Dia dos pais

Imagem: George Desipris
image_pdf

Por LEONARDO BOFF*

Sonhava em conversar no céu com Platão e Aristóteles, discutir com Santo Agostinho, ouvir os mestres modernos e estar entre os sábios

Esbelto, de figura elegante, sempre fumando seu palheiro, ele foi um corajoso desbravador. Quando os colonos italianos não tinham mais terras para cultivar na Serra Gaúcha, eles, em grupo, emigraram para o interior de Santa Catarina em terras cheias de pinhais, Concórdia, hoje, sede dos frigoríficos da Sadia e nos arredores, da Perdigão e da Seara.

Não havia nada, exceto alguns caboclos, sobreviventes da guerra do Contestado e grupos de indígenas kaigan, desprezados e sempre defendidos por ele. Reinavam os pinheiros, soberbos, a perder de vista.

Os colonos alemães, poloneses e italianos vieram, organizados em caravanas, trazendo seu professor, seu puxador de reza e uma imensa vontade de trabalhar e de fazer a vida a partir do nada.

Ele estudara vários anos com os jesuitas em São Leopoldo, no Colégio Cristo-Rei, no Rio Grande do Sul. Acumulara vasto saber humanístico: sabia algo de latim e de grego e lia em linguas estrangeiras. Viera para animar a vida daquela gente poverella.

Era mestre-escola, figura de referência e respeitadíssimo. Dava aulas de manhã e de tarde. À noite ensinava português para colonos que só falavam italiano e alemão em casa, o que era proibido, pois era o tempo da Segunda Guerra Mundial. Ao lado disso, abriu uma escolinha para os mais inteligentes a fim de formá-los guarda-livros (contabilistas) para fazer a contabilidade das bodegas e das vendas da região.

Como os adultos tinham especial dificuldade em aprender, usou de um expediente criativo. Fez-se representante de uma distribuidora de rádios de Porto Alegre. Obrigava cada família a ter um rádio em casa e assim aprender o “brasilian”, ouvindo programas em português. Montava cataventos e pequenos dínamos onde havia uma cascata para que pudessem recarregar as baterias.

Como mestre-escola, era um Paulo Freire avant la lettre. Conseguiu montar uma biblioteca de mais dois mil livros. Obrigava cada familia a levar um livro para casa, lê-lo. No domingo, depois da reza do terço em latim, formava-se uma roda, sentados na grama, onde cada um contava em português o que havia lido e entendido.

Nós, pequenos, ríamos, a mais não poder, pelo português atrapalhado que falavam. Não ensinava aos alunos, apenas o básico de toda a escola, mas tudo o que um colono devia saber: como medir terras, como devia ser o ângulo do telhado do paiol, como fazer cálculo de juros, como cuidar da mata ciliar e tratar os terrenos com grande declive.

Na escola introduzia-nos nos rudimentos de filologia, ensinando-nos palavras latinas e gregas. Nós pequenos, sentados atrás do fogão por causa do frio gélido, devíamos recitar todo o alfabeto grego, alpha, beta, gama, delta, teta…

Mais tarde no seminário, eu me enchia de orgulho ao mostrar aos outros e até aos professores a filologia de algumas palavras. Aos onze filhos incitava-nos à muita leitura. Eu decorava frases de Hegel e de Darwin, sem entendê-las, para dar a impressão que sabia mais que os outros. Sempre me perguntava o que significava a frase de Parmênides:”o ser é e não ser não é”. E até hoje sigo me perguntando.

Mas era um mestre-escola no sentido clássico da palavra porque não se restringia às quatro paredes. Saía com os alunos para contemplar a natureza, explicar-lhes os nomes das plantas, a importância das águas e das árvores frutíferas nativas.

Naqueles interiores distantes de tudo, funcionava como farmacêutico. Salvou dezenas de vidas usando a piniscilina sempre que chamado, não raro, tarde da noite. Estudava num grosso livro de medicina, os sintomas das doenças e como tratá-las.

Naqueles fundos ignotos de nosso pais, havia uma pessoa preocupada com problemas políticos, culturais e até metafísicos e se perguntava pelo destino do mundo. Criou até uma pequena roda de amigos que gostavam de discutir “coisas sérias”, mas mais que tudo para ouvi-lo.

Sem ninguém com quem intercambiar, lia os clássicos do pensamento como Spinoza, Hegel, Darwin, Ortega y Gasset e Jaime Balmes. Passava longas horas à noite colado ao rádio para escutar programas estrangeiros e se informar do andamento da Segunda Guerra Mundial.

Era crítico à Igreja dos padres porque estes não respeitavam os protestantes alemães, condenados já ao fogo do inferno por não serem católicos. Muitos estudantes olhavam para aquelas meninas loiras, bonitas e luteranas e comentavam: “que pena que elas, tão lindas, vão para o inferno”. Meu pai opunha-se a isso e com dureza tratava aqueles que discriminavam os negriti e os spuzzetti (os “negrinhos” e os “fedidinhos”), filhos e filhas de caboclos. A nós, filhos e filhas obrigava-nos a sentar na escola sempre ao lado deles para aprender a respeitá-los e a conviver com os diferentes.

Sua piedade era interiorizada. Passou-nos um sentido espiritual e ético de vida: ser sempre honesto, nunca enganar a ninguém, dizer sempre a verdade e confiar irrestritamente na Providência divina.

Para que seus onze filhos pudessem estudar e chegar à universidade vendia, aos pedaços, todas as terras que tinha ou herdara. No fim, ficou sem a própria casa.

Sua alegria era sem limites quando os filhos e filhas vinham de férias pois assim podia discutir horas e horas com eles. E nos batia a todos. Morreu jovem, com 54 anos, extenuado de tanto trabalho e de abnegado serviço em função de todos. Pressentia que ia morrer pois o coração cansado fraquejava dia a dia. E tomava apenas como remédio maracujina.

Sonhava em conversar no céu com Platão e Aristóteles, discutir com Santo Agostinho, ouvir os mestres modernos e estar entre os sábios. Os filhos inscreveram seu lema de vida sobre sua tumba: “De sua boca ouvimos, de sua vida aprendemos: quem não vive para servir não serve para viver”.

Morreu de infarte e na mesma hora, no dia 17de julho de 1965, em que eu embarcava de navio para estudos na Europa. Só lá, um mês depois, soube de sua travessia. Este mestre-escola criativo, inquieto, servidor de todos e sábio, longe dos centros, se questionava sobre o sentido da via nesta terra. O leitor e a leitora seguramente já adivinharam quem era:meu querido e saudoso pai Mansueto que, neste dia dos pais, o lembro com carinho e infinita saudade, meu verdadeiro mestre.

*Leonardo Boff é teólogo, filósofo e escritor. Autor, entre outros livros, de Habitar a Terra: qual o caminho da fraternidade universal? (Vozes).

 

⇒O site A Terra é redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores. Ajude-nos a manter esta ideia.⇐
Clique aqui e veja como.

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Para além de Marx, Foucault, Frankfurt
25 Jan 2026 Por JOSÉ CRISÓSTOMO DE SOUZA: Apresentação do autor ao livro recém-publicado
2
Avaliação e produtivismo na universidade
23 Jan 2026 Por DANICHI HAUSEN MIZOGUCHI: A celebração das notas da CAPES diante do estrangulamento orçamentário revela a contradição obscena de uma universidade que internalizou o produtivismo neoliberal como nova liturgia acadêmica
3
O teto de vidro da decolonialidade
29 Jan 2026 Por RAFAEL SOUSA SIQUEIRA: A crítica decolonial, ao essencializar raça e território, acaba por negar as bases materiais do colonialismo, tornando-se uma importação acadêmica que silencia tradições locais de luta
4
A ilusão da distopia
27 Jan 2026 Por RICARDO L. C. AMORIM: O novo capitalismo não retorna ao passado bárbaro; ele o supera com uma exploração mais sofisticada, onde a submissão é voluntária e a riqueza se concentra sem necessidade de grilhões visíveis
5
O Conselho da Paz de Donald Trump
24 Jan 2026 Por TARSO GENRO: Da aridez de Juan Rulfo ao cinismo da extrema direita mundial, Tarso Genro denuncia a transição da cena pública para uma era de tirania privada, em que a gestão do caos e a aniquilação de povos desafiam a humanidade a resgatar o frescor de suas utopias perdidas
6
Júlio Lancellotti
28 Jan 2026 Por MARCELO SANCHES: A relevância de Padre Júlio está em recolocar a fé no chão concreto da vida, denunciando o cristianismo que serve ao poder e legitima a desigualdade
7
Notas sobre a desigualdade social
22 Jan 2026 Por DANIEL SOARES RUMBELSPERGER RODRIGUES & FERNANDA PERNASETTI DE FARIAS FIGUEIREDO: A questão central não é a alta carga tributária, mas sua distribuição perversa: um Estado que aufere seus recursos majoritariamente do consumo é um Estado que institucionaliza a desigualdade que diz combater
8
Enamed e cretinismo parlamentar estratégico
27 Jan 2026 Por PAULO CAPEL NARVAI: É mais prático e eficaz fechar cursos e colocar um fim na farra da venda de diplomas disfarçada de formação. Mas não é nada fácil fazer isso, pois quem consegue enfrentar congressistas venais?
9
Hamnet – a vida antes de Hamlet
19 Jan 2026 Por JOÃO LANARI BO: Comentário sobre o filme dirigido por Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
10
Energia nuclear brasileira
06 Dec 2025 Por ANA LUIZA ROCHA PORTO & FERNANDO MARTINI: Em um momento decisivo, a soberania energética e o destino nacional se encontram na encruzilhada da tecnologia nuclear
11
Poder de dissuasão
23 Jan 2026 Por JOSÉ MAURÍCIO BUSTANI & PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.: Num mundo de hegemonias em declínio, a dissuasão não é belicismo, mas a condição básica de soberania: sem ela, o Brasil será sempre um gigante de pés de barro à mercê dos caprichos imperiais
12
Hamnet
24 Jan 2026 Por RICARDO EVANDRO SANTOS MARTINS: Entre a fitoterapia de Agnes e a poética de Shakespeare, o filme revela como o saber silenciado das mulheres e o trabalho de luto desafiam a fronteira da morte
13
O exemplo de Sorbonne
29 Jan 2026 Por EVERTON FARGONI: A recusa da Sorbonne aos rankings é um ato de insubordinação: nega a redução do conhecimento a métricas e reafirma a universidade como espaço de crítica, não de produtividade alienada
14
Entradas: fotografias — Um ensaio de antropologia visual
25 Jan 2026 Por ANNATERESA FABRIS: Comentários sobre o livro de Carlos Fadon Vicente
15
O declínio da família no Brasil
21 Jan 2026 Por GIOVANNI ALVES: A explosão de lares unipessoais e a adultescência prolongada são duas faces da mesma moeda: a desintegração da família como infraestrutura antropológica, substituída por uma solidão funcional ao capital financeirizado
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES