A cena brasileira – VIII

Foto de Christiana Carvalho
image_pdf

Por BENÍCIO VIERO SCHMIDT*

Comentários sobre acontecimentos recentes

Um dos destaques dessa semana foi a reação de financistas, economistas e empresários de monta do cenário nacional – totalizando mais de mil e quinhentas assinaturas – em uma carta entregue ao ministro Paulo Guedes questionando a condução pelo governo da crise sanitária. Trata-se, sem dúvida, de um grupo de pressão monumental. A carta não indica um desembarque do apoio ao governo, mas sinaliza uma oposição forte aos métodos adotados até aqui de elaborar e de executar políticas públicas.

Soma-se a isso a grande indecisão advinda com a posse discreta do novo ministro da saúde que, lamentavelmente, se pronuncia dizendo que será uma continuidade da gestão do ex-ministro Eduardo Pazuello, de triste memória. Nesse cenário, essa manifestação de economistas e empresários deve ser avaliada como um manifesto que marca um ponto de inflexão na relação desses setores com o governo Federal.

O orçamento para o ano de 2021 (ainda) – aprovado na Câmera dos deputados e encaminhado ao Senado Federal – reserva 20% dos investimentos em infra-estrutura para as Forças Armadas, um acréscimo notável. O Ministério da Defesa foi o mais beneficiado em detrimento especialmente da saúde. Os gastos com as Forças Armadas incluem não só investimentos no submarino atômico, em aeronaves, tanques e armas blindadas como também o aumento da folha salarial dos servidores militares, única carreira que terá seus vencimentos reajustados no âmbito do Executivo.

O ministro Marco Aurélio Mello do STF rejeitou a proposta de coartação do presidente da República sobre os governadores do Distrito Federal, Bahia e Rio Grande do Sul. Marco Aurélio rejeitou em função das normas de federalismo vigentes no país que, sem dúvida, se impôs nesse episódio crucial. A presidência da República não pode mudar o regime federativo do país sem uma mudança constitucional.

Em função do número crescente e da intensidade das críticas à Presidência da República e ao Governo Federal, tem aumentado substancialmente o uso da Lei de Segurança Nacional na detenção e na abertura de inquéritos contra pessoas que contestam o governo. O novo alvo dessa Lei foi o ex-senador, ex-deputado, ex-ministro, ex-governador, Ciro Gomes. Ele faz companhia a outros comentaristas do YouTube, acusados de colocarem em risco o país com suas críticas da condução da crise sanitária. Muitos congressistas estão tentando modificar essa versão da Lei de Segurança Nacional (de 1983), substituindo-a, quem sabe, por uma lei de defesa do Estado democrático de direito.

O STF pronunciou-se a favor da suspeição do ex-juiz e ex-ministro Sergio Moro no caso do julgamento do tríplex que condenou o ex-presidente Lula. A implicação jurídica dessa decisão é grande, posto que determina a forma como a Justiça Federal do Distrito Federal dará andamento a esse processo.

*Benicio Viero Schmidt é professor aposentado de sociologia na UnB. Autor, entre outros livros, de O Estado e a política urbana no Brasil (LP&M).

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
A rede de proteção do banco Master
28 Nov 2025 Por GERSON ALMEIDA: A fraude bilionária do banco Master expõe a rede de proteção nos bastidores do poder: do Banco Central ao Planalto, quem abriu caminho para o colapso?
2
O filho de mil homens
26 Nov 2025 Por DANIEL BRAZIL: Considerações sobre o filme de Daniel Rezende, em exibição nos cinemas
3
A arquitetura da dependência
30 Nov 2025 Por JOÃO DOS REIS SILVA JÚNIOR: A "arquitetura da dependência" é uma estrutura total que articula exploração econômica, razão dualista e colonialidade do saber, mostrando como o Estado brasileiro não apenas reproduz, mas administra e legitima essa subordinação histórica em todas as esferas, da economia à universidade
4
A disputa mar e terra pela geopolítica dos dados
01 Dec 2025 Por MARCIO POCHMANN: O novo mapa do poder não está nos continentes ou oceanos, mas nos cabos submarinos e nuvens de dados que redesenham a soberania na sombra
5
A poesia de Manuel Bandeira
25 Nov 2025 Por ANDRÉ R. FERNANDES: Por trás do poeta da melancolia íntima, um agudo cronista da desigualdade brasileira. A sociologia escondida nos versos simples de Manuel Bandeira
6
Colonização cultural e filosofia brasileira
30 Nov 2025 Por JOHN KARLEY DE SOUSA AQUINO: A filosofia brasileira sofre de uma colonização cultural profunda que a transformou num "departamento francês de ultramar", onde filósofos locais, com complexo de inferioridade, reproduzem ideias europeias como produtos acabados
7
Raduan Nassar, 90 anos
27 Nov 2025 Por SABRINA SEDLMAYER: Muito além de "Lavoura Arcaica": a trajetória de um escritor que fez da ética e da recusa aos pactos fáceis sua maior obra
8
A feitiçaria digital nas próximas eleições
27 Nov 2025 Por EUGÊNIO BUCCI: O maior risco para as eleições de 2026 não está nas alianças políticas tradicionais, mas no poder desregulado das big techs, que, abandonando qualquer pretensão de neutralidade, atuam abertamente como aparelhos de propaganda da extrema-direita global
9
O empreendedorismo e a economia solidária
02 Dec 2025 Por RENATO DAGNINO: Os filhos da classe média tiveram que abandonar seu ambicionado projeto de explorar os integrantes da classe trabalhadora e foram levados a desistir de tentar vender sua própria força de trabalho a empresas que cada vez mais dela prescindem
10
Biopoder e bolha: os dois fluxos inescapáveis da IA
02 Dec 2025 Por PAULO GHIRALDELLI: Se a inteligência artificial é a nova cenoura pendurada na varinha do capital, quem somos nós nessa corrida — o burro, a cenoura, ou apenas o terreno onde ambos pisam?
11
Totalitarismo tecnológico ou digital
27 Nov 2025 Por CLAUDINEI LUIZ CHITOLINA: A servidão voluntária na era digital: como a IA Generativa, a serviço do capital, nos vigia, controla e aliena com nosso próprio consentimento
12
Argentina – a anorexia da oposição
29 Nov 2025 Por EMILIO CAFASSI: Por que nenhum "nós" consegue desafiar Milei? A crise de imaginação política que paralisa a oposição argentina
13
O parto do pós-bolsonarismo
01 Dec 2025 Por JALDES MENESES: Quando a cabeça da hidra cai, seu corpo se reorganiza em formas mais sutis e perigosas. A verdadeira batalha pelo regime político está apenas começando
14
A voz da saga
30 Nov 2025 Por WALNICE NOGUEIRA GALVÃO: Prefácio do livro “Melhores contos”, de João Guimarães Rosa
15
Por que a Inteligência artificial não faz justiça? – 2
29 Nov 2025 Por ARI MARCELO SOLON & ALAN BRAGANÇA WINTHER: Os fundamentos da ciência da computação e da filosofia do direito mostram que a Inteligência Artificial é estruturalmente incapaz de realizar justiça, pois esta exige historicidade, interpretação contextual e uma "variável caótica" humana que transcende a mera racionalidade algorítmica
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES