Holocausto – memória e redenção

Imagem: Slava Mkrvsky
image_pdf

Por LUIZ ROBERTO ALVES*

Ser contra o genocídio de um povo ou o projeto de perpetrar o holocausto étnico-cultural deve beirar o absoluto no interior dos mais sutis tecidos do corpo

Ainda que não seja possível ao sapiens construir e manter pensamentos e ações de caráter absoluto, pois seu inacabamento e seu processo educativo se movem no provisório e no possível, o genocídio de um povo ou o projeto de perpetrar o holocausto étnico-cultural deve beirar o absoluto no interior dos mais sutis tecidos do corpo. Nesse lugar-limite, o fenômeno pensado e sentido faria crescer e aguçar profundamente a consciência do ser a ponto de passar a conhecer todos os males da escala humana, até os erradamente entendidos como simples, muitas vezes esquecidos e invisibilizados já no cotidiano.

O holocausto judaico nas décadas de 1930 e 1940 infunde uma consciência que excede os inacabamentos e a parca educação. Diante dele, quer como testemunha, quer como leitor e ouvinte, o humano não mais poderia valer-se de palpites, estereotipias, conceitos levianos e comparações vulgares, crescentes na contemporaneidade. Tratou-se, naquele período, de uma trama racista contra a distinção e a diversidade do humano que, no entanto, encontrou uma encarnação discursiva e programática contra o povo judeu. Todas as narrativas sobre a trama, linguísticas ou visuais, estarão aquém do horror vivido, porque não podem ser o horror.

Provavelmente esse encontro histórico e antropológico no recôndito quase-absoluto do sapiens, proposto no primeiro parágrafo, lugar onde também vigem a tragédia e o amor, exigiria algo que excedesse a presente mais-valia da linguagem: o silêncio. Nele seriam repassados ao modo de filmes da memória histórica as tantas outras tentativas de genocídio, na qual ninguém foi respeitado, inclusive os decantados velhos e as sublimes crianças. Seriam vistos os cotidianos da violência difusa, da escravidão, das sevícias, dos castigos, do prazer horroroso da morte de outrem. E seriam sentidas as insinuações, as negações, as mentiras justificadoras e a rapina física e simbólica. Enfim, seria concretizado na mente esclarecida que aquele fenômeno foi real, vivido e horrorizado a cada passo e cada dia.

A memória vivida num átimo de silêncio poderia redimir o sapiens das comparações, exatamente porque elas negam partes ou mesmo o todo daquele programa de morte contra as diferenciações humanas canalizadas contra um povo na essência e outros grupos sociais em decorrência. O holocausto não é comparável, pois a queda do seu símbolo fará restar poucos argumentos contra uma imensidão de males cometidos todo dia. Só um pensamento que chega ao limite e se espanta com o horror pode dar conta do bem maior, do bem-comum que se realiza como direito de todas as pessoas a partir da própria vida.

Ainda que não comparável, o sentimento-pensamento haurido no holocausto transcende e pode ajudar a salvar a biosfera em tempo de destruição. Ajudaria a compreender uma relação profunda entre um sapiens e uma seringueira ou castanheira amazônica surpreendidos num amplexo de corpos. Muito provavelmente, a considerar entrevistas e conversas com pessoas da Amazônia, o desejo que daí nasce projeta o esperançamento da árvore eterna, da árvore para sempre, frutífera e em pé. Ora, na medida em que incontáveis histórias folclóricas já nos mostraram que a árvore é o móvel conectivo entre o céu e a terra, cresce o valor do gesto ecológico-ambiental. Ainda há no Brasil muitas espécies de árvores para garantirem essa transcendência…em pé. E nós em pé com elas.

Um povo diverso, pleno de distinções de toda ordem, multifacetado e multiétnico, como o brasileiro, teria de estar na linha de frente contra comparações, palpites e estereotipias derivadas da incompreensão do holocausto perpetrado pelos nazistas. Mas ultimamente caminha noutra linha de frente, a bipolar, repleta de balcões de apostas no mal e a copiar e transcrever receitas de vilipêndios, negações de direitos e valores, enfim aferrados preconceitos, com o apoio devido da educação medíocre; melhor, da não-educação. Citá-los aqui faria destramelar os discursos, pois aquele silêncio junto ao quase-absoluto ainda não é dado a muita gente, embora indispensável.

Por isso o Yad vaShem, na linda colina jerosolimitana, é silencioso. É o lugar da memória, da pesquisa e da denúncia do holocausto, das tentativas de holocausto e todas as derivações genocidas.  Até o trabalho burocrático e o debate se fazem comedidos. Se o silêncio pode ser associado à morte, sua assunção criativa converte-se em beleza e redenção, caminho fecundo para o aprendizado entre humanos. Mas o mundo não irá ao Yad vaShem. Nós, que fomos, tampouco temos o direito de nos entendermos mais capazes de curtir aquele silêncio redentor. No entanto, nos cabe denunciar governos e governanças, em todas as instâncias e responsabilidades de poder, incapazes ou desinteressados na melhor educação, que abriria às pessoas, desde cedo, dentro e fora das escolas, o direito de conhecer, ver e sentir o que de fato é um programa de morte sistemática deliberado a chegar ao último dos vivos de um povo. A educação feita de tagarelice e de “conteúdos” impostos não pode mesmo chegar a um bom lugar. Provavelmente chegue ao nada.

Essa educação quebrada, rompida e intermitente, espécie de apagador da memória, não pode prover à juventude discursos científicos, silêncios criadores e atos moventes de ética e estética.

Mas esse não tem de ser o nosso destino. A biosfera arde, mas vivemos e agimos. A educatividade capaz de fazer entender o holocausto será valor a garantir os novos lances da condição humana. Somos possibilidade.

*Luiz Roberto Alves é professor sênior da Escola de Comunicações e Artes da USP.

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Rússia e China na guerra no Irã
18 Mar 2026 Por VALERIO ARCARY: No xadrez geopolítico da guerra contra o Irã, Rússia e China movem suas peças com cautela: Moscou não pode, Pequim não quer — e o regime persa descobre, na solidão estratégica, que alianças têm limites quando os interesses das potências apontam em outra direção
2
Em defesa das bibliotecárias e bibliotecários
12 Mar 2026 Por FELIPE SANCHES: As bibliotecas estão atravessadas pela política e, se negarmos seu papel político, fechamos os olhos ao seu papel estratégico no desenvolvimento cultural, educacional, científico e econômico do Brasil
3
No radar geopolítico – EUA x Irã
14 Mar 2026 Por RUBEN BAUER NAVEIRA: O que o Irã pretende é forçar os americanos a pedirem por negociações que não serão por algum "cessar-fogo", mas que envolverão concessões dolorosas, como o fim de todas as sanções e o desmantelamento das bases militares americanas no Oriente Médio
4
Os impactos da guerra no Irã
16 Mar 2026 Por LUIS FELIPE MIGUEL: Ao atacar o Irã sem estratégia, Trump revela o vazio de sua política externa e a submissão a Israel; no Brasil, o impacto imediato é a alta dos combustíveis, que exige do governo Lula coragem para romper de vez com a paridade internacional e proteger a economia popular do choque inflacionário
5
A “filosofia” do cérebro podre
15 Mar 2026 Por EVERTON FARGONI: Uma crítica radical à colonização algorítmica da consciência, onde a promessa de prazer imediato culmina na falência do pensamento, da autonomia e da vida democrática
6
Além de Jürgen Habermas e Richard Rorty
19 Mar 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: Ou nos parecemos com o que a Inteligência artificial e a internet nos fornece, ou não acreditamos na nossa própria realidade! Estamos no mundo, ontologicamente, se estamos na infosfera
7
Hamnet – a vida antes de Hamlet
11 Feb 2026 Por GUILHERME E. MEYER: Comentário sobre o filme de Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
8
Pecadores
16 Mar 2026 Por BRUNO FABRICIO ALCEBINO DA SILVA: Comentário sobre o filme dirigido por Ryan Coogler , premiado com quatro estatuetas no Oscar 2026
9
Jürgen Habermas (1929-2026)
16 Mar 2026 Por MARCO BETTINE: Filósofo da esfera pública e do agir comunicativo, Habermas recusou o pessimismo da primeira geração frankfurtiana para mostrar que a modernidade ainda pode fundamentar racionalmente a crítica social
10
Fernando Haddad entrevistado por Breno Altman
19 Mar 2026 Por RODRIGO PORTELLA GUIMARÃES: Há uma relação de trabalho muito diversa do operariado dos séculos XIX e XX, que implica um novo projeto de esquerda. Precisamos compreender na prática as novas frações de classe e desafios, provocação central ofertada por Fernando Haddad
11
Um país (des)governado
13 Mar 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: A guerra no Irã não é imperialismo, é o espasmo de um país sem projeto, governado por um homem que trocou promessas por bombas
12
A pornô-política
14 Jun 2020 Por RICARDO T. TRINCA: O político obsceno tem prazer pelo domínio, sob a forma de uma prestidigitação, algo que pode ser encontrado também nos mágicos
13
Sonhos de trem
14 Mar 2026 Por VANDERLEI TENÓRIO: Comentário sobre o filme dirigido por Clint Bentley.
14
Por que a música?
15 Mar 2026 Por FRANCIS WOLFF: Trecho da primeira parte do livro recém-editado
15
A arte ante o neoliberalismo - parte 1
17 Mar 2026 Por LUIZ RENATO MARTINS: De que modo a tônica pró-capitalista envolve e afeta as artes e o público hoje em processo de formação, e, principalmente, as novas gerações universitárias, que, em breve, assumirão posições proativas no quadro da cultura brasileira?
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES