Dúvida censitária

Imagem: Karolina Kaboompics
image_pdf

Por FELIPE A. P. L. COSTA*

Éramos 203 milhões em 2022 ou somos agora 213 milhões?

Na última quinta-feira (29/8), o IBGE divulgou a sua mais recente atualização para o tamanho da população brasileira. Seríamos agora cerca de 213 milhões. Em 2022, ainda de acordo com o IBGE, éramos 203 milhões. Teria havido um aumento de quase 4,7% em dois anos, o que exigiria uma taxa de crescimento anual na casa dos 2,3%. Ocorre que o ritmo de crescimento da população está abaixo de 1% ao ano, desde 2008.

Para resolver o problema, a minha melhor hipótese seria a seguinte: o resultado do Censo 2022 foi uma subestimativa. Calculo que ao menos 6,2 milhões de brasileiros não foram devidamente recenseados. Aparentemente superestimados, os resultados que o IBGE divulgou agora podem ser frutos de um processo de ajuste e correção.

Brevíssimo histórico

O primeiro recenseamento da população brasileira ocorreu em 1872.[1] O país contava então com 9.930.478 habitantes, incluindo 1.510.806 escravizados (15% da população).

As províncias mais populosas eram Minas Gerais (2.039.735 habitantes), Bahia (1.379.616), Pernambuco (841.539) e São Paulo (837.354).

As maiores capitais eram Salvador (129.109 habitantes), Recife (116.671), Belém (61.997) e Ouro Preto (48.214).[2] A cidade do Rio de Janeiro, sede do governo central e referida então como Município neutro, contabilizava 274.972 habitantes.

Novos recenseamentos foram conduzidos em 1890 (14.333.915 habitantes), 1900 (17.438.434) e 1920 (30.635.605) .[3]

Em 1936, foi criado o INE (Instituto Nacional de Estatística), ancestral do atual IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), que passou a ser o responsável pelos recenseamentos. A quinta operação censitária, a primeira sob o comando do INE, ocorreu em 1940 (41.236.315 habitantes).

Vieram então os censos de 1950 (51.944.397 habitantes), 1960 (70.992.343), 1970 (94.508.583), 1980 (121.150.573), 1991 (146.917.459) e 2000 (169.590.693). E os dois mais recentes, em 2010 (190.755.799 habitantes) e 2022 (203.080.756).

O desgoverno 2019-2022 e o Censo 2022

A operação censitária ocorrida em 2022, a 13ª da história, estava originalmente prevista para 2020. O desgoverno que assolou o país entre 2019 e 2022 boicotou a operação. Razão pela qual o trabalho de campo só foi conduzido – por determinação judicial (ver aqui) – em 2022. Os resultados começaram a ser divulgados em meados de 2023 (ver aqui).

Em 1/8/2022, de acordo com o Censo 2022, a população do país chegou a 203.080.756 habitantes. Foi a primeira vez que um censo contabilizou um efetivo populacional superior a 200 milhões.

O resultado, porém, ficou bem abaixo do que era esperado. Foi uma surpresa e, em certa medida, uma decepção. Veja: no primeiro ano da pandemia já se falava em 210 milhões de habitantes; no ano seguinte, a estimativa anual divulgada pelo IBGE já estava na casa dos 213 milhões.[4] Não foram poucos, portanto, os observadores que apostavam em resultados iguais ou superiores a 210 milhões; até mesmo, quem sabe, na casa dos 220 milhões. A discrepância entre o esperado e o observado foi significativa e muita gente ficou com uma a pulga atrás da orelha.

As estimativas do IBGE para 2024

Eis que na última quinta-feira (29/8/2024), o IBGE divulgou a sua mais recente atualização para o tamanho da população brasileira (ver aqui). Em 1/7/2024, o efetivo populacional teria chegado a 212.583.750 habitantes.

Foi outro choque. Mudou apenas o sinal: foi um salto muito grande. Basta notar o seguinte: em relação ao resultado do Censo 2022, a nova estimativa representaria um aumento de 4,68%. O que exigiria uma taxa de crescimento anual na casa dos 2,3%. É muita coisa.

O leitor não familiarizado com o assunto talvez não saiba, mas 2,3% é um percentual de crescimento que está muito além de qualquer razoabilidade. Ao menos para os padrões brasileiros: pelas minhas contas, a última vez que a taxa de crescimento anual ficou na casa dos 2,3% foi em 1984. De fato, essa taxa está em declínio desde 1977. E mais: desde 2008, o valor está abaixo de 1%. Por exemplo, no triênio 2009-2011, a julgar pelas minhas contas, os valores estavam em 0,97% (2009), 0,94% (2010) e 0,92% (2011). Em 2019, o último ano antes da pandemia, o valor chegou a 0,75%.

Pode não parecer, mas há uma enorme distância a separar 0,75% de 2,3%.

Coda

Em governos normais (digo: quando os empresários do terror e a ultradireita política são mantidos dentro da jaula), o IBGE produz e divulga um sem número de produtos de qualidade. O que não significa dizer que os produtos estejam isentos de erros ou mal-entendidos. Não estão. Ouso dizer que a discrepância apontada neste artigo seria um exemplo.

Minha melhor hipótese explicativa para essa discrepância seria a seguinte: o resultado do Censo 2022 foi uma subestimativa – calculo que algo como 6.238.077 habitantes não foram devidamente recenseados. Em 2022, portanto, a população do país não estaria de fato na casa dos 203 milhões, mas sim na casa dos 209 milhões.

Por que isso teria acontecido? Não tenho acesso aos registros do IBGE, mas uma explicação possível seria o fato de que um expressivo percentual de moradores (mais do que em ocasiões anteriores) não quis receber ou não quis responder aos recenseadores (ver aqui).

Mas por que isso teria acontecido? Em poucas palavras, eu diria o seguinte: a vida em sociedade piora muito quando os empresários do terror e a ultradireita política são normalizados, como está a ocorrer entre nós. A imprensa brasileira, por exemplo, quase toda ela na mão de rentistas, agiotas ou gatunos em geral, sequer consegue chamar a ultradireita pelo nome.

Finalizando, vejo os resultados divulgados na quinta-feira (29/8) como frutos de um processo de ajuste e correção.[5] Digo: a população brasileira não aumentou 4,68% em dois anos, ainda que o número mais correto possa estar hoje na casa dos 213 milhões.

*Felipe A. P. L. Costa é biólogo e escritor. Autor, entre outros livros de O que é darwinismo.

Notas


 [1] Para detalhes, ver os 12 volumes da coleção Recenseamento do Brazil em 1872; o PDF com vol. 1 pode ser capturado aqui.

[2] No caso da província de Minas Gerais, oito municípios eram mais populosos que a capital, a saber: Serro (67.436 habitantes; em 2024: 67.103), Ponte Nova (57.231; em 2024: 59.569), Queluz (atual Conselheiro Lafaiete, 56.902; em 2024: 137.980), Sabará (55.449; em 2024: 134.286), Minas Novas (54.447; em 2024: 24.191), Grão Mogol (53.005; em 2024: 14.091), Rio Pardo (atual Rio Pardo de Minas, 51.583; em 2024: 29.123) e Santa Bárbara (48.344; em 2024: 31.756).

[3] Para um balanço histórico algo detalhado, ver aqui.

[4] Durante a pandemia (2020-2023), por exemplo, o Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) adotou a estimativa de 210.147.125 habitantes. Em 1/7/2021, conforme o próprio IBGE divulgou em agosto daquele ano, a população do país teria chegado a 213.317.639 (ver aqui).

[5] Levando em conta os resultados divulgados agora pelo IBGE, aproveito para atualizar e ampliar as considerações que fiz em artigo anterior (ver aqui) a respeito da distribuição da população brasileira. A saber:

(a) os 15 maiores municípios do país, todos com mais de 1 milhão de habitantes, abrigam juntos 42.766.437 habitantes (20% do total);

(b) ainda assim, no entanto, a maioria da população do país (80.896.456, o equivalente a 38% do total) está a viver em outro lugar: nos 321 municípios (<6% do total) que têm entre 100 mil e 1 milhão de habitantes;

(c) no cômputo final, metade da população do país está concentrada em 199 municípios (<4% do total). A lista inclui os 15 municípios do item (a) e os primeiros 184 do item (b). Começa por São Paulo (11,896 milhões de habitantes) e termina em Pouso Alegre MG (160,75 mil);

(d) a maioria dos municípios (2.768, ou 49,7% do total), porém, é de uma classe de tamanho diferente: a maioria tem entre 10.000 e 100.000 habitantes. Juntos, eles abrigam 76.146.126 habitantes (36% do total); e, por fim,

(e) os demais 2.466 municípios (44% do total) têm menos de 10 mil habitantes. Juntos, eles abrigam 12.774.731 habitantes (6% do total).

Eis a lista dos 15 municípios (13 são capitais) citados no item (a), em ordem decrescente de tamanho: (i) Mais de 10 milhões – São Paulo; (ii) Entre 5 e 10 milhões – Rio de Janeiro; (iii) Entre 2 e 5 milhões – Brasília, Fortaleza, Salvador, Belo Horizonte e Manaus; e (iv) Entre 1 e 2 milhões – Curitiba, Recife, Goiânia, Belém, Porto Alegre, Guarulhos (SP), Campinas (SP)e São Luís. São Gonçalo (RJ) e Maceió já fizeram parte dessa lista; atualmente, porém, os dois municípios abrigam menos de 1 milhão de habitantes.


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Para além de Marx, Foucault, Frankfurt
25 Jan 2026 Por JOSÉ CRISÓSTOMO DE SOUZA: Apresentação do autor ao livro recém-publicado
2
Avaliação e produtivismo na universidade
23 Jan 2026 Por DANICHI HAUSEN MIZOGUCHI: A celebração das notas da CAPES diante do estrangulamento orçamentário revela a contradição obscena de uma universidade que internalizou o produtivismo neoliberal como nova liturgia acadêmica
3
O Conselho da Paz de Donald Trump
24 Jan 2026 Por TARSO GENRO: Da aridez de Juan Rulfo ao cinismo da extrema direita mundial, Tarso Genro denuncia a transição da cena pública para uma era de tirania privada, em que a gestão do caos e a aniquilação de povos desafiam a humanidade a resgatar o frescor de suas utopias perdidas
4
Hamnet – a vida antes de Hamlet
19 Jan 2026 Por JOÃO LANARI BO: Comentário sobre o filme dirigido por Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
5
Notas sobre a desigualdade social
22 Jan 2026 Por DANIEL SOARES RUMBELSPERGER RODRIGUES & FERNANDA PERNASETTI DE FARIAS FIGUEIREDO: A questão central não é a alta carga tributária, mas sua distribuição perversa: um Estado que aufere seus recursos majoritariamente do consumo é um Estado que institucionaliza a desigualdade que diz combater
6
A ilusão da distopia
27 Jan 2026 Por RICARDO L. C. AMORIM: O novo capitalismo não retorna ao passado bárbaro; ele o supera com uma exploração mais sofisticada, onde a submissão é voluntária e a riqueza se concentra sem necessidade de grilhões visíveis
7
Júlio Lancellotti
28 Jan 2026 Por MARCELO SANCHES: A relevância de Padre Júlio está em recolocar a fé no chão concreto da vida, denunciando o cristianismo que serve ao poder e legitima a desigualdade
8
Enamed e cretinismo parlamentar estratégico
27 Jan 2026 Por PAULO CAPEL NARVAI: É mais prático e eficaz fechar cursos e colocar um fim na farra da venda de diplomas disfarçada de formação. Mas não é nada fácil fazer isso, pois quem consegue enfrentar congressistas venais?
9
O teto de vidro da decolonialidade
29 Jan 2026 Por RAFAEL SOUSA SIQUEIRA: A crítica decolonial, ao essencializar raça e território, acaba por negar as bases materiais do colonialismo, tornando-se uma importação acadêmica que silencia tradições locais de luta
10
Poder de dissuasão
23 Jan 2026 Por JOSÉ MAURÍCIO BUSTANI & PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.: Num mundo de hegemonias em declínio, a dissuasão não é belicismo, mas a condição básica de soberania: sem ela, o Brasil será sempre um gigante de pés de barro à mercê dos caprichos imperiais
11
O declínio da família no Brasil
21 Jan 2026 Por GIOVANNI ALVES: A explosão de lares unipessoais e a adultescência prolongada são duas faces da mesma moeda: a desintegração da família como infraestrutura antropológica, substituída por uma solidão funcional ao capital financeirizado
12
Qual Estado precisamos?
23 Jan 2026 Por ALEXANDRE GOMIDE, JOSÉ CELSO CARDOSO JR. & DANIEL NEGREIROS CONCEIÇÃO: Mais que uma reforma administrativa, é preciso um novo marco de Estado: que integre profissionalização e planejamento estratégico para enfrentar desigualdades estruturais, superando a falsa dicotomia entre eficiência e equidade
13
Hamnet
24 Jan 2026 Por RICARDO EVANDRO SANTOS MARTINS: Entre a fitoterapia de Agnes e a poética de Shakespeare, o filme revela como o saber silenciado das mulheres e o trabalho de luto desafiam a fronteira da morte
14
Por que Donald Trump quer a Groenlândia?
22 Jan 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: O interesse de Trump pela Groenlândia não é geopolítica, mas um presente pessoal às Big Techs: um ato performático de um líder sem projeto nacional, que troca recursos por lealdade em sua frágil trajetória política
15
No caminho do caos
16 Jan 2026 Por JOSÉ LUÍS FIORI: O direito à guerra das grandes potências, herança westfaliana, acelera a corrida ao abismo e consolida um império do caos sob a hegemonia norte-americana
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES