A fala que cala

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Por FLÁVIO R. KOTHE*

Se a literatura serve até para manter vivas pessoas talentosas, é preciso que elas se voltem contra aquilo que leva ao silêncio, para evitar, assim, assumir a omissão como saída

1.

Se uma revista é sustentada por seus colaboradores, tanto por financiarem a edição quanto por fornecerem os textos que a compõem e ainda fazerem o trabalho de editoração, isso lhe dá uma liberdade que normalmente não teria. Se impressa, o preço que paga costuma ser a falta de divulgação: para ser colocada em bibliotecas e escolas, isso só ocorre por eventual doação de algum simpatizante; se eletrônica, precisa ter algum patrocínio para manter o site, mas em geral não tem um retorno do leitor, apenas sabe que no país tal foram feitas tantas e tantas consultas.

O que nos dois casos se ganha é um espaço para divulgar reflexões, rompendo a censura invisível que existe na mídia corportativa; o que nos dois se perde é a solidão necessária para pensar a fundo, repensar fundamentos.

O editor não interfere nos textos: procura apenas ajustar os textos aos parâmetros formais da revista. Ao editar os que recebe, cada autor responde pelo que escreve. A sequência é determinada pela ordem de chegada ou alfabética de autores. Cada um decide o que lhe parece importante ser dito no momento. Assim, gera-se uma pluralidade de perspectivas, em que os textos mais se complementam do que se chocam entre si.

O silêncio é fundamento da fala e da escrita. Elas rompem com ele, mas irrompem dele, sendo mais que ruptura. Ele é a presença de uma ausência. Diante disso, há duas formas de linguagem: aquela que impõe muitas palavras, para acabar não dizendo nada, a conversa fiada ou o texto chocho; outra, que esconde sob as palavras a sugestão de coisas que poderiam ser ditas, se houvessem melhores condições, mas que, não podendo, se escondem nos interstícios, para ficar flutuando como alternativa que não se concretizou.

Há momentos em que precisamos calar, por mais que queiramos gritar. Podemos ser constrangidos por uma situação de força. Temos então de guardar as palavras, para dizê-las quando for possível e necessário. Muitos morrem sob o peso das palavras que queriam ser ditas e tiveram de ser silenciadas.

Diante de um grande texto literário se tem o pressentimento de que há algo a mais nele e que se esconde no que é dito, algo que existe por não existir, mas não é como se não existisse. Esse sentido é o que dá significação ao significado das palavras ditas. Assim como as letras na página se fazem sobre o branco da folha ou da tela, a escrita se faz em cima desse silêncio significativo como negação do que lhe impôs ser silêncio, vazio.

2.

Em frentes de guerra, jornalistas têm sido mortos por tropas a cujo governo não interessa que a verdade apareça. Um modo mais sutil de fazê-la desaparecer é dar voz com seus adjetivos imperativos aos que não querem que ela apareça. Fica então imperando a voz de quem tem mais poder no momento.

Diante desse silêncio, a escrita parece impotente, mas só pode discuti-lo ao se escrever como que descrevendo o incurso e percurso do ausente. Mais tarde, talvez possa ser dito o silenciado, desencobrir o que teve de ficar escondido. Um dos grandes modos de silenciar é deixar falar sobre o que tem menos importância, apresentar uma versão que convenha ao poder e calar o que adversários poderiam dizer.

Certos gestos, postos em palavras, podem continuar sendo enigma, propondo questões que o sistema vigente não consegue elaborar. Entre a escrita do silêncio e o silenciar a escrita, a opção do escritor é escrever sempre, mesmo não podendo publicar.

Parece tão inútil calar quanto continuar insistindo em ser lido e ouvido quando não se pode contar com espaço nem atenção. Que não se possa contar com espaço já é por si prova da necessidade de dizer o que vai além do horizonte instituído. Esperar que o futuro redima os bons é uma falácia, pois só poderão aparecer como bons alguns dos que forem lembrados. Em vista da injustiça avaliativa pretérita e da dominação presente, torna-se difícil confiar no futuro.

Se Homero, Sófocles, Shakespeare e Hölderlin puderam ser esquecidos durante muito tempo, por que não autores menores? Ocorre há gerações nas escolas do Brasil: os alunos não estudam os clássicos da literatura mundial. A filosofia foi reintroduzida nas escolas, mas não se ensina a pensar, os autores são reduzidos a clichês de resumos, não se leem os originais. A repressão instituída é tanto mais eficiente quanto menos percebida.

Instituições se tornaram agências de controle, que passam por cima do valor artístico e sufocam a busca do verdadeiro. Se as perseguições são feitas pelas qualidades dos perseguidos e pelos defeitos dos perseguidores, isso não impede que sejam apresentadas pelo avesso. Ser perseguido não é por si prova de boa qualidade, mas é um sintoma. A resposta é produzir, seguir o rumo interior.

A perseguição consegue muitas vezes silenciar vozes alternativas. O totalitário tem uma reação instintiva contra quem possa ultrapassá-lo. Cabe ao perseguido não fazer o que o perseguidor pretende: que ele pare de pensar e escrever. Ele só cresce caso consiga se contrapor produzindo. Não pode alegar repressões para esconder o medo. Ninguém é gênio porque quer, mas porque nasceu assim, com a marca do destino: só será reconhecido se sua obra contar com o apoio de contemporâneos que garantam sua passagem ao futuro.

3.

Ter sucesso no presente significa estar no espectro do conformismo vigente. Significa não estar pensando além desse horizonte imediato. Pensar é construir pontes para o vindouro, sem saber, porém, onde fica a outra margem, pois ela precisa ainda ser desobstruída de tudo o que no agora impede que se chegue a ela.

Gestos de silenciamento como o suicídio ou deixar de escrever, que já aconteceram várias vezes, têm sido reduzidos a loucuras pessoais e fraquezas. A radicalidade do silêncio de consciências mais elevadas contém um desafio ao sistema, pois elas permitem chegasr a um ângulo avesso à sua fachada. Num tricô, para decifrar o ponto usado na feitura, as tricoteiras pegam a peça pelo avesso. Na literatura como em outros subsistemas da cultura, para entender a natureza da dominante, do gesto semântico que a organiza e compõe, é preciso ter essa visão pelo avesso. O establishment não quer que isso aconteça nem que ela seja tornada pública.

O silêncio, de quem já escreveu e publicou, pode ser um silenciamento, um protesto implícito. Se a literatura serve até para manter vivas pessoas talentosas, é preciso que elas se voltem contra aquilo que leva ao silêncio, para evitar, assim, assumir a omissão como saída. Isso pressupõe, porém, acreditar na arte e manter o esforço de dizer, como se ainda houvesse razão para escrever e para não se deixar usar pelo discurso. Nenhuma alternativa é a última.

*Flávio R. Kothe é professor titular aposentado de estética na Universidade de Brasília (UnB). Autor, entre outros livros, de Alegoria, aura e fetiche (Editora Cajuína). [https://amzn.to/4bw2sGc].


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