A chegada de Kanikosen

image_pdf

Por CIRO SEIJI YOSHIYASSE*

Prefácio do recém-lançado mangá de Takiji Kobayashi

Chegou aos leitores brasileiros a versão em mangá de um livro que custou a vida de seu autor. O jovem Takiji Kobayashi foi preso pela polícia japonesa e, somente com a mobilização de seus companheiros, seu corpo, com sinais de tortura, foi entregue à sua família; alegou-se que a causa da morte teria sido um ataque cardíaco, mas o pedido de autópsia foi negado. A primeira página deste mangá publicado pelo Veneta reproduz a comovente cena do corpo de Takiji entre os seus, ele que havia sido torturado e assassinado pelo Estado Imperial Japonês em 1933.

Kanikosen, ou “o navio-fábrica caranguejeiro”, tivera sua publicação censurada diversas vezes, mas, mesmo assim, tornou-se a obra mais importante da literatura proletária japonesa, e é trazida, nesta versão em quadrinhos, ao público brasileiro pela editora Veneta.

 

A morte, a cultura e traço

O jovem Takiji no bairro de Asagaya, Tóquio, em 1931.

A tradução de uma das palavras em japonês para morte soa para os ocidentais como “esgotou-se”, uma ausência cuja existência se esvaiu, o que nos conduz à ideia de que tenha sido intenso o uso de seu conteúdo; talvez Budismo e Confucionismo tenham se reunido no Japão para que a contemplação da substância – vida – e a retidão no gesto viver – sejam uma coisa só, mesmo na vida de um comunista, como foi o autor.

Nas primeiras páginas, o semblante dos que guardam Takiji morto parece expressar essa ternura solene, até orgulhosa, de quem se alimenta com o testemunho de uma vida plena.

Acho que, naquele país, a oração aos mortos não tem o sentido de prece, ou de pedido, mas o de uma luxuosa homenagem, por isso o funeral desrespeitoso de um pobre pescador em pleno mar descrito em Kanikosen talvez guarde um simbolismo que não alcance o homem ocidental com a desesperança que prenuncia a fúria de seus pares. Mas o leitor será conduzido em cada detalhe pela inteligência e objetividade da arte de Gō Fujio, que nesta obra utiliza seu traço adaptado de uma forma muito especial, porque a literatura proletária não aponta heróis centrais: não haverá nomes, uma cabeça olímpica que se ergue da multidão conduzindo a justiça com coragem e delicadeza, arrebatando corações e mentes; aqui, é a massa de oprimidos que se tornará o sujeito da história, que se ergue e tomba, e transforma o mundo exatamente como o mundo é: vazio de super-heróis.

O mangá é um ato contínuo do teatro e até da música japoneses. Nele haverá expressões cômicas e disciplina gestual, principalmente quando o contraste for celebrado ora por máscaras de demônios, ora por mantras guturais – como nos cantos xintoístas –; e, em oposição, há grandes silêncios, a mímica e outros espaços vazios preparados para o gesto limpo e dramático do pincel de crina de cavalo da caligrafia, e da espada. Talvez por isso, em Kanikosen, seja possível observar os belos cenários portuários e o mar revolto em cenas silenciosas e dramáticas, que preparam o fôlego para transições que se desencadeiam em diálogos entrecruzados com personagens das classes baixas, dos despossuídos daquele Japão, como uma massa única, porque é este o tema da obra: uma história até então secreta das multidões.

 

A literatura proletária com a voz dos oprimidos

Qual seria o conteúdo tão perigoso do livro que deu origem a este mangá e que teria provocado tamanha reação por parte da autoridade imperial? A circunstância deste livro tem um significado importante no encontro do Japão com o seu povo, porque cada palavra escolhida gotejou da violência real contra homens, mulheres e crianças de um país que se apressava em superar a Idade Média e avançar para a modernidade industrial. Diferentemente do Ocidente, onde as classes mediam forças delineando a sua civilização, no Japão o poder se alternava no interior da mesma aristocracia secular.

Acima, companheiros em volta do corpo de Takiji Kobayashi.
Abaixo, a mesma cena, recriada em 
Kanikosen: o navio dos homens.

 Dois bairros

Trazer a percepção oriental para o Brasil é uma tarefa que impressiona pelo contraste cultural, mas também pelo fascínio recíproco. Se o Ocidente fosse um lugar, um bairro, este bairro de cá teria em seu centro uma Igreja secular, para a qual todas as preces se dirigiriam, na presença de um Deus uno, às vezes piedoso, outras vezes implacável – mas que pode, inclusive, ser ignorado, porque o Estado não é a Igreja. No entanto, no bairro de lá, no Oriente extremo, o que existe ao centro é o imperador infalível, e é inexplicável para o homem ocidental descrever um xintoísmo de muitos deuses e demônios que se entrelaça com um budismo sem deus, pautado pelos códigos rigorosos de conduta do confucionismo.

É preciso considerar que a compreensão dessa distinção cultural envolve não um, mas dois mundos, com suas tradições e histórias; e esses mundos colidem em julho de 1853, quando uma esquadra americana de grandes navios a vapor aportou de forma intimatória na baía de Edo, impondo um acordo de amizade e comércio. O Japão fora, então, forçado, após dois séculos e meio de isolamento, a sair da Idade Média e chegar à Revolução Industrial em quarenta anos, sem que tivesse passado por uma revolução de caráter popular, como a francesa, que colocou abaixo estruturas seculares, mitos, castas, deuses e outras sombras voltadas para a construção da diferença e fez surgir a República, que coloca o cidadão ao centro. No Japão, as elites conduziram reformas reprimindo as revoltas populares, as guerras expansionistas e o assédio de potências estrangeiras desde o início da Reforma Meiji, em 1868, transitando dentro da classe que detinha o poder do clã Tokugawa para o Imperador. De fato, o voto democrático e universal e a liberdade de expressão só chegaram ao povo após a derrota na Segunda Grande Guerra Mundial, em 1945.

Trecho de Kanikosen: o navio dos homens.

Takiji tinha consciência de seu tempo, e foi emboscado por isso. A essa altura, muitos intelectuais de sua época se debruçavam sobre a possibilidade de a transição da economia medieval ainda ser superada por uma revolução burguesa. A expulsão dos camponeses de suas terras era um fato, como era também a expansão territorial, e assim em diante, como cada mecanismo de acumulação no surgimento em marcha do capitalismo japonês. Para o autor, o registro de uma época deveria ser feito pela literatura proletária, que tem na simplicidade a sua grandeza. Embora a linguagem simples (e por vezes vulgar) esteja presente, a profundidade das questões humanas envolvidas desnuda as imagens mais cruas e explora os pensamentos ruins daqueles que, de tão ruins, quando surgem, são afastados com uma sacudida de cabeça.

O nível de detalhes é resultado da intensa observação da realidade do autor, que presenciou a força do Capital que, por sua vez, abria espaço de forma selvagem naqueles anos de enorme expansão das corporações japonesas que dominavam o Estado, além do detalhamento sobre a operação econômica da pesca, que nos faz pensar se o autor não tentava ali refletir acerca da vocação histórica e do protagonismo daquela elite. No caso de Kanikosen, um roteiro aparentemente despretensioso derrama teorias sofisticadas, como a de que estender a jornada de trabalho ao limite físico dos trabalhadores exigido pelo superintendente captura um ganho extra em trabalho na transformação do capital. Mesmo a figura do próprio superintendente feroz Asakawa é a personificação do despotismo de fábrica descrita em O Capital – obra precocemente traduzida para o japonês, diga-se de passagem.

 

Caranguejos gigantes

A atividade da pesca de caranguejos-gigantes em mares frios é famosa hoje pelo alto risco de morte oferecido aos tripulantes. Na época, de forma ainda mais perigosa, eram lançados ao mar antigos espólios da guerra contra a Rússia (como o próprio Kasato Maru), adaptados como fábrica para enlatar o produto; eram verdadeiras aberrações.

Trecho de Kanikosen: o navio dos homens

Na larga (embora enxuta) hierarquia desses gigantescos navios-fábrica, há uma pequena elite que representa seus proprietários, passando pela figura insossa do Capitão e pelo seu corpo de oficiais; mas há, ainda, os chefes dos botes de pesca que lideram perigosas incursões pelo mar gelado do norte do Japão. Esses homens transitam entre dois mundos: vivem com “os de baixo”, no dormitório dos trabalhadores e marinheiros, chamado “latrina”, porque fétido, frio e tomado por piolhos e pulgas; mas, por outro lado, esses líderes de barcos são controlados ideologicamente pelos “de cima”, e estes, para compensar o tédio de meses de trabalho no mar, embebedam-se em banquetes tão despropositais quanto reais, pois surpreendentemente ainda são praticados e aceitos no mundo corporativo atual. Talvez o despotismo possua uma pulsão primitiva que se apresenta ainda hoje por força de sua natureza, como a ostentação ou o assédio sexual, que são práticas recorrentes (mas engana-se o leitor que supõe que os castigos físicos pertencem ao passado; pertencem, sim, a um passado que não foi derrotado, e é presente na realidade brasileira). Enfim, ao superintendente é entregue o papel do déspota de fábrica, figura moldada para extrair o máximo nas condições que lhe apresentam seus chefes – sua autoridade parte da força e, sobretudo de uma narrativa absorvida pelos subalternos.

O navio-fábrica é a negação de suas duas identidades: por um lado, é uma fábrica de enlatados, para fugir de sua legislação náutica; por outro, é um navio, para esquivar-se da limitada legislação sindical. Para aprofundar esse cenário, o navio-fábrica ultrapassa os limites territoriais do Japão para pescar em águas soviéticas, e, simbolicamente, o administrador substitui a barra de ferro pela pistola. O navio inteiro, a partir desse momento, rompe os limites de suas próprias leis, invadindo fronteiras sob a guarda de um contratorpedeiro japonês, e o roubo e o assassinato finalmente se revelam como recurso nato do empreendimento. Eis, então, o testemunho do mecanismo da acumulação capitalista japonesa que custou a vida deTakiji Kobayashi.

 

A terra redonda

A experiência de leitura de um mangá é uma difícil jornada entre dois mundos: o gesto da leitura do homem oriental faz a cabeça e os olhos balançarem como se dissessem “sim”; o homem ocidental, ao contrário, simula um “não”, acompanhando a direção da escrita em cada língua. A dinâmica da forma de leitura original determina o layout dos elementos gráficos de forma tal que apenas o esforço dos recursos de tradução pode ser insuficiente. Este é um pequeno exemplo da distância que pretendemos fazer aproximar. Outras distâncias entre estes dois lugares, Ocidente e Oriente, que tentamos abordar aqui produzem estranhamentos; imaginem um absurdo como, por curiosidade, vestirmos uma roupa muito antiga de marinheiro japonês do início do século XX: depois do riso, ainda que por segundos, transportamo-nos no tempo – ouça o mar.

É preciso fazer com que o estranhamento surgido ao estar nesse outro lugar nos retorne reflexões também sobre nós: é o esforço das gerações que desencadeia lutas coletivas e circunstâncias históricas que refletem o presente; não há uma índole mágica imanente, como se criou em torno de tudo que diz respeito ao Japão.

Esperamos que seja melhor ainda o caminho de volta desses lugares que a literatura e o mangá nos (e)levam: contemplando o oriente/ me encontro/ mais além.

*Ciro Seiji Yoshiyasse é jornalista e ilustrador da revista Mouro.

 

Referência


Gō FujioTakiji Kobayashi. Kanikosen: o navio dos homens. Tradução: Drik Sada. Editora Veneta. 2022.

 

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Para além de Marx, Foucault, Frankfurt
25 Jan 2026 Por JOSÉ CRISÓSTOMO DE SOUZA: Apresentação do autor ao livro recém-publicado
2
Avaliação e produtivismo na universidade
23 Jan 2026 Por DANICHI HAUSEN MIZOGUCHI: A celebração das notas da CAPES diante do estrangulamento orçamentário revela a contradição obscena de uma universidade que internalizou o produtivismo neoliberal como nova liturgia acadêmica
3
O teto de vidro da decolonialidade
29 Jan 2026 Por RAFAEL SOUSA SIQUEIRA: A crítica decolonial, ao essencializar raça e território, acaba por negar as bases materiais do colonialismo, tornando-se uma importação acadêmica que silencia tradições locais de luta
4
A ilusão da distopia
27 Jan 2026 Por RICARDO L. C. AMORIM: O novo capitalismo não retorna ao passado bárbaro; ele o supera com uma exploração mais sofisticada, onde a submissão é voluntária e a riqueza se concentra sem necessidade de grilhões visíveis
5
O Conselho da Paz de Donald Trump
24 Jan 2026 Por TARSO GENRO: Da aridez de Juan Rulfo ao cinismo da extrema direita mundial, Tarso Genro denuncia a transição da cena pública para uma era de tirania privada, em que a gestão do caos e a aniquilação de povos desafiam a humanidade a resgatar o frescor de suas utopias perdidas
6
Júlio Lancellotti
28 Jan 2026 Por MARCELO SANCHES: A relevância de Padre Júlio está em recolocar a fé no chão concreto da vida, denunciando o cristianismo que serve ao poder e legitima a desigualdade
7
Notas sobre a desigualdade social
22 Jan 2026 Por DANIEL SOARES RUMBELSPERGER RODRIGUES & FERNANDA PERNASETTI DE FARIAS FIGUEIREDO: A questão central não é a alta carga tributária, mas sua distribuição perversa: um Estado que aufere seus recursos majoritariamente do consumo é um Estado que institucionaliza a desigualdade que diz combater
8
Enamed e cretinismo parlamentar estratégico
27 Jan 2026 Por PAULO CAPEL NARVAI: É mais prático e eficaz fechar cursos e colocar um fim na farra da venda de diplomas disfarçada de formação. Mas não é nada fácil fazer isso, pois quem consegue enfrentar congressistas venais?
9
Hamnet – a vida antes de Hamlet
19 Jan 2026 Por JOÃO LANARI BO: Comentário sobre o filme dirigido por Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
10
Energia nuclear brasileira
06 Dec 2025 Por ANA LUIZA ROCHA PORTO & FERNANDO MARTINI: Em um momento decisivo, a soberania energética e o destino nacional se encontram na encruzilhada da tecnologia nuclear
11
Poder de dissuasão
23 Jan 2026 Por JOSÉ MAURÍCIO BUSTANI & PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.: Num mundo de hegemonias em declínio, a dissuasão não é belicismo, mas a condição básica de soberania: sem ela, o Brasil será sempre um gigante de pés de barro à mercê dos caprichos imperiais
12
Hamnet
24 Jan 2026 Por RICARDO EVANDRO SANTOS MARTINS: Entre a fitoterapia de Agnes e a poética de Shakespeare, o filme revela como o saber silenciado das mulheres e o trabalho de luto desafiam a fronteira da morte
13
O exemplo de Sorbonne
29 Jan 2026 Por EVERTON FARGONI: A recusa da Sorbonne aos rankings é um ato de insubordinação: nega a redução do conhecimento a métricas e reafirma a universidade como espaço de crítica, não de produtividade alienada
14
Entradas: fotografias — Um ensaio de antropologia visual
25 Jan 2026 Por ANNATERESA FABRIS: Comentários sobre o livro de Carlos Fadon Vicente
15
O declínio da família no Brasil
21 Jan 2026 Por GIOVANNI ALVES: A explosão de lares unipessoais e a adultescência prolongada são duas faces da mesma moeda: a desintegração da família como infraestrutura antropológica, substituída por uma solidão funcional ao capital financeirizado
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES