando assim uma geopolítica do envelhecimento.

3.

O fracasso de Emmanuel Macron impediu, por exemplo, um enfrentamento com os agricultores franceses e a França votou contra o acordo União Europeia-Mercosul. Seria impossível para o presidente, internamente, abraçar essa causa. Sendo assim, foram também as respostas escolhidas pelo presidente ao envelhecimento do país que fizeram naufragar seu sonho de ser um “refundador da Europa”, como ele se posicionou em sua posse. Pelo contrário, Emmanuel Macron hoje está isolado ou até mesmo submetido a países sem o potencial econômico e bélico da França dentro da Europa.

O enfraquecimento da região, tão explorado por Donald Trump, começa pelo enfraquecimento político de Emmanuel Macron e esse pela sua gestão do envelhecimento da população. Isso tem custado caro aos ucranianos, aos franceses, a todo o continente e ao planeta. É uma consequência da recusa de líderes políticos a assumir o envelhecimento como novo paradigma. Isto significa assumir o bem-estar da população em uma configuração inédita na história do capitalismo. É consequência de governar para o mercado e sob a dominância do capital financeiro.

É preciso lembrar ainda que alternativas à reforma da previdência estavam e ainda estão sob a mesa. Sobretudo um sistema tributário mais progressivo. O economista Thomas Piketty, em seu O capital no século XXI, já alertava que o envelhecimento populacional seria o novo definidor do jogo político por ser, por si só, um fator de concentração de renda. Ele lembrava que a França foi o primeiro país a envelhecer, mesmo assim ainda carecia de uma reformatação estrutural para ser bem-sucedida como sociedade superenvelhecida.[vi]

Emmanuel Macron foi no caminho oposto ao de taxar os mais ricos e os bilionários, como sugeriu Thomas Piketty e outros. Se voltou contra a classe média envelhecente e contra as pessoas idosas, diminuindo a proteção social. Mais recente, foi o economista Gabriel Zucman quem propôs uma modalidade de imposto sobre fortunas, recusada pelo Senado e sem nenhum esforço do presidente para aprová-la. Hoje, a popularidade de Gabriel Zucman está no extremo da de Emmanuel Macron.[vii]

Poderíamos estender esta análise e mostrar como o envelhecimento populacional está também na base de ascensão da extrema direita no Brasil, nos Estados Unidos, no Reino Unido e assim por diante. A geopolítica do envelhecimento vai se consolidando não apenas com o voto do eleitorado idoso, sempre visto pelas lentes da estigmatização como mais conservador, mas também entre os jovens, pois a cada dia ou a cada reforma, a juventude perde a esperança de reproduzir o padrão de vida, o poder de compra e o bem-estar das gerações passadas e, sobretudo, aumenta suas incertezas para quando chegar a velhice.[viii]

*Jorge Felix é professor da pós-graduação em Gerontologia na EACH-USP e pós-doutorando no Centre National de la Recherche Scientifique, em Paris.

Notas


[i] FELIX, J. Economia da longevidade, o envelhecimento populacional muito além da previdência. São Paulo: Ed. Aller (selo 106 Ideias), 2019.

[ii] Rouban, L. La normalisation du RN pourrait passer par l’effacement de Marine Le Pen. Paris: The Conversation, 2025. Disponível em: https://theconversation.com/la-normalisation-du-rn-pourrait-passer-par-leffacement-de-marine-le-pen-273371.

[iii] Rouban, L. La dynamique du vote en faveur de la liste de Raphaël Glucksmann. Paris: Science Po, 2024. Disponível em: https://www.sciencespo.fr/cevipof/sites/sciencespo.fr.cevipof/files/Elections%20europe%CC%81ennes%202024_De%CC%81cryptage%20au%20lendemain%20du%209%20juin%202024_V2.pdf.

[iv] Gallar, M. Européennes 2024: Le « vote sanction » contre Emmanuel Macron, carburant de nombreux électeurs. Entrevista a Rose-Amélie Bécel. Paris: Public Sénat, 2024. Disponível em: https://www.publicsenat.fr/actualites/politique/europeennes-2024-le-vote-sanction-contre-emmanuel-macron-carburant-de-nombreux-electeurs.

[v] Duverger, T.; German, T. Les contradictions du programme social du Rassemblement national. Paris: Fondation Jean Jaurès, 2024. Disponível em: https://www.jean-jaures.org/publication/les-contradictions-du-programme-social-du-rassemblement-national/.

[vi] Piketty, T. O capital no século XXI. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2014.

[vii] Zucman, G. Les milliardaires ne paient pas d’impôt sur le revenu et nous allons y mettre fin. Paris: Seuil, 2025.

[viii] O presente artigo foi realizado com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), processo n. 2024/19433-9.

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