Carlos R. V. Cirne Lima (1931-2020) – II

Carlos Eduardo Uchôa (Jornal de Resenhas)

Por ERNILDO STEIN*

Comentário sobre a obra e a vida do filósofo gaúcho

Avaliar a presença do professor Cirne Lima no contexto da filosofia nacional significa contar a história dos momentos mais importantes que atravessou um certo debate filosófico a partir dos anos 1960, nascido no Rio Grande do Sul, e que teria, ao longo dos anos, levado a um diálogo de grande profundidade entre filósofos brasileiros, no seu contexto acadêmico, trazendo contribuições importantes da filosofia clássica alemã.

Quem vinha de um tomismo bastante ortodoxo encontraria as tentativas de leitura transcendental, provenientes de centros de debate, sobretudo, da Alemanha. Certamente, esses debates levaram a uma libertação do excesso de ortodoxia, quando Cirne Lima trouxe ao sul do Brasil um foco de irradiação que iria se encontrar depois com os estudos de Henrique Lima Vaz. Logo, a presença de Cirne Lima seria reforçada pela presença de outros filósofos que vinham discutindo Hegel e as consequências de tal filosofia para o pensamento filosófico reinante e a teologia. É nesse período que também se iniciaria um debate da relação entre cristianismo e marxismo, o que naturalmente conduzia à busca de questões centrais que podiam ser encontradas em Hegel.

Realismo e dialética: a analogia como dialética do realismo, (Porto Alegre, Globo, 1967), sua primeira interpretação do hegelianismo, já revelava uma muito original interpretação de elementos fundamentais de Hegel, postos em um novo contexto. Mas isto seria apenas o começo de um longo empenho nas discussões hegelianas que o filósofo travava, sobretudo com colegas brasileiros e que terminaram progressivamente a chamar a atenção para especialistas em Hegel na Alemanha. Formou-se assim um grupo notável de debates, no qual Cirne Lima não apenas revelava um conhecimento atualizado das pesquisas de ponta de Hegel, mas era procurado como um intérprete cuja criatividade era cada vez mais visível. Juntamente com Lima Vaz, Manfredo Oliveira, Marcelo Aquino e vários conhecedores de Hegel do exterior, Cirne Lima terminou liderando o grande aprofundamento do estudo de Hegel no Brasil.

Quando se iniciaram os cursos de Pós-Graduação no Brasil, o professor Carlos Roberto Cirne Lima iniciou uma atividade de irradiação através da formação de novos pesquisadores e professores. Naturalmente, há todo um clima de ambiente universitário que foi sustentado por Cirne Lima através de suas interpretações de Hegel e de seus avanços no desenvolvimento de uma análise de caráter pessoal que o levaria a desenvolver um pensamento próprio. Muitos eventos de Filosofia contaram com a presença desse professor, expandindo-se cada vez mais o estudo de Hegel e a interpretação nova de Cirne Lima, que iniciava um pensamento próprio que o levaria a refazer todo o caminho platônico, sobretudo desde Plotino.

A iniciativa do projeto do CD-Rom Dialética para todos [lançado em maio de 2006] constituiu algo absolutamente original em nosso meio e levou a uma difusão na época, inusitada, não apenas das ideias de Hegel, mas do próprio pensamento de Carlos Roberto Cirne Lima, também publicado no seu livro, já em várias edições, Dialética para principiantes (Porto Alegre, EDIPUCRS, 1996). Não é simples dar a idéia da penetração do debate de Hegel entre as pessoas cultas e não apenas no mundo universitário por meio dessa iniciativa.

Com o livro Depois de Hegel (Caxias do Sul, Educs, 2006) Cirne Lima se coloca em lugar muito particular na interpretação de Hegel. Mas a obra não pode ser considerada apenas uma releitura de um filósofo da tradição. Nela, aparece o verdadeiro pensamento de Cirne Lima, mostrando uma admirável capacidade de abrangência das diversas tendências filosóficas atuais, através das quais ele faz passar o projeto hegeliano, dando-lhe uma novidade inesperada. Mas isso seria dizer pouco, porque, com esta obra, o professor abriu sua visão filosófica extremamente sofisticada e ampla para o diálogo com as ciências, sobretudo a Biologia e as ciências evolucionárias.

Os encontros periódicos com filósofos de várias tendências vindos do Brasil e do exterior fizeram surgir na Unisinos um marco da interdisciplinaridade inspirada no pensamento dialético em seu sentido mais amplo. Depois de Hegel representa também o esforço de um pensamento que está em busca de se articular como sistema, no contexto de uma profunda novidade. Mas, para levar Hegel a um diálogo como Cirne Lima o pretende, era necessário corrigir, sob vários aspectos, questões fundamentais em Hegel.

É para isso que ele submeteu a Lógica de Hegel a uma severa formalização, utilizando os mais finos recursos da lógica contemporânea. O que emociona, na leitura desse livro, é a percepção de uma busca de totalidade, que harmonicamente se articula, também, com a totalidade do conhecimento científico. Seria quase redundante afirmar que o conhecimento da filosofia analítica e de seus recursos é conduzido para além da mesma, numa ampliação na qual o resultado é o mais original diálogo entre a filosofia analítica e a dialética.

As ciências desenvolvem um pensamento discursivo do qual a totalidade está excluída por força da própria lógica das ciências. Elas certamente desenvolvem, na linguagem de Putnam, uma racionalidade 2, que de modo algum é possível sem a pressuposição de uma racionalidade 1, pela qual se garante a totalidade.

Em primeiro lugar, é importante dizer que a fenomenologia não persegue uma espécie de pensamento fragmentário. Ela simplesmente se delimita um campo no qual ela explora as condições finitas dentro das quais se pode fazer filosofia. Ao contrário da pós-modernidade, a fenomenologia hermenêutica, sobretudo na virada hermenêutica contemporânea, busca uma unidade, contra o dualismo, e contra um inaceitável relativismo como o da pós-modernidade. Esta é nada mais do que resultado de múltiplos eventos da cultura contemporânea, e, na filosofia, pode ser entendida como o resultado de uma leitura equívoca do pensamento de Heidegger.

Deve-se, no entanto, reconhecer que as interpretações que se revelam em certas questões de Heidegger não se caracterizam como antissistemáticas, mas simplesmente se movem num nível que precede qualquer pretensão de sistema, e, nesse nível, a discussão entre Hegel e Heidegger, por exemplo, resulta em produtividade especulativa. Isso quer dizer que, para além da questão do ser em Heidegger, que é uma questão fenomenológica, é possível colocar uma questão do ser que avança para além da fenomenologia, e nela, sem dúvida, se realizam movimentos que nada têm a ver com a dimensão da compreensão do ser da fenomenologia. Em filosofia, não faz nenhum sentido jogar filósofos com suas teorias em trincheiras opostas. Não é por nada que costumo dizer que Heidegger convida a metafísica ocidental para um ecumenismo, na medida em que recusa qualquer ortodoxia no pensamento filosófico.

Convivência pessoal e intelectual

Travei contacto com Cirne Lima primeiro por meio da s sua obra Der personale Glaube [A fé pessoal] (Paris, Chédigny, 1959) que eu vinha traduzindo para o professor Ernani Fiori como auxílio para a sua tese de professor titular, Reflexão metafísica e experiência transcendental (Ernani Fiori lamentavelmente não chegou a apresentar a sua tese de cátedra, cuja defesa estava iminente, por causa da sua exclusão da universidade).

Nessa época, a leitura da Metafísica, de E. Coreth, me revelava, pelas notas referidas a Cirne Lima, no texto, o quanto ele tinha sido importante no diálogo com Coreth. Quando estávamos escrevendo, em diálogo constante, as teses de livre docência para a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Cirne Lima escrevia uma primeira interpretação, profundamente hegeliana, intitulada Realismo e dialética: a analogia como dialética do realismo.

Na época da ditadura participei da diáspora dos filósofos, o fato de ter que abandonar o trabalho universitário representava uma mudança brusca para quem fazia da filosofia o seu foco central de atividade. Eu já estava com minha mulher e minhas filhas no exterior quando soube da atitude do Cirne Lima e de colegas que foram cassados por terem-se solidarizado com a primeira turma da Filosofia da UFRGS, expurgada em 1969. Só quem viveu a situação pode avaliar a generosidade e a coragem de tal gesto.

A primeira impressão que tive, quando ouvi Cirne Lima falar da dialética do senhor e do servo, num momento muito especial, foi a de uma mente brilhante e extraordinariamente lúcida e arrojada. A convivência com o colega me traz sempre a vivência de uma generosidade rara. Mesmo que em muitos momentos nos movíamos em posições diferentes, filosoficamente, a fineza e a cortesia de Cirne Lima suscitavam vontade de encontrar na conversa clareza para as questões da Filosofia. A tarefa filosófica pode ter sua grandeza. Mais importante que ela, no entanto, é a certeza da solidariedade e da lealdade, no convívio humano.

*Ernildo Stein é professor de filosofia aposentado da URGS e da PUC-RS. Autor entre outros livros de Seis estudos sobre “Ser e Tempo” (Vozes).

Artigo estabelecido a partir de entrevista concedida a Márcia Junges e Patricia Fachin na Revista IHU on-line.