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Jogar o jogo deles?

Imagem: Plato Terentev
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Por DANIEL PAVAN*

Considerações sobre a estratégia discursiva da extrema direita

A não resolução em primeiro turno destas que são, certamente, as eleições presidenciais mais significativas desde a redemocratização do país produziu, inevitavelmente, um clima de alta tensão. Agravado pelo desencontro entre as previsões das pesquisas eleitorais e o resultado efetivo da votação, o temor diante da possibilidade da reeleição de Jair Bolsonaro foi elevado à segunda potência, e com razão. Para aqueles que se permitiram acreditar em uma vitória fácil, a noite de domingo foi o gatilho para uma reação, por vezes estabanada, no sentido de reforçar o impulso de mobilização eleitoral, seja em favor do ex-presidente, seja em desfavor do atual mandatário.

Neste espaço inflamado, a faísca que fez nascer fogo foi a divulgação, na última terça feira, de um vídeo no qual o “bom-cristão” Jair Bolsonaro é visto discursando em um templo maçon. Fato que para muitos foi uma novidade, tanto a igreja católica quanto a evangélica, pedestais da autoimagem que Jair Bolsonaro visa projetar, não se dão nada bem com a maçonaria. Notou-se, imediatamente, que este material poderia provocar uma reação negativa naqueles eleitores do presidente mais afeiçoados a seus acenos religiosos. O aproveitamento disso pela militância lulista virtual foi imediato: o vídeo tornou-se viral, as pesquisas na internet sobre Jair Bolsonaro e maçonaria subiram às nuvens e, em pouco tempo, começaram a pipocar relatos da alta eficácia deste investimento: votos, se não virados, foram anulados.

Dada a virulência e intensidade que este movimento alcançou, tendo assustado com algum sucesso a própria campanha bolsonarista, o lado lulista sentiu a potência desta arma que acabara de utilizar. Não foram as centenas de milhares de mortes da pandemia, mal gerida pelo presidente, tampouco os impropérios que este constantemente balbucia, nem sequer a inflação galopante, muito menos a inaptidão administrativa de sua gestão. Aparentemente, o que movia estes votos persistentes com eficácia era a comprovação da traição religiosa do presidente. Não era preciso explicar muita coisa, nem questionar, investigar ou elaborar, bastava um “olha só isso” e a reação esperada vinha. Tal fato, embora devidamente frustrante, é também um forte indicador dos alicerces ideológicos que mantém o bolsonarismo em pé.

Muitos não demoraram a apontar que tal empreitada poderia ser “jogar o jogo deles”, isto é, usar elementos da caixa de ferramentas discursiva da extrema direita contra ela mesma. Não falavam no vácuo: o influenciador André Janones, desde antes do choque do último domingo, já reconhecia esta estratégia como slogan de campanha: “para combater o boslonarismo de igual para igual, Janones Federal”.

Diante de uma situação tão urgente, experimentado o gosto do poder de influência que tais ferramentas pareciam possuir, a reprimenda que insiste que “não devemos nos reduzir ao nível deles” não vingou. De fato, um certo purismo moral, que financiou tantos votos nulos quando a mais urgente ação era necessária, precisa ser, no mínimo, relativizado diante da catástrofe iminente: é preciso barrar um fascismo furioso com todas as armas à disposição.

O alerta, no entanto, não é completamente descabido. Estamos, aqui, sobre terreno movediço. A fronteira que nos separa da divulgação de mentiras e da criação de falsos escândalos, invertendo apenas o sinal e assim reforçando a manipulação e a mentira fascistas, é porosa e seu atravessamento tentador.

Entretanto, embora este enfrentamento mais direto do arsenal discursivo da extrema direita possa nos aproximar de uma espécie “redução ao nível deles”, risco grave e real, acredito que, quando realizado com clareza crítica e cautela, pode mostrar-se uma ferramenta poderosa de contrapropaganda, dando o caminho para algum desmonte de uma campanha mentirosa e manipuladora.

Para isso, é bom começar com o mais essencial: em que consiste a estratégia discursiva da extrema direita?

Antes de mais nada, não se trata de um jogo novo, mas já bem manjado, anterior a qualquer rede social ou internet. O cientista político André Singer, na esteira de muitos outros analistas, bem notou que a “técnica utilizada por Bolsonaro para iludir os demais atores em cena” é um elemento que aproxima o atual candidato às grandes lideranças do nazifascismo de outrora. A tática discursiva de que tratamos, portanto, já foi vista e ouvida na boca de Hitler, Mussolini e outros fascistinhas menores.[i]

Apoiando-se na consagrada tradição da Escola de Frankfurt, André Singer aponta que a efetividade do fascismo como movimento político estaria, em essência, na sua capacidade de atingir traços inconscientes dos indivíduos. Este seria um dos achados de um conjunto de pesquisas empíricas tocadas por membros desta tradição sociológica, visando compreender não apenas a estrutura e os efeitos do discurso de líderes fascistas como também os traços que compunham a “personalidade autoritária” predisposta a suas investidas.

Além de ser, primariamente, um discurso que objetiva provocar reações afetivas, isto é, gratificações imediatas, emotivas, nos ouvintes, em vez de atraí-los pela força de argumentos e explicações racionais, os frankfurtianos também descobriram que o “jogo” fascista tem peças bem definidas. Esta tática de agitar as emoções do público para extrair dele uma mobilização política seria operada através de um conjunto não muito amplo de “dispositivos”, calibrados para provocar as reações esperadas.

Uma forma de tornar claro o que isso significa é a distinção, proposta pelos companheiros de Adorno e Horkheimer, Leo Lowenthal e Norbert Guterman, entre o revolucionário, o reformista e o agitador. Para estes últimos, todos os três tipos se apresentam como “porta-vozes da mudança social”. Isso significa que todos, à sua maneira, visam articular e responder às insatisfações dos indivíduos diante de problemas e frustrações sociais. A estes ouvintes, o reformista procuraria circunscrever a causa da insatisfação a um problema social delimitado que, por não aparecer de forma imediata na frustração, seria racionalmente relacionado a ela, e assim seria elaborada uma solução. O revolucionário, não tão distinto do colega anterior, iria mais adiante e relacionaria o problema à estrutura social como um todo, propondo, com argumentos e explicações, uma transformação geral desta estrutura.

O agitador, por sua vez, escolhe um caminho todo distinto. Em vez de definir a natureza do problema por meio de conceitos racionais, procura desorientar ainda mais a sua audiência, destruindo, ao invés de construir, os suportes racionais de uma eventual solução, e buscando convencer seu público a adotar, em vez de uma saída racional, comportamentos “espontâneos”. Não é preciso dizer que aqui não há espontaneidade alguma, mas uma reação prudentemente dirigida pela influência do próprio agitador, que vai canalizá-la ao sabor de seus interesses.

Por isso, em vez de descrever problemas, o agitador nomeia inimigos. Suas palavras não buscam esclarecer a situação, elevando o indivíduo incomodado a uma compreensão mais clara e efetiva de sua aflição. Pelo contrário, a função primária delas é “liberar reações de gratificação ou frustração cujo efeito total é tornar a audiência subserviente à sua liderança pessoal”.[ii] O agitador sabe muito bem que vai encontrar um público portador de ressentimentos, pois se trata de um fenômeno social generalizado. A sua aposta, no entanto, não é a de propor uma compreensão desta emoção, mas reforçá-la.

Serão aqueles dispositivos discursivos que realizarão esta tarefa. É aqui que surge, dentre vários outros, o famoso “nós e eles”, isto é, a distinção radical entre um in-group, ao qual pertencem o líder e seu seguidor, caso escolha segui-lo, e um out-group inimigo intolerável. Toda a frustração e raiva, que dão razão ao ressentimento sentido, são assim canalizados em direção a um inimigo a se escolher, fortalecendo o sentimento de gratificação daquele que se sente parte do in-group. No nazismo, os inimigos eram o judeu e outras minorias. Agora, são os “petistas”, os “comunistas” e, novamente, as minorias.

A religião, por sua vez, pode assumir um papel fundamental neste arsenal da extrema direita. Na metade dos anos 1940, Theodor Adorno analisou detalhadamente os discursos radiofônicos de um agitador fascista norte-americano, um tipo bizarramente semelhante a nosso “padre de festa junina”, que se fazia líder de um importante movimento fascista da costa Oeste estadunidense – seu nome era Martin Luther Thomas. Descobriu, assim, que Martin Luther Thomas utilizava a religião como forma de apelar àqueles mais tidos à religiosidade de modo a “transformar seu zelo religioso em partidarismo político e subserviência”.[iii] A sua propaganda fascista, neste sentido, “secularizava” elementos do cristianismo, pervertendo-lhes em seus opostos. Em realidade, os propósitos de Martin Luther Thomas eram – assim como os de Jair Bolsonaro são – antirreligiosos. A religião, para ambos, servia apenas de pedestal para mobilizar um público crente em sua direção.

E aqui reside a esperança de Theodor Adorno em uma possível forma de contrapropaganda, que pode se mostrar útil em nossa condição atual. Diz o frankfurtiano: “se fosse apresentado de forma inequívoca aos grupos aos quais ele [Thomas] se dirige que seus objetivos contradizem plenamente os ideais cristãos que professa e diz defender, estes sentimentos religiosos poderiam se expressar na direção oposta”.[iv] De certa maneira, acredito, é algo próximo disso que pode ter acontecido com o escândalo maçônico de Jair Bolsonaro.

Isso significa que uma possível forma de contrapropaganda seria procurar abalar, diretamente nas bases, os suportes da imagem enganadora do nosso agitador, mostrando claramente a enganação em operação, assim procurando desmantelar o laço afetivo que este procurou estabelecer com seus seguidores. Uma compreensão maior, crítica e teoricamente orientada de como se opera o “jogo” da extrema direita poderia, portanto, abrir caminhos para uma resposta mais efetiva ao bolsonarismo.

No entanto, esta resposta, é fundamental lembrar, precisa ser muito mais do que discursiva, mas vir acompanhada de um impulso de transformação social radical (no sentido honesto daquele que vai buscar os problemas nas raízes). E, aqui, surgem riscos significativos, que mostram como nos encontramos em uma fronteira perigosa.

O primeiro e mais óbvio é o de perder a abertura de contrapropaganda encontrada, apenas roubando o microfone do inimigo para cantar a mesma música. É o que, infelizmente, parece fazer André Janones, que em sua resposta ao vazamento do vídeo-escândalo da maçonaria apenas reforçou o aproveitamento dos temas religiosos para fins de mobilização política, acreditando poder simplesmente trocar-lhe o alvo, numa sequência de provocações e falas que precisam ser enfrentadas com muita cautela. Dito da forma mais clara possível, uma coisa é demonstrar irrefutavelmente a falsidade do discurso de Bolsonaro, outra coisa é arrogar o papel que o outro dizia ter, o de verdadeiro cristão. Pior ainda seria abraçar de vez o “jogo” todo e sair por aí propagando mentiras e escândalos: a técnica não é isenta politicamente, e este tiro inevitavelmente sairia pela culatra.

O segundo risco, que me parece mais presente, é o de tentar atacar discursivamente a extrema direita sem enfrentar as verdadeiras causas sociais que lhe dão chão objetivo, isto é, tentar convencer o eleitor a apoiar um programa de governo que não vai, com aquela boa radicalidade, apresentar e enfrentar os problemas que estão na raiz de seu descontentamento. Assim sendo, ganha verdade a acusação de que “é tudo farinha do mesmo saco”, e torna-se mais difícil convencer este eleitor mais uma vez, e certo está ele. Nesta última condição, a extrema-direita ofereceria ao menos a vantagem de ser mais gratificante em seu espetáculo.

*Daniel Pavan é graduado em ciências sociais pela USP.

 

Notas


[i] SINGER, André: “Entre o ridículo e o ameaçador”, disponível em: https://aterraeredonda.com.br/entre-o-ridiculo-e-o-ameacador/

[ii] LOWENTHAL, Leo; GUTERMAN, Norbert. Prophets of Deceit: A Study of the Techniques of the American Agitator. New York: Harper & Brothers, 1950, p.9.

[iii] ADORNO, Theodor W. “The Psychological Technique of Martin Luther Thomas’ Radio Adresses”. In ADORNO, T. W. Gesammelte Schriften. Frankfurt am Main: Suhrkhamp Verlag, 1986

[iv] Ibid.

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