Gentrificação climática

Imagem: Luisa Bispo
image_pdf

Por JOSÉ MACHADO MOITA NETO*

As mudanças climáticas certamente influenciarão cada vez mais o mercado imobiliário tornando “nobres” as áreas sem risco de inundações

Antes do advento da internet, decisões complexas e difíceis eram minimizadas com humor através de aparentes dilemas ou comparações, por exemplo: (a) “Não sei se caso ou se compro uma bicicleta”; (b) “casar é melhor do que morrer queimado”. O casamento era uma decisão complexa porque trazia uma perspectiva de muito longo prazo (até a morte), envolvia relações sociais entre as famílias dos noivos e determinava horizontes econômicos futuros.

Nas decisões complexas, afloram todos os medos conscientes e inconscientes que devem ser geridos dentro de uma racionalidade multifacetada com alguns obstáculos incontornáveis e valores pessoais, familiares e coletivos em rota de colisão. As melhores decisões tomadas no presente sempre poderão ser criticadas no futuro, numa análise retrospectiva, pelos “engenheiros de obra pronta”. Isso leva, muitas vezes, a aparente coragem de decidir apenas pelo medo.

O processo de gentrificação tem sido conceituado por um dos seus efeitos: formar uma pequena nobreza (de gentry, “pequena nobreza”) através da segregação socioespacial de áreas urbanas. Todo mecanismo social, cultural ou econômico que conduza a criação ou transformação de zonas urbanas em aglomerados mais homogêneos pode ser incluído nesse processo. Cuidado especial deve ser tomado para que o responsável direto ou indireto desse processo de gentrificação não seja o próprio poder público.

Quando o poder público não milita, através de suas políticas públicas municipais, por inclusão e justiça social, o resultado é a concentração de bens e serviços desejados em regiões “nobres” devido ao maior poder de agência dos seus ocupantes junto ao poder municipal. Do mesmo modo, pode acontecer injustiça ou racismo ambiental,[i] por exemplo, na prática de se planejar aterros sanitários ou estações de tratamento de esgoto em áreas habitadas pela população pobre, ou mesmo na omissão dolosa de retirada de lixão dessas áreas.

Numa sociedade democrática, a transparência de um planejamento urbano participativo pode reduzir ou acabar com a responsabilidade do poder público pela gentrificação, sem, contudo, detê-la. O conjunto de todos os medos contribui para a criação de um mercado imobiliário de alto padrão que promete segurança, conforto e distância de qualquer indivíduo que represente ameaça psicológica inconsciente. A propaganda desses empreendimentos, cercada de eufemismos, anuncia que sua moradia será uma verdadeira “ilha da fantasia” no caos de uma cidade.

Quando a rede de apoio para superação desses medos, às vezes legítimos, não está na família, na comunidade e nem na militância política por melhores condições da cidade, têm-se a ilusão de que a condição econômica pode garantir, pela aquisição de bens e serviços, a tranquilidade do bem viver. A gentrificação pode ser também um resultado do mundo líquido, da modernidade líquida, na expressão de Zygmunt Bauman.

As mudanças climáticas certamente influenciarão cada vez mais esse mercado imobiliário de duas maneiras distintas: tornando “nobres” as áreas sem risco de inundações, por exemplo, e tornando o seguro residencial de áreas potencialmente afetadas bem mais elevados. Essa gentrificação, induzida por medo racional ou irracional, das mudanças climáticas, tornará as zonas perigosas mais baratas para moradia, atraindo pessoas com vulnerabilidade econômica que estão dispostas a viver o risco de não ter o seguro residencial em caso de sinistro.

A segregação socioespacial, por motivos ambientais, já existe em muitas cidades brasileiras. A gentrificação climática é um tipo específico de segregação socioespacial que pode romper os limites do município e até das nações. Caso as mudanças climáticas tragam medo às classes mais ricas, aparecerá a oportunidade de mercado imobiliário para a criação de resort, de permanência e não apenas turismo, em países mais seguros em relação a esse problema ambiental, como o Brasil.

Afinal, o capital financeiro não irá se molhar com a elevação dos oceanos. No passado, por razões econômicas ou religiosas, países como a Inglaterra e a Holanda, já fincaram bandeiras em outras partes do mundo. A próxima colonização pode ser por razões climáticas. Os pobres e imigrantes não virão para o Brasil. Ficarão para ver o barco (ilha) afundar, segundo as previsões do IPCC.[ii]

*José Machado Moita Neto é professor aposentado da Universidade Federal do Piauí (UFPI) e pesquisador da UFDPar.

Notas


[i] Um exemplo de trabalho acadêmico: https://www.scielo.br/j/cm/a/YTCqXDfLkBQWZzjGY7Q7DNd/

[ii] Intergovernmental Panel on Climate Change

A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Para além de Marx, Foucault, Frankfurt
25 Jan 2026 Por JOSÉ CRISÓSTOMO DE SOUZA: Apresentação do autor ao livro recém-publicado
2
Avaliação e produtivismo na universidade
23 Jan 2026 Por DANICHI HAUSEN MIZOGUCHI: A celebração das notas da CAPES diante do estrangulamento orçamentário revela a contradição obscena de uma universidade que internalizou o produtivismo neoliberal como nova liturgia acadêmica
3
O Conselho da Paz de Donald Trump
24 Jan 2026 Por TARSO GENRO: Da aridez de Juan Rulfo ao cinismo da extrema direita mundial, Tarso Genro denuncia a transição da cena pública para uma era de tirania privada, em que a gestão do caos e a aniquilação de povos desafiam a humanidade a resgatar o frescor de suas utopias perdidas
4
Hamnet – a vida antes de Hamlet
19 Jan 2026 Por JOÃO LANARI BO: Comentário sobre o filme dirigido por Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
5
Notas sobre a desigualdade social
22 Jan 2026 Por DANIEL SOARES RUMBELSPERGER RODRIGUES & FERNANDA PERNASETTI DE FARIAS FIGUEIREDO: A questão central não é a alta carga tributária, mas sua distribuição perversa: um Estado que aufere seus recursos majoritariamente do consumo é um Estado que institucionaliza a desigualdade que diz combater
6
A ilusão da distopia
27 Jan 2026 Por RICARDO L. C. AMORIM: O novo capitalismo não retorna ao passado bárbaro; ele o supera com uma exploração mais sofisticada, onde a submissão é voluntária e a riqueza se concentra sem necessidade de grilhões visíveis
7
Júlio Lancellotti
28 Jan 2026 Por MARCELO SANCHES: A relevância de Padre Júlio está em recolocar a fé no chão concreto da vida, denunciando o cristianismo que serve ao poder e legitima a desigualdade
8
Enamed e cretinismo parlamentar estratégico
27 Jan 2026 Por PAULO CAPEL NARVAI: É mais prático e eficaz fechar cursos e colocar um fim na farra da venda de diplomas disfarçada de formação. Mas não é nada fácil fazer isso, pois quem consegue enfrentar congressistas venais?
9
O teto de vidro da decolonialidade
29 Jan 2026 Por RAFAEL SOUSA SIQUEIRA: A crítica decolonial, ao essencializar raça e território, acaba por negar as bases materiais do colonialismo, tornando-se uma importação acadêmica que silencia tradições locais de luta
10
Poder de dissuasão
23 Jan 2026 Por JOSÉ MAURÍCIO BUSTANI & PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.: Num mundo de hegemonias em declínio, a dissuasão não é belicismo, mas a condição básica de soberania: sem ela, o Brasil será sempre um gigante de pés de barro à mercê dos caprichos imperiais
11
O declínio da família no Brasil
21 Jan 2026 Por GIOVANNI ALVES: A explosão de lares unipessoais e a adultescência prolongada são duas faces da mesma moeda: a desintegração da família como infraestrutura antropológica, substituída por uma solidão funcional ao capital financeirizado
12
Qual Estado precisamos?
23 Jan 2026 Por ALEXANDRE GOMIDE, JOSÉ CELSO CARDOSO JR. & DANIEL NEGREIROS CONCEIÇÃO: Mais que uma reforma administrativa, é preciso um novo marco de Estado: que integre profissionalização e planejamento estratégico para enfrentar desigualdades estruturais, superando a falsa dicotomia entre eficiência e equidade
13
Hamnet
24 Jan 2026 Por RICARDO EVANDRO SANTOS MARTINS: Entre a fitoterapia de Agnes e a poética de Shakespeare, o filme revela como o saber silenciado das mulheres e o trabalho de luto desafiam a fronteira da morte
14
Por que Donald Trump quer a Groenlândia?
22 Jan 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: O interesse de Trump pela Groenlândia não é geopolítica, mas um presente pessoal às Big Techs: um ato performático de um líder sem projeto nacional, que troca recursos por lealdade em sua frágil trajetória política
15
No caminho do caos
16 Jan 2026 Por JOSÉ LUÍS FIORI: O direito à guerra das grandes potências, herança westfaliana, acelera a corrida ao abismo e consolida um império do caos sob a hegemonia norte-americana
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES