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Dias tristes

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Por JULIAN RODRIGUES*

Quem tem medo de Lula 2022?

O artigo de um colunista do jornal impresso carioca da família Marinho tem gerado uma baita discussão no campo da esquerda. Sujeito de exótico nome – Ascânio Seleme – publicou no diário carioca da família Global um artigo, no dia 11 de julho, cujo título trouxe conforto em tanta gente – aliviou mesmo: “É hora de perdoar o PT”. Alguns dizem que o escriba é porta-voz oficioso da famiglia. Oxi, euzinha esperaria algum gestinho do bigodudo Merval, ou da ex-comuna, nossa Mirian? Nada disso. Foi esse senhor mesmo tomado como porta-voz oficioso do oligopólio golpista. Meio gesto rebaixado né?

O tal artigo xinga o PT de corrupto e autoritário. Justifica o ódio do qual fomos objeto. Mas, de forma magnânima, anuncia que já deu. Pula claro o golpe de 20016. Traz uma boa nova: já passou a hora de odiar o PT, que, afinal, representa pelo menos 30% do eleitorado brasileiro. Sério, gente! Um homem branco velho reaça que escreve no diário dos Marinhos deu uma chance pra nós!! Ai que tudo! Parece que as elites começam a nos perdoar! Toquem todos os sinos.

Juro que fugirei das óbvias das reações. A rede Globo, afinal, já pediu perdão pro Brasil? Bando de burgueses golpistas! Tão com medinho agora? Ajudaram a derrubar uma mulher democraticamente eleita, fizeram campanha para prender injustamente um ex-presidente, foram cúmplices da vitória do neofascista? E, agora, querem pedir arrego? Estão com medinho de ficar sem a concessão? Estão perdendo dinheiro porque o Bolsonaro prioriza o Silvio Santos e o Edir Macedo?

Ultraliberalismo e neofascismo

Luis Felipe Miguel em A Terra é Redonda (Uma repactuação?) e Gilberto Maringoni no Jornal GGN (A Globo faz bravatas e chama o PT para conversar: o Partido vai recusar?), publicaram interpretações bem distintas do artigo do tal Ascânio. Didaticamente, expressam duas visões que atravessam, transversalmente, os principais partidos e organizações da esquerda brasileira.

Antes de tudo, vale demarcar meu ponto de partida. Estou entre os que caracterizam o governo Bolsonaro como neofascista, com base de massas. 30% não é pouca coisa. E com um programa ultraliberal – que garante o apoio do andar de cima. Não tem “frente ampla” por uma razão simples: a direita, os burgueses, os donos da bufunfa, a turma do andar de cima não quer tirar o Bolsonaro do governo. Aliás, nem os ácidos anti petistas do Ceará, que se fingem de centro-esquerda, os Ferreira Gomes querem (“Bolsonaro é um despreparado, mas sou contra o impeachment”, disse Cid). Fernando Henrique é mais explícito ainda: “não defendo impeachment”).

Então, essa é a base da análise de conjuntura. Interpretação concreta de uma situação concreta, como ensinou um certo russo rebelde e metido. A classe dominante brasileira que, em conjunto com o Imperialismo – leia-se EUA (sim, isso existe ainda) deu um golpe em 2016 , rompendo o pacto constitucional de 1988, continua golpista e simpática ao neofascismo, desde que o Guedes esteja no jogo. Só não querem os exageros toscos e fascistoides do ex-capitão.

Especificamente, a Globo radicaliza porque está na mira do Bolsonaro. Além de ameaçar caçar a concessão dos Marinhos, Bolsonaro, fortalece a família do Silvio Santos (deu o Ministério das Comunicações para o genro do apresentador) bem como o bispo Edir Macedo e sua Rede Record. Toda e qualquer interpretação sobre a conjuntura, acaba refletindo algumas das polêmicas fundamentais que atravessam a esquerda brasileira. Transversalmente. Passam pela caracterização do governo Bolsonaro, pela melhor tática para derrotá-lo. E, sobretudo, pela estratégia de fundo que deve nortear os e as socialistas.

Unidade e reconstrução da esquerda socialista

Sofremos uma derrota histórica. Derrotar o bolsonarismo é tarefa árdua. Nenhum Partido ou organização, sozinho logrará êxito. Ocorre que o PT segue sendo o maior e mais importante partido da classe trabalhadora e do povo brasileiro. Lula é a maior liderança popular do país. Como bem apontaram Valério Arcary (“A interdição de Lula”) e Lincoln Secco (“Os direitos de Lula”) não há qualquer perspectiva de reconstrução de um regime liberal-democrático no Brasil se Lula não recuperar seus direitos políticos.

É algo simples, que nem o PT como um todo entendeu, ainda. Papo reto: se nosso velhinho barbudo não puder se candidatar a presidente é porque a eleição continuará sendo de mentirinha. Seguirá sendo fake. Significa que a esquerda permanece interditada. Proibida de brincar. Melhor, pode até brincar, mas segue impedida de ter pretensões maiores.

Por que é tão difícil entender isso? Não se trata de mágoa do Lula. Nem de hegemonismo do PT. Nem nada disso. É mais singelo: o andar de cima topa, de verdade, uma disputa eleitoral em que a esquerda tenha chances reais de derrotar o bolsonarismo e também um candidato liberal de direita, tipo Huck, ou Doria? Ou só topam um processo onde a esquerda seja força auxiliar do bloco da direita liberal que não quer mais o Bolsonaro, embora continue amando o Guedes e seu programa antipovo?

E quais são as melhores chances da esquerda?? Com um professor democrata-liberal que se recusou a ser candidato em São Paulo esse ano? Com o talentoso governador do Maranhão, deslumbrado em ser o novo líder, com uma legenda de centro e pequena, tipo PSB? Ou com Luis Inácio Lula da Silva, “candidato permanente do povo brasileiro”, na definição de um grande líder do MST?

Quem tem medo de Lula 2022? A direita toda, isso sabemos. Mas também há os que querem, na esquerda, enterrar Lula vivo. É a turma que recomenda ao PT fazer as pazes com a rede Globo.

Ou a galera que fica louquinha atrás de uma frente fake com FHC, Tasso, Maia, Temer, Sarney, Huck e sei lá mais quem. Ou, mesmo no PT, os que só querem se aliar com a centro-direita, achando que isso os dará mais força eleitoral e vai garantir espaços institucionais.

Trago bad news. Vai piorar antes de melhorar. Vamos precisar de muito foco, muita combatividade, muita unidade entre os socialistas e revolucionários. São tempos de trevas, mas também de potencialidades. Dias tristes, mas prenhes de novas alianças, novos métodos, e novas pessoinhas. Nunca seremos amiguinhos da rede Globo. Muito menos acreditamos que esses frentões nos salvarão. O povo, a classe. A esquerda, o programa.

*Julian Rodrigues é militante PT-SP; professor, jornalista, ativista de Direitos Humanos e LGBTI.

 

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