Javier Milei é uma ameaça fascista

Imagem: Regina Pivetta
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Por VALÉRIO ARCARY*

Se Javier Milei vier a vencer o seu governo será incompatível com as liberdades democráticas conquistadas, dramaticamente, depois da queda da última ditadura militar

“Saber não ter ilusões é absolutamente necessário para se poder ter sonhos” (Fernando Pessoa).

“Nada é mais fácil do que se iludir, pois todo o homem acredita que aquilo que deseja seja também verdadeiro” (Demóstenes).

“Construímos estátuas de neve e choramos ao ver que derretem” (Walter Scott).

Um vulcão político entrou em irrupção na Argentina. A mídia apresenta o discurso de Javier Milei, com alegre indulgência irresponsável, como anarco-capitalista, mas se trata de uma candidatura de tipo neofascista. Se Javier Milei vier a vencer o seu governo será incompatível com as liberdades democráticas conquistadas, dramaticamente, depois da queda da última ditadura militar. Não é possível uma política de choque antipopular tão brutal sem quebrar a espinha dorsal do movimento sindical e popular mais forte do continente. Não pode ser imposto sem violência e, portanto, sem uma mudança de regime.

O recente resultado das PASO parece ter sido, totalmente, inesperado. No Brasil, foi uma abrupta surpresa. Há quem reduza o significado a um voto “bronca”. Deve haver um “grão” de verdade nesta ideia do protesto, mas parece ser muito mais sério. Ninguém previa que um movimento tão profundo das “placas tectônicas” sociais era iminente, e poderia subverter, qualitativamente, as relações políticas de força. Infelizmente, prevaleceu, mais uma vez, uma ingênua subestimação da extrema direita, como já tinha acontecido com Jair Bolsonaro em 2018. O que deveria, honestamente, nos perturbar, e levar a perguntar: por quê?

No que nos diz respeito já sabemos, foi complicado e polêmico. Foi muito difícil admitir que, depois de treze anos de governos liderados pelo PT, mas permanente concertação com frações da classe dominante, o país estava fraturado pelo giro da “massa da burguesia” para a oposição e o golpismo, o deslocamento da maioria das camadas médias, exauridas pelo rancor social, para o antipetismo, e a divisão da classe trabalhadora diante da ofensiva da operação Lava Jato criminalizando a esquerda como corrupta. As ilusões cegam, quando a realidade é cruel demais.

No que remete ao fenômeno Javier Milei e seu partido La Libertad avanza, o melhor critério internacionalista é aguardar as respostas que virão da esquerda argentina. Afinal, nunca se viu uma bestialidade antissocial tão frontal. Um programa ultraliberal feroz, thatcherismo com “44 graus de febre”, que defende a privatização da educação e saúde pública, a suspensão de todos dos programas de assistência social, um ataque devastador contra os direitos trabalhistas e as aposentadorias, a defesa de privatizações ilimitadas, livre acesso ao armamento generalizado e apoio irrestrito à violência policial, revogação do direito ao aborto, eliminação dos ministérios da educação, saúde pública, cultura, ambiente, ciência e tecnologia, dolarização e fim do Banco Central. Um horror.

O bufão Javier Milei com sua cabeleira, calculadamente, desgrenhada, seu histrionismo pop ensaiado, uma retórica exaltada contra tudo e contra todos, muita demagogia extremista e propostas malucas atraiu o voto de milhões. Muito além das aparências, dos disfarces, das dissimulações, a votação revelou uma fratura social profunda que deve ser analisada e explicada.

Ainda que o primeiro turno seja somente no final outubro, e uma luta eleitoral esteja por ser feita, não se pode deixar de levar a sério o perigo “real e imediato” de que um fascista estará no segundo turno. E seria uma leviandade imperdoável descartar a possibilidade de que Javier Milei poderá vencer as eleições. Não se pode lutar contra todos os inimigos, ao mesmo tempo, com a mesma intensidade. O terreno da tática é aquele em que é necessário fazer uma escolha. Nada é mais importante do que lutar para impedir o fascista de vencer.

Esta nova realidade acende um alerta vermelho para a esquerda argentina e sul-americana, por duas razões. Em primeiro lugar, porque a possibilidade da vitória de Javier Milei sinaliza a precipitação de uma ofensiva contrarrevolucionária apocalíptica contra os trabalhadores e o povo cujo desfecho é imprevisível e, talvez, o perigo de uma derrota histórica.

Em segundo lugar, porque evidencia que a ameaça fascista continua presente, mesmo depois de vitórias eleitorais como as de Gabriel Boric no Chile, Gustavo Petro na Colômbia e Lula no Brasil. Se o governo de Frente Ampla liderado pelo PT fracassar, o perigo de que o movimento político-social de extrema-direita, ainda que sem Jair Bolsonaro candidato, possa disputar o poder em 2026 é real.

Na Argentina, a derrota do governo de Mauricio Macri não enterrou a direita. Ao contrário, o desgaste do governo peronista chefiado por Alberto Fernández, diante do apodrecimento da crise social, não favoreceu a esquerda anticapitalista. Potencializou a conquista vertiginosa de audiência de massas pela extrema-direita. Por quê? Seguramente, há fatores nacionais “argentinos” que explicam por que o “pêndulo” da relação política de forças girou para o neofascismo, e não para a esquerda. Nada mais justo do que fazer os balanços, identificar as responsabilidades, e retirar as lições, sem dissolver em discussões circulares – “eles venceram porque nós perdemos” – a avaliação do que aconteceu.

Mas, a realidade é que o avanço do neofascismo é um dos traços fundamentais da situação internacional, há dez anos. Algo mudou, e profundamente. Tudo sugere que a etapa aberta com a restauração capitalista, entre 1989/91, que podemos denominar de globalização, se encerrou. O mundo ficou mais perigoso.

As últimas crises confirmam que os limites históricos do capitalismo estão mais estreitos. O prazo de “validade” histórica do capitalismo diminuiu. Os perigos de estagnação econômica de longa duração, empobrecimento, deslocamento de refugiados e crise social catastrófica, aquecimento global, disputa pela supremacia política mundial, e ascensão do fascismo se acumulam.

Mas não são equivalentes, e não têm a mesma urgência. Na luta de classes o ritmo dos processos é central, porque é assim que se desenvolve a experiência prática de milhões, e se faz a disputa de consciências. A luta contra a emergência de que um partido fascista possa chegar ao poder é uma prioridade incontornável. Trump, Marine Le Pen, o crescimento do AfD na Alemanha, tampouco, podem ser subestimados.

Algumas “certezas” dos marxistas do século XIX, finalmente, desabaram pelo caminho: hoje sabemos mais, e sabemos que é mais difícil. Um dos problemas centrais são as formas degeneradas da moderna contrarrevolução. Para Marx e os seus contemporâneos, a barbárie era uma das possibilidades de evolução do capitalismo, se não triunfasse a revolução socialista: mas um processo degradado como veio a ser o nazi-fascismo, a contrarrevolução imperialista com métodos de genocídio, era impensável.

São inesquecíveis, para os que as leram, sejam ou não socialistas, as páginas em que explica n’O 18 do Brumário de Luiz Bonaparte, com horror, as monstruosidades do regime da contrarrevolução bonapartista na França, depois da derrota de 1848. Mas o bonapartismo do século XIX não pode ser, nem remotamente, comparado ao horror da contrarrevolução no século XX. O mesmo, possivelmente, se possa dizer até para Lênin que, contudo, vinha de um país onde os pogroms eram frequentes. Se não se surpreendeu com a decretação da Primeira Guerra Mundial pelos imperialismos modernos, e os seus dez milhões de mortos, tampouco conheceu os grotescos desfiles e marchas nazifascistas, ou o horror dos campos de extermínio do holocausto como método e política de Estado.

A derrota do nazi-fascismo esteve entre as vitórias mais extraordinárias da luta dos trabalhadores e dos povos no século XX. A Segunda Guerra Mundial foi a mais importante e extraordinária guerra revolucionária da história. O seu desenlace definiu a segunda metade do século. De um ponto de vista marxista, não pode ser resumida a uma disputa inter-imperialista pela hegemonia no mundo ou pelo controle do mercado mundial. Um enfoque essencialmente economicista para explicá-la, simplifica as diferenças entre os bloques em luta e ignora o lugar do nazi-fascismo.

Não só em função da invasão alemã da URSS em 1941, e a ameaça de restauração capitalista e colonização que ela preparava, o que já por si a diferenciaria, qualitativamente, da Primeira Guerra Mundial, em função do genocídio da limpeza étnica judia. Pela primeira vez na história, verificou-se um combate implacável entre potências imperialistas em torno a dois regimes políticos. De um lado, o regime mais avançado conquistado pela civilização, à exceção do regime de Outubro nos seus inícios, a democracia republicana burguesa, e de outro lado, o mais degenerado, o fascismo.

O mais aberrante e regressivo, porque seu projeto político ia muito além do esmagamento da revolução operária na Alemanha: o novo Reich exigia a escravização de povos inteiros, como os eslavos, e o genocídio de outros, como os judeus e os ciganos, além da repugnante homofobia transformada em política de repressão do Estado.

Javier Milei tem que ser derrotado.

*Valério Arcary é professorde história aposentado do IFSP. Autor, entre outros livros, de Ninguém disse que seria fácil (Boitempo) (https://amzn.to/3OWSRAc).


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