Hija de Perra

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Por VIEGAS FERNANDES DA COSTA*

O olhar de Hija de Perra escrutinou a colonialidade do saber sobre os novos debates de gênero, centrados no Norte Global

1.

Paul B. Preciado, no texto de introdução da coletânea de crônicas Um apartamento em Urano, escreve que os processos de reprodução da vida estão no centro da revolução industrial contemporânea: “O corpo e a sexualidade ocupam, na atual mutação industrial, o lugar que a fábrica ocupou no século XIX”; entretanto, afirma o autor, “existe uma revolução dos subalternos e dos apátridas em marcha” (Preciado, 2020, p. 39). A esta marcha revolucionária opõe-se outra, contrarrevolucionária, que luta pelo controle dos processos de reprodução da vida. Os subalternos e apátridas são as formas de vida infra-humana no contexto de uma lógica biopolítica.

Não é difícil constatarmos a assertividade da reflexão de Paul Preciado. Um exemplo contemporâneo é a polêmica instaurada em torno da participação da boxeadora argelina Imane Khelif na Olimpíada de Paris. Imane foi acusada – sim, este é o verbo, o que é emblemático, já que a acusação é um dispositivo jurídico aplicado a quem se supõe cometer crimes – de “se passar por mulher”, de ser uma mulher transgênero, embora o Comitê Olímpico da Argélia ter reiterado que a atleta é uma mulher cisgênero. E ao dizerem que Imane Khelif é uma mulher trans, seus detratores estão gritando, “é homem!”.

Há muitos outros casos no campo do esporte olímpico, mas o de Imane Khelif foi o que atraiu maior visibilidade, seja porque se trata de uma atleta que compete na modalidade feminina sob a suspeita (infundada) de possuir uma genética masculina, seja porque a extrema-direita italiana se apropriou do caso como uma bandeira política. A participação do atleta filipino Hergie Bacyadan, que se identifica como um homem trans, por exemplo, não suscitou maiores polêmicas. Difícil não considerarmos que os estereótipos de homem e mulher no esporte não estejam presentes, também, na maneira como os casos foram apropriados pelo debate político.

De qualquer modo, sabemos, Imane Khelif ou Hergie Bacyadan, trata-se da marcha revolucionária das subalternas e apátridas sendo confrontada por essa outra marcha contrarrevolucionária, seja nos esportes, na educação, ou nas minúcias de quem está autorizado a usar qual tipo de banheiro no Congresso dos Estados Unidos. Na “maior democracia do mundo” a deputada Sarah McBride, primeira mulher trans eleita para o Congresso daquele país, está proibida de usar o banheiro feminino porque a deputada mulher cisgênero Nancy Mace aprovou uma medida que define o uso dos banheiros conforme o “sexo biológico” dos indivíduos.

Embora Sarah McBride tenha afirmado que não lutará por banheiros, julgando que há causas mais urgentes sobre as quais precisa investir seus esforços, sabemos, não é de banheiros, mas de violência contra os corpos “monstruosos” de que se trata o movimento de Nancy Mace.

2.

Inicio com essas questões porque elas me parecem ilustrar algumas das problemáticas que a artista “queer” chilena Hija de Perro (1980-2014) discutiu e afrontou, bem como a questão de fundo, a de que a heteronormatividade, ou ciscolonialidade (para usar aqui um conceito discutido por Viviane Vergueiro) é, fundamentalmente, uma questão de colonialismo e de colonialidade produzida a partir de certo “Norte Global”.

E aqui me ocorre a conversa entre Paul B. Preciado e Caetano Veloso na Festa Literária de Paraty de 2020, na qual Paul Preciado, ao refletir sobre a ideia do monopólio da violência pelo Estado, disse que o que escapou às reflexões de Max Weber, de Michel Foucault e de Jacques Derrida, é que o monopólio “legítimo” da violência pertence a um grupo específico de corpos, a saber, o masculino, em especial, ao do homem branco. E é essa lógica binária, colonial, patriarcal, heteronormativa, que Hija de Perra afrontou com seu trabalho artístico, suas conferências, mas principalmente na existência do seu corpo. Afrontou como corpo monstruoso no qual se assumiu.

Em depoimento para o documentário Perdida Hija de Perra (2008), Hija de Perra afirmou “as pessoas me humilharam toda a vida. Isso é normal? Claro que sim. Quantas pessoas são humilhadas a vida toda”. Hija de Perra se assumiu como corpo ferido, como corpo marcado pela dor, para fabular sua existência. Como defende Christine Greiner (2023), no caso dos corpos feridos, dos corpos marcados pela dor, a fabulação como encontro com aquilo que é a gênese do sofrimento é o que faz do corpo crip (estranho, monstruoso) potencialmente criador, tensionando corpos-mundos que não deveriam existir para um “querer viver e não deixar morrer”.

Em sua participação na 1ª Bienal de Arte e Sexo realizada no Chile em 2012, Hija de Perra denunciou a violência do ato inaugural da colonialidade europeia na América, que negou os corpos dos povos originários, considerados bizarros, afeminados e lascivos para as lentes judaico-cristãs do patriarcado eurocentrado que aportou em nossas praias.

Oswald de Andrade, quando escreveu seu conhecidíssimo poema “Erro de Português” no qual diz “Quando o português chegou/ Debaixo de uma bruta chuva/ Vestiu o índio/ Que pena!/ Fosse uma manhã de sol/ O índio tinha despido/ O português”, não se referia apenas às roupas, e o texto denúncia, o texto político de Hija de Perra na Bienal de 2012, desnuda a violência que cobriu corpos, cobriu especificidades e tratou de eliminar todos e todas aquelas que não se encaixavam (e se encaixam) no paradigma do colonizador, nas possibilidades de inteligibilidade do colonizador.

É, também essa a denúncia de Viviane Vergueiro, quando escreve que “Todos os corpos e gêneros têm uma história, e a binariedade como uma normatividade sociocultural eurocêntrica define e restringe os destinos de muitos deles pelo mundo” (Vergueiro, 2016, p. 259).

O olhar de Hija de Perra escrutinou a colonialidade do saber sobre os novos debates de gênero, centrados no Norte Global. Era iconoclasta a maneira como ela se referia a nomes como Michel Foucault (São Foucault) e Judith Butler (Santa Butler), por exemplo. Todo discurso de Hija de Perra estava situado. Ela falava de um lugar, que é geográfico, o Cone Sul, mas que era também seu corpo humilhado, cuspido, violentado, que se reconheceu queer sem que com isso assumisse uma identidade queer.

Uma “teoria bicha”, problematizava ela, seria mais honesta que uma “teoria queer”, mas não teria o glamour necessário para sobreviver no shopping da Academia, e é esse um dos pontos centrais, parece-me, da crítica de Hija de Perra, que uma construção intelectual surgida para pensar os corpos transgressores pudesse ser comprada como mercadoria pelo sistema capitalista.

Hija de Perra assumiu sua utopia, a de uma luta queer que desafiasse as instituições e as formas de entender o mundo, e a de uma teoria queer que continuasse buscando compreender diferentes modos de desejo sexual e de como as culturas os definem. Passados dez anos desde a sua morte, o presente nos mostra quão vivas estão as palavras e toda performance monstruosa de Hija de Perra, que negava a invenção binária imposta pelo colonialismo aos nossos corpos. Que era, ela mesma, com todo seu corpo, linha de frente na revolução dos subalternos e apátridas.

*Viegas Fernandes da Costa, é professor de história no Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC). Autor, entre outros livros, de Houve dias de humanidade em mim (Urutau).

Referências


Greiner, Christine. Corpos crip: instaurar estranhezas para existir. São Paulo: n-1 edições, 2023.

Hija de Perra. Interpretações imundas de como a Teoria Queer coloniza nosso contexto Sudaca, pobre de aspirações e terceiro-mundista, perturbando com novas construções de gênero aos humanos encantados com a heteronorma. Revista Periodicus. 2ª edição, nov. 2014 a abr. 2015, pp. 1-8.

 Preciado, Paul B. Um apartamento em Urano: crônicas da travessia. Tradução de Eliana Aguiar. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.

Preciado, Paul B. e Veloso, Caetano. Transições: mesa 8, Festa Literária Internacional de Paraty, 05. dez. 2020, 01’33 min. Disponível aqui.

Perdida Hija de Perra. Dir. de Vicente Barros, Sebastian Gonzalez e Melisa Miranda. Chile, 2008, 22 min. Disponível aqui.

Vergueiro, Viviane. Pensando a cisgeneridade como crítica decolonial. In: Messeder, S., Castro, M. G., e Moutinho,b L. (orgs). Enlaçando sexualidades: uma tessitura interdisciplinar no reino das sexualidades e das relações de gênero. Salvador: EDUFBA, 2016, pp. 249-270.


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