Ambrose Bierce, o amargo

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Por DANIEL BRAZIL*

Apresentação do escritor norte-americano e tradução de três de seus mini-contos.

O norte-americano Ambrose Bierce (1842-1913 ou 14) foi um dos escritores mais odiados de seu tempo. Satirista implacável, trabalhou como jornalista a maior parte da vida, e atirou contra todas as instituições: Estado, justiça, família, igreja, militares, comerciantes, editores de livros, e por aí vai.

Nascido em família muito pobre, Bierce lutou na Guerra da Secessão por quatro anos, o que acentuou seu pessimismo crônico. Apesar disso, a experiência gerou material para contos que se tornaram antológicos na literatura estadunidense. Escreveu também histórias de horror e suspense muito estimados pela crítica.

Apesar de ser considerado um dos grandes do conto americano, Bierce é mais lembrado pela sua coleção de críticas demolidoras, aforismos e fábulas satíricas, que espalhou pelos diversos jornais onde trabalhou, da Califórnia até Londres e Washington. Somente Mark Twain foi tão sarcástico quanto ele em sua época, com a vantagem de ter criado menos inimigos.

Uma antologia das maliciosas definições de Bierce rendeu o Dicionário do Diabo, publicado no Brasil pela Mercado Aberto, em 1999. Há uma edição mais recente (Carambaia, 2018), traduzida por Rogerio W. Galindo. Vale lembrar que o próprio Bierce definiu dicionário como um “maligno instrumento literário feito para limitar o crescimento de um idioma e torná-lo duro e inelástico”, mas seus verbetes são realmente inesquecíveis.

Um dos admiradores brasileiros foi Millor Fernandes, que se inspirou nas Fábulas Fantásticas de Bierce para escrever as suas Fábulas Fabulosas. As Fábulas Fantásticas podem ser encontradas em português, e várias se encontram espalhadas em antologias.

Bierce desapareceu aos 71 anos, em dezembro de 1913, durante uma viagem pelo México, em plena revolução zapatista. Afirmou que preferia morrer num campo de batalha que numa cama, e parece ter escolhido o seu final com o mesmo capricho que utilizava em seus contos de terror, onde muitas vezes um personagem simplesmente some sem deixar vestígios.

O que teria escrito se tivesse vivido no Brasil em nossa época, assistindo a performance de magistrados como Fux, Moro, Carmen Lucia ou Toffoli? Para homenagear nossa altíssima Justiça e seus digníssimos mandatários, aqui vão três exemplos do amargo humor de Ambrose Bierce. Aliás, Bitter Bierce era um de seus apelidos…

Petição defeituosa

Um Juiz adjunto da Corte Suprema estava sentado à margem do rio quando chegou um viajante e disse: “Quero atravessar. Será legal usar este bote?” “Será”, foi a resposta, “o bote é meu”. O Viajante agradeceu e, lançando o bote na água, embarcou e começou a remar. Porém o bote afundou e ele se afogou. “Homem desalmado!”, disse um Espectador Indignado. “Por que não lhe disseste que o bote estava furado?” Respondeu o grande jurista: “A questão do estado do barco não foi trazida à minha consideração”.

Um rápido acordo

“Excelência”, disse o Advogado, levantando-se, “qual é a atual situação desse caso, em que ponto está?” “Prolatei sentença sobre o legatário residual pelo testamento”, disse o Juiz. “Lancei as custas contra os litigantes, decidi todas as questões relativas a honorários e outras; enfim, os bens em litígio foram dispostos, com todas as controvérsias, disputas, mal-entendidos e diferenças de opinião que lhe dizem respeito.” “Ah, sim, perfeitamente”, disse o Advogado, pensativo, “estamos progredindo”. “Progredindo?”, ecoou o Juiz. “Ora, senhor, o assunto está concluído!” “Exatamente, exatamente. Teria de estar concluído para dar relevância à moção que irei apresentar. Excelência, pleiteio que a sentença desta Corte seja suspensa e o caso reaberto.”“Sob qual fundamento, senhor?” perguntou o Juiz, surpreso. “Sob o fundamento de que, depois de pagos todos os honorários e custas do litígio, e de todas as taxas sobre os bens, algo ainda restou.”. “Deve ter havido erro”, disse Sua Excelência, pensativamente. “A Corte talvez tenha subestimado o valor dos bens. A moção é aceita para consideração.”

O juiz e o acusador

Um Eminente Juiz da Corte Suprema de Gowk foi acusado de ter obtido a nomeação por fraude. “Tu divagas”, disse ele ao Acusador, “é de pouca importância como obtive o cargo; só importa como o tenho usado.” “Confesso”, disse o Acusador, “que, em comparação com a forma canalha como te conduzes no tribunal, a forma canalha como lá chegaste parece uma bagatela.”

*Daniel Brazil é escritor, autor do romance Terno de Reis (Penalux), roteirista e diretor de TV, crítico musical e literário.