A (des)graça da cultura

Dora Longo Bahia. Escalpo Paulista, 2005
 Acrílica sobre parede 210 x 240 cm (aprox.)

Por LUIZ ROBERTO ALVES*

A cultura ainda pode nos arrancar das mãos do horror que nos fustiga

O tempo do inominável capitão do Planalto trouxe a desgraça para as culturas brasileiras. Não somente desmantelou as políticas públicas voltadas ao fazer cultural como direcionou a imagem da cultura para a anticultura, isto é, a sordidez das armas e a exaltação do desvalor que nega a autonomia e a liberdade, especialmente da juventude. A “incultura” da morte durante toda a pandemia e as corrupções nos equipamentos da educação pública sinalizaram todo o significado desse maldito governo. O Estado brasileiro, neste tempo, não somente deixa de cumprir suas obrigações de investimento na cultura plural e diversa do Brasil como a nega em seus valores e exalta falsidades entendidas como cultura. Vide as motociatas eleitoreiras, medonhas e bizarras.

Ocorre que a cultura – entendida como valores, tradições, dinâmica educacional e criações estéticas – é o termômetro, o diapasão e o sismógrafo que mede as situações vividas pelo povo, ainda que inconscientemente. Pelo fazer cultural-educativo, ou pelo seu apagamento e pela sua negação, se toma o ´pulso da dor e da febre (físicas, políticas e culturais) do povo brasileiro. Do mesmo modo, pelo afinamento dos sons e dos tons timbrados pela sociedade se reconhece sua voz e sua orquestração, inclusive quando mal-arranjadas; igualmente, e mais dramático, quando a cultura mede terremotos de pensamento e ação, evidenciados tanto no veto do capitão aos investimentos na cultura recentemente aprovados no congresso nacional quanto no genocídio físico-cultural que os amigos e correligionários do presidente perpetram em toda a Amazónia contra os povos das florestas. Do pouco que a legislatura atual faz pela cultura e dos minguados direitos das populações indígenas, eis que nada sobra nas mãos do brutal governante.

Dois fenômenos estruturalmente iguais revelam todo o horror que vivemos: o ataque à queima-roupa da administração federal e seus asseclas contra todas as obras de valor cultural do país e o ataque de policiais baratinados contra meninos e meninas que no dia 5 pp. realizavam uma batalha de rimas na praça do bairro Manoel Correia em Cabo Frio. Negar investimentos, incentivar boicotes e ofensas contra as culturas eruditas e populares e criar abundantes expressões anticulturais são equivalentes a destruir uma tarde de poesia no bairro pobre da cidade. De um lado o todo; de outro, sua parte solidária, sem a qual a comunicação popular deixa de existir. Por meio de uma emissão de Twitter do advogado Ariel de Castro Alves, conhece-se uma notícia da Ponte Jornalismo, segundo a qual PMs acabaram com a expressão poética da juventude na bala, com tiros dirigidos aos equipamentos e aos próprios poetas.

Nada mais simbólico: tentar liquidar, pela bala e pela inanição econômica com o fazer poético, narrativo, teatral, musical e pictórico, fenômeno já sinalizado em muitos lugares do mundo e, especialmente, na Alemanha de Adolf Hitler, na Itália de Benito Mussolini e na Espanha de Francisco Franco. Tais fatos significam preparo de golpe de estado, pois estimulam a sensação de terra arrasada. Lembremo-nos de Garcia Lorca, dos partigiani da Itália e, na Alemanha, a totalidade do horror. Ou será que somos isentos do pior a priori?  A liberdade bolsonarista não é mais do que ter as mãos livres para sufocar e esganar o outro e a outra. Esse tipo de liberdade poderia ter melhor nome: o estupro dos direitos. Por isso, todo bolsonarista tem de odiar Paulo Freire, o doce educador que se fez arauto da liberdade, aquela liberdade que o capitão e seus amigos nem de longe entenderiam.

Conhecemos no Brasil situações de triste memória quando a capoeira, a recitação poética das feiras e o bom partido alto dos morros foram escorraçados por milicianos, policiais, capatazes e delegados das instituições e organizações do mundo coronelista das pequenas e grandes cidades do Brasil no século passado. Noutros casos, buscou-se cooptar artistas para missões falsamente “patrióticas”.

No entanto, tais investidas do poder foram a contraparte do avanço estético popular, pois os criadores e as criadoras de cultura retornaram sempre aos seus lugares de vida e ação, se organizaram para o exercício dos seus direitos e nos encantaram com seus cantos, suas festas, suas encenações, suas rodas de samba e outras formas criadoras de convivência e amizade. Ali se concretizava o mundo poético da liberdade, que o bolsonarismo jamais viu ou sentiu.

Já chegamos a pensar que, depois de três anos de prática exclusiva de males contra o Brasil, o capitão viesse a ter em sua tentativa de reeleição somente os votos da família e de alguns milicianos. Mas nos enganamos. Há um número considerável de conterrâneos que amargam ódios sem causa, nós entalados na garganta sem um autor, horror à alegria sem história, peso na alma sem fardo real e, pior de tudo, iludidos do salvacionismo, da magia e do mito salvador, que não fizeram outra coisa que levar grupos e multidões à desgraça em muitíssimos lugares do mundo. Tais movimentos foram a anti-cultura do evangelho, visto que este, imerso nos mundos aramaico, grego e romano, saiu-se livre dos grilhões do tempo para a liberdade da cidadania cristã. O capitão do Planalto e sua trupe também nada entendem disso, nem em sonhos.

Mário de Andrade, líder genial do modernismo, entendeu bem que a cultura, a arte e a alegria vicejam nos pontos de luz de tempos sombrios. As culturas só precisam, quando acossadas, de pouco espaço e um tempinho para se constituir em vozes, sons, cenas, pinturas, narrativas e muita expressão de desejos, caminhos e soluções. Não foi diferente o caminho do samba, da capoeira, do teatro popular, das narrativas sertanejas e de tudo o mais que as mãos obstaculizadas criaram qual milagre. Aleijadinho é símbolo maior. Os mestres e as mestras que o seguiram em todas as artes também simbolizaram o país que parecia não ter forças para ser mais do que colônia e império e, não obstante, hoje afirma a necessária democracia.

Os bons administradores fazem suas gestões via cultura-educação. Os maus administradores fazem seus desmandos via economia mal interpretada. As irmãs da história humana, cultura-educação, ainda podem nos arrancar das mãos do horror que nos fustiga. Espantemos o mal pela cultura!

*Luiz Roberto Alves é professor sênior da Escola de Comunicações e Artes da USP.