A acomodação brasileira

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Por MARCELO JOSÉ MOREIRA*

O choque do novo coronavírus, expõe uma crise sanitária-econômica-civilizatória, tornando clara a falência da falácia do processo globalizante como ideologia e como processo civilizatório

A economia-mundo capitalista (em movimento de reestruturação, como assinalou Wallerstein (2000)) está imersa em uma inércia generalizada. Um movimento de lenta acumulação, baixo investimento, limitadas taxas de crescimento, mas com elevado nível de lucro, e que se dá por uma intensa pressão sobre os níveis das desigualdades existentes, combinando reestruturação mundial da geração de riqueza e renda a um padrão de reprodução da força de trabalho ao nível de sua limitada manutenção. Inércia que se verifica, sobretudo, a partir da crise financeiro-produtiva da primeira década dos anos de 2000, em especial a partir de 2008. O Brasil não está alheio a essa inércia e aos seus desdobramentos.

A dinâmica econômica brasileira, de desenvolvimento concentrador de renda e de riqueza, se viu revestida: 1. por uma trajetória de atividades industriais, sem se configurar um processo de industrialização propriamente dito (como afirmava, para a América Latina, Marini (2000)), que se desindustrializam (precocemente (RICUPERO, 2007), nocivamente (CANO, 2014) ou prematuramente (BRESSER-PEREIRA, NASSIF e FEIJÓ, 2016)) de forma insistente desde os anos de 1980; 2. por um avanço contínuo das atividades agroeconômicas (metamorfoseando o capital ali gerado e tornando complexa a própria noção de atividades agrícolas), em um processo de primarização da pauta exportadora que se expande e se afirma como uma espécie de modo perpétuo; e, 3. por um mercado de trabalho estruturado à precarização das condições e relações de trabalho e à reprodução de desigualdades.

Tais elementos, constituídos (em) e constitutivos (de) um processo de dependência externa estrutural, funcional para o desenvolvimento das forças produtivas internas com a intensificação de sua relação de dependência com a economia mundial, se dá em uma franca relação de interdependência, pois o que se verifica é “(…) uma rede intensamente complexa e contraditória de dependências recíprocas em escala global, com problemas e demandas multiplicadores e intensificadores em cada área em particular, que atualmente estão muito além do controle de qualquer ‘centro’ singular, não importa quão poderoso e avançado seja.” (MÉSZÁROS, 2009, p. 87).

Esse revestimento estrutural expressa: 1. a intencionalidade da dependência externa para a dinâmica de acumulação interna, integrando-a e tornando as atividades econômicas interdependentes, de tal forma que se torna extremamente limitada qualquer alteração significativa da cadeia produtiva, pois que está firmada numa dependência historicamente constituída e intencionalmente mantida, nos termos de uma economia sistêmica intensamente integrada e especializada espacialmente que, sob o choque do novo coronavírus, sente as contradições dessa espacialização especializada; e, 2. a imersão da economia brasileira em um tipo de mecanismo-resposta interno que delineia uma trajetória de avanços (ou recuos) político-institucionais, como que em um movimento pendular, não alterando de forma significativa o processo de reprodução material concentrador e gerador de desigualdades sociais. Tal mecanismo-resposta define a situação da dependência brasileira no processo de reprodução sistêmica e se apresenta na forma de um modus operandi da economia nacional: é um processo histórico que não está, simplesmente, vinculado a períodos de crescimento, depressão ou recessão. Fundamenta-se como uma primazia pela acomodação ao complexo movimento do sistema-mundo capitalista, nos moldes da mundialização produtivo-financeira que dá contornos à acomodação da estrutura acumulativa sistêmica.

Inserido nesse contexto, o choque do novo coronavírus, no geral, expõe uma crise sanitária-econômica-civilizatória, tornando clara a falência da falácia do processo globalizante como ideologia e como processo civilizatório, firmado nas estruturas de produção e consumo voláteis e de financialização mundializada do capital (CHESNAIS, 2005) sob os desígnios do domínio do capital especulativo parasitário sobre o capital substantivo (CARCANHOLO e NAKATANI, 2015): um sistema de engrenagens baseado na efemeridade da própria acumulação e que se estrutura em processo de reprodução de vida material de mesma condição. No específico, agrava as características do revestimento dependentista do desenvolvimento brasileiro, descritas acima; e, expressa, em particular, uma incapacidade intencional (materializada nas atitudes favorecedoras de instabilidade institucional) de o governo Bolsonaro em lidar com situações adversas e que requerem que medidas de curto prazo minimizem os efeitos dessa crise em prazo mais longo. Firma-se, o presidente da república, como uma real ameaça ao esgarçamento do tecido social e à desintegração institucional nacional, somado ao caos sistêmico ordenado em/por elementos ainda a serem identificados em substância, movimento e reação, revestidos pelo choque do novo coronavírus.

No momento crítico e ameaçador por que passam a classe trabalhadora, a economia e a democracia brasileira, urge centrar naquilo que remeto como o problema central a ser enfrentado por sua coletividade (e suas instituições): construir um padrão de reprodução de vida intelectual e material (em franco processo de recrudescimento em suas dimensões cultural, social e política), que impulsione o não esgarçamento do tecido social sobre o qual se estabelece seu processo de acumulação dependente (tensionado pelo movimento caótico sistêmico), e que potencialize sua acomodação nos marcos de uma sociedade humanamente viável, socialmente habitável e ecologicamente possível.

*Marcelo Jose Moreira é professor de história econômica na Universidade Estadual de Goiás (UEG).

Referências


Bresser-Pereira, Luiz Carlos, André Nassif, Carmem Feijó (2016). A reconstrução da indústria brasileira: a conexão entre o regime macroeconômico e a política industrial. In: Revista de Economia Política 36(3): 493-513.

Cano, Wilson (2014). (Des)Industrialização e (Sub)Desenvolvimento. Texto para Discussão 244, setembro. Campinas: IE/Unicamp.

Carcanholo, Reinaldo A, Nakatani, Paulo (2015). O capital especulativo parasitário: uma precisão teórica sobre o capital financeiro, característico da globalização. In: Gomes, Helder (Org.). Especulação e lucros fictícios: formas parasitárias da acumulação contemporânea. São Paulo: Outras Expressões.

Chesnais, François (2005). A finança mundializada. São Paulo: Boitempo Editorial.

Marini, Ruy Mauro (2000). Dialética da dependência/Uma antologia da obra de Ruy Mauro Marini. Petrópolis, RJ: Vozes; Buenos Aires: CLACSO.

Ricupero, Rubens (2007). Vivemos uma industrialização precoce. IHU On line – Revista do Instituto Humanitas Unisinos edição 218, maio. www.unisinos.br/ihu. Acessado em 21/06/2007.

Mészáros, István (2009). A crise estrutural do capital. São Paulo: Boitempo Editorial.

Wallerstein, Immanuel. A reestruturação capitalista e o sistema-mundo. In: Gentili, Pablo (Org.) Globalização excludente: desigualdade, exclusão e democracia na nova ordem mundial. Petrópolis: Vozes; Buenos Aires: CLACSO, 2000, p. 223-251.

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