Apontamentos sobre a primeira edição francesa d’O capital – II

Imagem: Ciro Saurius

Por RODRIGO MAIOLINI REBELLO PINHO*

Marx não apenas acompanhou a tradução francesa de seu livro, foi muito além: ele a reescreveu por completo

A aventura editorial

Tratemos agora da “aventura editorial excepcional” (Gaudin, 2018, p. 37) que foi o processo de elaboração da edição francesa[i]. Prossigamoscom as palavras dos próprios agentes: aqui, as cartas trocadas por Marx com Engels, com seu genro Paul Lafargue, com suas filhas e com seu editor Maurice Lachâtre[ii].

Mas primeiro lembremos que a tradução do Livro I para outras línguas era já objeto da atenção de Marx antes mesmo de sua primeira publicação no ano de 1867. Na correspondência com Engels e com outros destinatários, a questão era levantada ao menos desde 1865. É fora de dúvida que o intento de Marx era o de que, via de regra, o leitor lesse a obra em sua própria língua sem que precisasse consultar outra edição em língua estrangeira; adiante veremos a única exceção: o leitor de língua alemã haveria de se servir da edição francesa.

Marx dedicava uma especial atenção ao público francês. Assim que foi a Hamburgo entregar o Livro I ao seu editor (para a primeira edição alemã), manifestou a vontade de que ele fosse em seguida publicado em francês, em Paris. Ele disse ao seu correspondente (Ludwig Büchner), em 1º de maio de 1867:

“A razão pela qual eu te escrevo pessoalmente é esta: eu quero a coisa publicada em francês também, em Paris, depois da sua publicação na Alemanha. Eu mesmo não posso ir para lá, ao menos não sem risco, uma vez que eu fui expulso da França, primeiro sob Louis Phillippe, e uma segunda vez sob Louis Bonaparte (Presidente), e por fim eu venho atacando incessantemente o Sr. Louis durante meu exílio em Londres. Eu não posso, portanto, ir pessoalmente perscrutar um tradutor [Marx pede então ao seu correspondente que indique alguém adequado para o trabalho, já que ele mesmo não teria tempo para fazê-lo, e, ao final, acrescenta:] Eu considero que seja da maior importância emancipar os franceses das visões errôneas sob as quais Proudhon, com sua pequena burguesia idealizada, os enterrou […] sou constantemente confrontado com as consequências mais repugnantes do proudhonismo[iii]” (Marx, 2010. V. 42, p. 368).

A busca de um tradutor apropriado prologou-se até o ano de1872.  Nesse ínterim, foram cogitados ou até chegaram a iniciar o empreendimento (sem concluí-lo): Élie Reclus, Moses Hess, Joseph Card e Charles Keller.

Keller, por exemplo, chega até mesmo a enviar para Marx um manuscrito com a tradução do capítulo II do Livro I d’O Capital (que é O Processo de Troca na alemã e Das Trocas na francesa). Marx, em 18 de outubro de 1869, devolveu o manuscrito acrescido de suas correções e comentou o seguinte com seu genro Paul Lafargue e sua filha Laura (que faziam a intermediação com Keller):

“Paul e Laura, […] digam para o Sr. Keller que ele pode prosseguir. No todo, estou satisfeito com a tradução dele, embora careça de elegância e seja feita de modo muito negligente. Ele fará melhor em me enviar todo capítulo por meio de vocês. Quanto ao capítulo IV, eu devo subdividi-lo […] Em alemão usamos a palavra ‘Process’ (procès) para movimentos econômicos, como se diz processo químico, se não me engano. Ele traduz por ‘fenômenos’, o que é absurdo. Se ele não puder encontrar outra palavra, ele deve sempre traduzir por ‘movimento’ ou algo análogo” (Marx, 2010a, V. 43, p. 359/360).

Três comentários sobre essa carta.

Primeiro, nela está o que Marx esperava de uma tradução. Que fosse elegante, cuidadosa e rigorosa no respeito às categorias empregadas. Distinto de Engels, Marx de nenhum modo afirma uma suposta necessidade inelutável de sacrificar o sentido do original.

Segundo, ela anuncia uma mudança na estrutura do Livro I. Temos já aqui a notícia de que ele subdividiria o Capítulo IV na edição francesa, o que ele efetivamente veio afazer, demonstrando que não eram aleatórias, mas planejadas, as alterações que promovia na obra.

Terceiro, quanto à categoria “processo” (cujo sentido foi aproximado, na carta referida, ao de “movimento”), Marx faz um acréscimo na edição francesa, em uma nota de rodapé, que não foi reproduzida por Engels na 4ª alemã e, logo, não consta das edições brasileiras. Esse acréscimo foi feito no importantíssimo item “O processo de Trabalho” inserido no Capítulo “O processo de trabalho e o Processo de Valorização”, na parte em que ele diz dos “[…] elementos simples em que se decompõe o processo de trabalho…” e insere a seguinte nota de rodapé:

Em alemão, Arbeits Process (processo de trabalho). A palavra ‘processo’, que exprime um desenvolvimento considerado no conjunto de suas condições reais, pertence desde muito tempo à língua científica de toda a Europa. Na França foi primeiro introduzida de uma maneira tímida sob sua forma latina- processus. Depois ela deslizou, despojada desse disfarce pedantesco, nos livros de química, fisiologia, etc., e em algumas obras de metafísica. Ela acabará obtendo sua carta de naturalização plena. Assinale-se de passagem que os alemães, assim como os franceses, na linguagem ordinária, empregam a palavra processo em seu sentido jurídico” (Marx,  1872/1875 e 2018, p. 77)[iv]

Assim, o que é processo para Marx? É “um desenvolvimento considerado no conjunto de suas condições reais”. Temos aqui, portanto, uma importante adição de conteúdo. Adição essa que pode até ajudar a explicar a mudança do título do Livro I: na edição alemã é “O processo de produção do capital”; na francesa, “O desenvolvimento da produção capitalista”.

Retomemos o caminho que leva à publicação da 1ª edição francesa. Foi por volta do final de 1871 e início de 1872 que Marx desistiu de ter Keller como tradutor. O aviso de que ele atrasaria a tradução da obra porque precisava antes acabar a de um livro de medicina foi aparentemente a gota d’água (cf. Marx in Bouffard et al., 2018, p. 77).

Pouco depois, com a intermediação da filha e do genro de Marx, Laura e Paul Lafargue, foi encontrado o editor: trata-se de Maurice Lachâtre.Lafargue comenta com Engels ter sido “graças a um refugiado da Comuna [o próprio Lachâtre] seduzido por Laura que chegamos a encontrar esta rara avis: um editor” (in Gaudin, 2018, p. 23). Lachâtre, Paul e Laura estavam hospedados no mesmo andar e estabelecimento (Hôtel de France), em Sán Sebastián, na condição de exilados, depois da derrota impingida à Comuna de Paris (Lachâtre in Bouffard et al. p. 85).

O contrato celebrado com o editor para a publicação da obra foi assinado em 13 de fevereiro de 1872[v]. Marx considerava indispensável que fosse uma edição “popular barata”; fez então inserir uma exigência no contrato, uma cláusula que impunha ao editor a obrigação de publicar uma edição acessível às “pequenas bolsas”. Para Marx estava em primeiro plano que a obra fosse financeiramente acessível à classe trabalhadora.

O contrato assinado por Karl Marx e Maurice Lachâtre, com a data de 13 de fevereiro de  1872. Fonte: Gaudin, 2019, p. 179.          Com a ajuda de Charles Longuet (que não muito depois se tornaria genro de Marx)foi afinal encontrado o tradutor: Marx se decide por Joseph Roy, que deveria traduzir a partir dos manuscritos da segunda edição alemã que lhe seriam enviados (Marx, 2010a, V. 44, p. 283 e 327; Gaudin, 2019, p. 81). O fato de Marx considerar que ele teve êxito em traduzir Feuerbach para o francês foi determinante para a escolha.

A interlocução de Marx com seu editor e com seu tradutor nunca foi simples. Uma razão era a distância deles em relação ao lugar de publicação e entre si: o autor estava em Londres; o tradutor, em Bordeaux; o editor, primeiro em San Sebastián, depois na Bélgica e, depois ainda, na Suíça; e a publicação da obra, ela se dava em Paris. Dirigindo-se a Marx em 17 de fevereiro de 1872, Lachâtre descreve vivamente esse quadro singular:

“Senhor e ilustre filósofo […] Singular destino o que preside a criação deste livro, pois a tradução dele para o francês é uma verdadeira criação! O autor foi proscrito e vive em meio às brumas do Tâmisa; o editor foi igualmente proscrito, escapou como que por milagre de três bandos de assassinos enviados para fuzilá-lo na infernal jornada do 24 de maio[vi]. Aquele que nos pôs em contato, vosso genro, também proscrito, carregado por todos os ventos da perseguição, seguido por vossa bem-amada filha e pela pobre e cara criança cuja frágil saúde vos causa a todos tantas inquietações” (Lachâtre in Bouffard et al., 2018, p. 75-76)

A distância entre os agentes envolvidos no processo de tradução, revisão e publicação do livro também foi depois destacada por Marx no final da edição francesa, em uma errata cuja presença justificou nos seguintes termos:

“Afastados do local de impressão o autor, o tradutor e o editor, tornou-se a correção definitiva do Capital bastante difícil. Deslizaram, pois, no correr da obra certas faltas que o leitor retificará sem pena. A lista da errata concerne, salvo algumas exceções, apenas à primeira seção do livro […]” (Marx, 1872/1875 e 2018, p. 351).

Mas a distância entre todos os envolvidos não era o único obstáculo. As demandas trazidas pelo editor, Maurice Lachâtre, importunavam Marx, e a tradução demasiadamente literal de Joseph Roy, por quem Marx demonstrava ter mais apreço, acarretou enorme trabalho.

O retrato de Marx que foi publicado na obra, feito pelo pintor Adolphe Dervaux. Fonte: Marx, 2018, p. 05.

Com o editor, os conflitos tiveram causas as mais variadas: a insistência para a publicação de um retrato de Marx(o qual, vemos acima, efetivamente veio a aparecer na edição francesa- Marx, 2010a, V. 44, pp. 347 e 578, p. ex.); os atrasos contínuos na publicação dos fascículos da obra, que se acentuaram a partir do momento em que a empresa de Lachâtre sofreu a intervenção do Estado, com a nomeação de um administrador judiciário que buscava postergar a publicação dos fascículos, o que faz com que Marx inclusive cogite processá-lo; também a falta de envio dos fascículos já impressos ao tradutor, a fim de que ele pudesse verificar as mudanças realizadas e adequar a tradução dos fascículos que seguiriam; mas, de tudo, destacaremos o diálogo sobre o teor de uma carta-resposta que seria subscrita por Lachâtre na publicação, já que ele contribui para iluminar como Marx pensava questões de método.

Tendo em mira a publicação da obra em fascículos periódicos, havia sido acordado que, para o primeiro deles, Marx iria escrever uma carta para ser publicada em fac-símile, servindo como um “prefácio” de próprio punho do autor – um autógrafo – o qual seria (e assim foi) seguido por uma carta-resposta de Lachâtre. Não só a mera presença na obra de uma resposta subscrita por Lachâtre, mas sobretudo o seu teor, contrariavam Marx. Ele teve, pois, que propor mudanças, a fim de que Lachâtre não expusesse aos leitores juízos errôneos acerca de sua obra e de seu modo de pensar.

Mas vejamos primeiramente o autógrafo, a carta que, em 18 de março de 1872, Marx escreveu para a publicação de seu editor:

“Londres, 18 de março de 1872.

Ao cidadão Maurice La Châtre,

Caro cidadão,

Aplaudo vossa ideia de publicar a tradução de ‘Das Kapital’’em fascículos periódicos. Sob essa forma, a obra será mais acessível à classe obreira e para mim essa consideração prevalece sobre todas as outras. Eis o lado belo da vossa medalha, mas aqui o reverso: o método de análise que eu empreguei e que não havia sido ainda aplicado aos temas econômicos, torna muito árdua a leitura dos primeiros capítulos e é de se recear que o público francês, sempre impaciente por concluir, ávido de conhecer a relação dos princípios gerais com as questões imediatas que o apaixonam, só se desencoraje porque ele não terá podido, antes de tudo, ir além.

Essa é uma desvantagem contra a qual eu nada posso dizer, a não ser todavia prevenir e premunir os leitores sequiosos de verdade. Não há rota régia para a ciência e somente tem chance de chegar aos seus cumes luminosos quem não temer fatigar-se galgando suas sendas escarpadas”[vii]” (Marx, 1872/1875 e 2018, p. 07)

O autógrafo original de Marx. Fonte: Gaudin, 2019, p. 90.

Duas conclusões decorrem desse autógrafo de Marx:a primeira é que os principais destinatários da obra eram as classes trabalhadoras; a segunda, que Marx tinha ciência de que a obra comportava dificuldades, que se punham principalmente no seu início e decorriam do método empregado para tratar da matéria; incentivava o leitor enfaticamente, não obstante, a enfrentar e superar os obstáculos do caminho.

Tornemos agora para o diálogo acerca do teor dacarta-resposta do editor.

Sugerindo a Lachâtre informações para colocar em sua resposta e esclarecendo aspectos da obra, Marx disse a ele, em 07 de março de 1872:

“Será útil dizer (de vosso lado), no primeiro fascículo, que a tradução foi feita segundo o manuscrito da segunda edição alemã, cuja publicação começará apenas em algumas semanas.

Cá entre nós. Meu editor alemão vos imita ao publicar a segunda edição em fascículos periódicos.

Espero que o livro não vos valha novas perseguições. O método é de todo diferente do aplicado pelos socialistas franceses e outros. Não tomo por ponto de partida ideias gerais, como a igualdade etc., mas começo, pelo contrário, pela análise objetiva das relações econômicas tais quais elas são e é por isso que o espírito revolucionário do livro não se revela senão gradualmente. O que receio, pelo contrário, é que a aridez das primeiras análises afaste o leitor francês…”” (Marx in Gaudin, 2019, p. 85)

Depois, já ciente do esboço da resposta escrita por Lachâtre, Marx aponta um erro e propõe o conserto, assim dizendo ao seu editor, em 20 de março de 1872:

“No último parágrafo estão retificadas estas palavras ‘não se deixarão deter na sua leitura pela exposição de nossos métodos analíticos’. Há aqui um mal-entendido. Eu não exponho meu método, mas o aplico, mas sua aplicação, nos primeiros capítulos, à análise da ‘mercadoria’, ‘o valor’, ‘o dinheiro’ é, pela natureza da própria coisa, um pouco difícil de seguir.

Mas é fácil mudar: ‘não se deixarão deter em sua leitura pela aplicação de nosso método analítico às primeiras noções de economia política que por sua própria natureza são muito abstratas’ – ou alguma coisa assim – teríamos com isso encerrado as preliminares…” (Marx in Gaudin, 2019, p. 97)

No dia seguinte, 21 de março de 1872, Marx desabafa com Lafargue:

“La Châtre é um charlatão abominável. Ele faz perder tempo com coisas absurdas (p. ex. sua carta em resposta ao meu autógrafo, na qual fui obrigado a lhe propor mudanças)” (Marx in Bouffard et al., 2018, p. 80).

Adiante segue a versão final da carta-resposta que Lachâtre enviou a Marx num “domingo de manhã”, dia 24 de março de 1872,(Lachâtre in Bouffard et al., 2018, pp. 81-82), e que foi publicada tal e qual na edição francesa (Marx, 1872/1875, p. 08):

AO CIDADÃO KARL MARX

[…]

Vosso livro “O Capital” vos atraiu tantas simpatias entre as classes obreiras, na ALEMANHA, que era natural que um editor francês tivesse a ideia de dar a seu país a tradução desta obra magistral.

A RÚSSIA antecipou-se à FRANÇA, é verdade, na reprodução desta obra importante; mas nosso país terá a feliz fortuna de possuir a tradução feita a partir do manuscrito da segunda edição alemã, antes mesmo de sua aparição na ALEMANHA, e revisada pelo autor.

A França poderá reivindicar a mais larga parte na iniciação dos outros povos a vossas doutrinas, pois será este nosso texto que servirá para todas as traduções que serão feitas do livro, na INGLATERRA, na ITÁLIA, na ESPANHA, na AMÉRICA, onde quer que enfim se encontrem homens de progresso, ávidos de conhecer e desejosos de propagar os princípios que devem reger as sociedades modernas no velho e no novo mundo.

O modo de publicação que adotamos, em fascículos a dez CENTAVOS, terá esta vantagem, a de permitir a um maior número de nossos amigos adquirir vosso livro, não podendo os pobres pagar a ciência senão com o óbolo; vosso fim se achará atingido: tornar vossa obra acessível a todos.

Quanto ao receio que vós manifestais de ver os leitores deterem-se diante da aridez das matérias econômicas tratadas nos primeiros capítulos, o futuro nos ensinará se ele era fundamentado.

Devemos esperar que as pessoas que adquirirem vossa obra, tendo por objeto principal o estudo das doutrinas econômicas, não se deixarão deter em sua leitura pela aplicação de vossos métodos analíticos; cada uma delas compreenderá que os primeiros capítulos de um livro de economia política devem ser consagrados a raciocínios abstratos, preliminares obrigatórias às questões candentes que apaixonam os espíritos, e que não se pode chegar senão gradualmente à solução dos problemas sociais tratados nos capítulos seguintes; todos os leitores quererão vos seguir, – é a minha convicção, – até a conclusão de vossas magníficas teorias” (Lachâtre in Marx, 1872/1875, p. 08)

Percebe-se, pois, que era apenas sobre o último parágrafo da carta que incidia a objeção que Marx havia lançado, quando salientou que não expunha seu método na obra, mas sim o aplicava. Lachâtre então acatou a objeção de Marx e alterou aquele trecho como pedido. Agora, todo o restante da carta e, principalmente, a afirmação categórica de Lachâtre de que haveria de ser a edição francesa que serviria de referência para as traduções vindouras, não foi objeto de qualquer questionamento, evidenciando que Marx assentia com o que estava dito.

Uma vez que já acompanhamos a relação, algo conflituosa, do autor com o editor, vejamos aquela, mais compreensiva, que se desenvolveu entre o autor e o tradutor. Um desgosto compartilhado quanto ao editor, menções a dificuldades no processo de tradução e publicação, problemas no recebimento dos fascículos impressos, atrasos na tradução por parte de Roy (que se casa no curso dela, depois de enfrentar dificuldades familiares – Roy in Bouffard et al., 2018, p. 83), essas são questões com que a correspondência de Roy com Marx lida. Destacamos aqui as que dizem respeito à tradução e publicação da obra.

Por exemplo, numa carta de Roy a Marx[viii], escrita no dia 14 de março de 1872, a fim de expor as dificuldades que enfrentava na tradução da obra, ele faz uma reflexão sobre as diferenças entre a língua alemã e as línguas latinas, nos seguintes termos:

“Não é que a tradução apresente dificuldades graves, mas ela apresenta uma multidão de pequenas que detém cada passo. Em princípio, o francês, em razão de sua proveniência do latim, contém uma multidão de palavras sem analogia para o ouvido e para a vista, ainda que o sentido que elas expressam seja análogo. Resulta disso que as correspondências entre as ideias não se reencontram na linguagem, e sob esse ponto de vista o alemão é bem superior. Vós sabeis disso tão bem e melhor que eu; mas, não obstante o vosso conhecimento perfeito da nossa língua, talvez não sentis, tão bem quanto nós, uma outra dificuldade, que não se vence facilmente. Em uma obra como a vossa, as mesmas palavras são necessariamente repetidas com muita frequência. Essa repetição choca com o ouvido, no francês, infinitamente mais do que no alemão, porque não se pode empregá-las tão facilmente onde se quiser” (Roy in Bouffard et al., 2018, p. 78/79).

Além de evidenciar que distinções entre os diferentes “grupos linguísticos”, por assim dizer, foram, ainda que incidentalmente, objeto da interlocução entre autor e tradutor, essa carta indica que a repetição das mesmas palavras era o aspecto que parecia mais incomodar Roy. Já a preocupação central de Marx era outra: ele via na literalidade demasiada o principal problema da tradução. Mas de início ele não havia notado isso; aliás, quando os primeiros manuscritos (do capítulo I) traduzidos por Roy chegaram às suas mãos, Marx chegou a qualificar Roy como um “maravilhoso tradutor” (21/03/1872; Marx, 2010a, V. 44, p. 347) e até mesmo como um “tradutor perfeito”[ix]. Pouco depois, porém, ele já reconheceria que esse problema despontava, mesmo que não deixasse de se referir elogiosamente ao trabalho de Roy, dizendo que: “Ele traduz muito literalmente nas passagens fáceis, mas mostra sua força nas difíceis” (01/05/1872-Marx in Gaudin, 2019, p. 100).

Assim, apesar de uma primeira impressão bastante favorável ao trabalho de Roy, à medida que os manuscritos traduzidos iam chegando às suas mãos, a atividade de revisão da tradução passava a tomar mais e mais do tempo de Marx. Além de revisar o teor do texto e a tradução, Marx também tinha que corrigir as provas dos fascículos e, por fim, conferir se o fascículo publicado estava ou não igual à prova corrigida. O procedimento era aproximadamente o seguinte: Marx enviava o texto base para Roy, que o traduzia e o devolvia a Marx, que revisava a tradução e a enviava para o estabelecimento de Lachâtre em Paris, que a encaminhava para uma primeira impressão que, feita, era remetida para a correção e conferência de Marx e de Lachâtre, que então a devolviam para que se fizesse uma segunda prova, que era remetida de novo a ambos, o que se repetiria até que não houvesse mais correções e Marx desse, afinal, seu aval para a publicação do fascículo (veja-se, por exemplo: Lachâtre in Bouffard et al. p. 78). A tudo isso ainda se somou, até meados de 1873, a correção das provas da segunda edição alemã.

O trabalho de revisão da francesa dava um “trabalho do diabo” para Marx (21/06/72 – Marx, 2010a, V. 44, p. 399), ainda maior do que se “tivesse que ter feito sem tradutor” (21/12/1872- Marx, 2010a, V. 44, p. 460). Marx trabalhava nela diariamente, até às 3hs da madrugada, praticamente sem sair de seu cômodo, segundo suas filhas Eleanor e Jenny (Marx, 2010a, V. 44, p. 576 e 584). Descontente, reclamava: “frequentemente tenho que reescrever [as provas] completamente para tornar os assuntos claros aos franceses” (23 maio de 1872- Marx, 2010a, V. 44, p. 377). A tradução havia sido feita “muito literalmente “e isso o obrigava a reescrevê-la em grande parte (27/05/72 e 28/05/1872- Marx, 2010a, V. 44, p. 379 e 385).

O excesso de literalidade na transposição do alemão para o francês – única crítica dirigida por Marx à tradução – foi reconhecido até mesmo por Roy, quando em 02 de maio de 1872, disse a Marx:

“[… ] A tradução talvez esteja excessivamente fiel, quero dizer, às vezes ela não se separa do vosso texto o bastante para conformar-se ao gênio de nossa língua; entretanto, acredito que a leitura não apresentará mais dificuldades do que a matéria comporta” (Roy in Bouffard et al., 2018, p. 83/84)

Assim, se juntarmos o que disse Marx com o que disse Roy a esse respeito, podemos dizer que uma tradução demasiado literal é aquela que, por não se afastar o suficiente do texto de origem, acaba em desconformidade com o gênio da língua de destino.

Mas como é que Roy poderia mudar seu modo literal demais de traduzir, se ele não recebia os fascículos depois da revisão de Marx? É isso que Marx cobrava de Lachâtre (e de seus prepostos), em 29 de março de 1873: que após a impressão final fossem enviados os fascículos para Roy (o que até lá não havia ocorrido), já que para ele “mudar seu modo de tradução” era imprescindível o “estudo dos fascículos impressos” (Marx in Gaudin, 2019, pp. 134 e 135).

Esses obstáculos todos que se interpuseram no caminho da publicação da edição francesa – os conflitos com o editor, as interrupções na publicação pelas mais variadas causas, a tradução literal demais –explicam porque Marx se referiu a isso tudo como “a experiência dolorosa que sofri para a tradução francesa do Capital” (06/11/1876-Marx in Bouffard, 2018, p. 98).

À vista do exposto, não é por acaso que, uma vez publicada a edição francesa, Marx ressalte já em sua fronte que se trata de uma “tradução inteiramente revisada pelo autor”, bem como que reafirme, em cartas, e por mais de uma vez, que o que se lê na página do título não é “de modo algum [..] uma mera frase” (p. ex. Marx, 2010a, V. 44, p. 399), mas sim algo que ocorreu tal e qual dito.

*Rodrigo Maiolini Rebello Pinho é mestre em história pela PUC-SP.

Para ler a primeira parte acesse https://aterraeredonda.com.br/apontamentos-sobre-a-primeira-edicao-francesa-do-capital/

 

Referências[x]


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Notas


[i] Essa “aventura editorial” tem seu caminho sinuoso e pleno de percalços descrito minuciosamente por François Gaudin (2018 e 2019), que com justiça a qualifica como “excepcional” e “singular”.

[ii] Documentos valiosos, as cartas permitem acompanhar o dia a dia do trabalho de Marx e compõem um quadro do ambiente nada etéreo em que vivia e produzia. Aparecem, entremeados ao desenvolvimento de questões teóricas, o esforço empregado na difusão de sua obra, as atividades político-administrativas na Associação Internacional dos Trabalhadores, as dificuldades financeiras, além de assuntos do círculo familiar (no período de que tratamos vão do casamento de uma filha à perda precoce de um neto) e pessoais (como notícias recorrentes de problemas de saúde – insônias, inflamações na vista, tosses, dores de cabeça, etc.). A própria vida de Marx parece ter confirmado o que ele disse no autógrafo da edição francesa (veremos adiante): a rota da ciência não é régia.

[iii] A assim dita emancipação do movimento operário em relação ao proudhonismo é um argumento também empregado por José Nobre França, operário tipógrafo da imprensa oficial portuguesa e secretário da Federação de Lisboa da Associação Internacional dos Trabalhadores. O pesquisador português Carlos Bastien, ao investigar a recepção das obras de Marx em Portugal, revelou o seguinte: “[José Nobre França]recebeu de Marx em 1873 […] dois exemplares[de fascículos] da edição francesa (tradução de Joseph Roy) do Livro I […] um dos quais com dedicatória pessoal. Paralelamente, chegaram à Lisboa, à Livraria Internacional, mais cerca de 150 exemplares que foram aí vendidos clandestinamente. A relativamente grande procura do livro deveu-se não só ao facto de Marx ser já então uma figura conhecida e prestigiada nos meios progressistas portugueses mas também ao facto de muitos destes militantes marxistas verem nessa obra um instrumento de combate ao proudhonismo que continuava a influenciar a ‘mocidade literária’ (Carta de José Nobre França a Marx de 17.8.73[ ..])” (Bastien, 2016. pp. 06,07 e 10).

[iv] Esta notanão consta das seguintes edições brasileiras: Marx, 2017, p. 256 (Boitempo); Marx, 2002, p. 212 (Civilização Brasileira); Marx, 1996, p. 298 (Nova Cultural).

[v] Após o desinteresse da Biblioteca Nacional da França em ter consigo e disponibilizar ao público os originais das cartas trocadas por Marx com Lachâtre e com outros que participaram da impressão da obra em Paris, tanto as cartas como o contrato original para a publicação da obra foram leiloados no ano de 2018 (Gaudín, 2019, p. 10). As cartas foram alienadas por 160.000 euros; o contrato, por 121.600 euros (ver aqui: https://www.barnebys.fr/blog/le-capital-de-karl-marx-pulverise-les-encheres). É de François Gaudin o mérito de ter transcrito e preservado para o público o fac-símile desses documentos inéditos (Gaudin, 2019).

[vi] É assim que Lissagaray (1838-2001) resume esse dia: “QUARTA FEIRA, 24. OS MEMBROS DA COMUNA ABANDONAM O HÔTEL DE VILLE. O PANTHÉON É TOMADO. OS VERSALHESES FUZILAM OS PARISIENSES EM MASSA. OS FEDERADOS FUZILAM SEIS REFÉNS. A NOITE DO CANHÃO.” (Lissagaray, 1901, p. 254).

[vii] Há uma interessante similaridade aparente desse autógrafo com uma brevíssima passagem do Prefácio à 2ª edição da Crítica da Razão Pura, em que Kant diz “que as espinhosas veredas da crítica […] não impediram as cabeças corajosas e lúcidas de se apoderarem dela” (Kant, 1999, p. 50)

[viii] Lamentavelmente, as respostas de Marx às cartas de Roy parecem ter-se perdido (cfr. Bouffard et al., 2018, p. 79).

[ix] “[…] Roy (Rua Condillac, 6, Bordeaux) é um tradutor perfeito. Ele já enviou o manuscrito do primeiro capítulo (eu lhe tinha enviado o manuscrito da segunda edição alemã para Paris)” (Marx in Bouffard et al., 2018, p. 80).

[x] É minha a tradução dos trechos que extraí das obras referidas em língua estrangeira nesta bibliografia (e.g. Le Capital, Marx & Engels Collected Works etc).