Língua franca do boçalnarismo

Imagem_Stela Maris Grespan
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por RENATO ORTIZ*

Observações sobre autoritarismo e linguagem

Victor Klemperer, em seu diário agônico sobre a vida cotidiana na Alemanha nazista, descreve com inteligência e argúcia a emergência de um tipo de linguagem que ele denomina de LTR (Linguagem do Terceiro Reich). Ela invade os jornais, os comunicados oficiais, as revistas, penetra os diálogos das pessoas nas casas e na rua. O autoritarismo transcende o seu núcleo de origem (o Estado e o partido) impregnando a sociedade em seus lugares recônditos.

Creio que é possível dizer que o novo totalitarismo tupiniquim faz algo análogo. Nos discursos do presidente da República e seus seguidores, uma forma de linguagem emerge — agressiva, repetitiva, ecoando, sobretudo nas redes sociais, o seu barulho ensurdecedor. Vou denominá-la de LFB (Língua Franca do Boçalnarismo).

Não me refiro apenas ao linguajar chulo empregado pelos políticos e seus acólitos, no qual a grosseria tornou-se recurso retórico recorrente. Chulo é adjetivo, interessa-me o substantivo, isto é, uma forma de se expressar que, aos poucos, se constitui em maneira de apreensão do mundo, enfim, uma linguagem.

O que a delimita, qual a sua identidade? Uma linguagem não se refere apenas a algo fortuito, à simples expressão de alguma coisa. Ela revela uma “estrutura” de pensamento. O objetivo da LFB é tornar banal sua própria aberração. Todo sistema autoritário almeja a disciplinarização da linguagem; ela exprime, no domínio público, as virtudes de sua atrocidade.

Uma de suas características é o insulto, geralmente acompanhado de palavrões, provocações e ofensas. “O que esses caras fizeram com o vírus, esse bosta desse governador de São Paulo, esse estrume do Rio de Janeiro” (fala do presidente da República); “Por mim botava esses vagabundos todos na cadeia. Começando no STF”; “Uma pena, prefiro cuidar dos estábulos, ficaria mais perto da égua sarnenta e desdentada de sua mãe” (ministro da Educação respondendo a uma crítica no Twitter); “Mídia golpista, comprada, cambada de safados… seus lixos” (manifestante em frente ao Palácio do Planalto).

A agressividade discursiva investe no apagamento do outro, na correção do comportamento de quem é percebido como um perigo

Bosta, estrume, vagabundos, égua desdentada, cambada de safados. Os termos são claros indicam desacato e afronta. O insulto é uma forma de diminuição do outro, maneira de rebaixá-lo à uma posição passível de humilhação e desprezo. O outro deixa de existir na sua integridade sendo apreendido na sua “irrelevância”, alguém que na sua palidez e letargia ousa se colocar no caminho de quem o aflige. Este é objetivo da injúria conspurcar a dignidade daquele ao qual ela se dirige.

Outra dimensão é a bravata, isto é, o alarde de uma postura que se imagina capaz de suplantar os entraves que a tolhem. “Quem quiser vir aqui fazer sexo com uma mulher fique à vontade”; “Competência? É problema do deputado. Se quiser botar uma prostituta no meu gabinete, eu boto. Se quiser botar minha mãe, eu boto. É problema meu!”; “Essa é uma realidade, o vírus taí! Vamos ter que enfrentá-lo, mas enfrentar como homem, porra, não como um moleque… É a vida. Todos vamos morrer um dia” (presidente da República). A bravata tem algo de narcisista, de presunçosa, deriva para o exibicionismo superlativo; ela é cabotina, exprime a intenção de insolência em relação ao que se encontra estabelecido. As regras e os princípios morais se dobrariam assim a seu propósito coercitivo. Mas ela é um artifício efêmero cuja força se esgota na imediatez da imagem exibida, sua duração é curta, resume-se ao átimo do que está sendo mostrado.

A LFB caracteriza-se ainda por sua aspereza, as frases curtas reforçam o intuito agressivo e autoritário. “Jamais estupraria você porque você não merece”; “O erro da ditadura foi torturar e não matar”; “Se fuzilassem 30 mil corruptos, a começar pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, o país estaria melhor” (presidente da República). As sentenças brilham como neon publicitário, são condensadas, reduzem o pensamento à sua essência: a agressão. A brutalidade dos fatos torna-se explícita, matar, torturar, estuprar. Entretanto, a barbárie expressa no enunciado não tem como objetivo chocar, ela dá um passo adiante, justifica a eliminação do outro.

É necessário reduzir o adversário a um nada, sua insignificância deve ser anulada, desfeita, a agressividade verbal desdobrando-se em agressividade física. Enquanto o insulto é distância, deslegitimação do outro, e a bravata, a afirmação exibicionista de algo que não se pode alcançar, a agressividade discursiva investe no seu apagamento, na correção do comportamento de quem é percebido como um perigo.

Por fim, a denegação da realidade, a Língua Franca do Boçalnarismo é rica em exemplos dessa natureza: “Não existe homofobia no Brasil. A maioria dos que morrem, 90% dos homossexuais que morrem, morre em lugares de consumo de drogas, em local de prostituição, ou executado pelo próprio parceiro” (presidente da República); “Em torno de 40 povos [indígenas] no Brasil ainda matam suas crianças quando filhos de mãe solteira, quando nascem gêmeos, quando nascem com qualquer deficiência física e mental” (ministra dos Direitos Humanos); “Não acredito em aquecimento global. Vejam que fui a Roma em maio e estava tendo uma onda de frio enorme. Isso mostra como as teorias do aquecimento global estão erradas” (ministro das Relações Exteriores); “Eles precisavam destruir as famílias americanas porque elas eram a sustentação do capitalismo” (presidente da Fundação Nacional de Artes em relação aos Beatles).

Em todos esses exemplos, a realidade se desfaz diante da presença de um discurso contundente, aguerrido e falso. Tudo se passa como se qualquer estupidez pudesse ser dita à revelia dos fatos, sua veracidade é plausível desde que pronunciada com raiva, convicção e alarido. A realidade dobra-se assim ao escarcéu do embuste.

*Renato Ortiz é professor titular do Departamento de Sociologia da Unicamp. Autor, entre outros livros, de Cultura brasileira e identidade nacional (Brasiliense).

 

Veja todos artigos de

10 MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

O marxismo neoliberal da USP
Por LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA: Fábio Mascaro Querido acaba de dar uma notável contribuição à história intelectual do Brasil ao publicar “Lugar periférico, ideias modernas”, no qual estuda o que ele denomina “marxismo acadêmico da USP
Carinhosamente sua
Por MARIAROSARIA FABRIS: Uma história que Pablo Larraín não contou no filme “Maria”
Ideologias mobilizadoras
Por PERRY ANDERSON: Hoje ainda estamos em uma situação onde uma única ideologia dominante governa a maior parte do mundo. Resistência e dissidência estão longe de mortas, mas continuam a carecer de articulação sistemática e intransigente
Carlos Diegues (1940-2025)
Por VICTOR SANTOS VIGNERON: Considerações sobre a trajetória e vida de Cacá Diegues
A biblioteca de Ignacio de Loyola Brandão
Por CARLOS EDUARDO ARAÚJO: Um território de encantamento, um santuário do verbo, onde o tempo se dobra sobre si mesmo, permitindo que vozes de séculos distintos conversem como velhos amigos
Fim do Qualis?
Por RENATO FRANCISCO DOS SANTOS PAULA: A não exigência de critérios de qualidade na editoria dos periódicos vai remeter pesquisadores, sem dó ou piedade, para um submundo perverso que já existe no meio acadêmico: o mundo da competição, agora subsidiado pela subjetividade mercantil
EUA à Europa: parem de armar a Ucrânia
Por ANDREW KORYBKO: Vladimir Putin pode não concordar com um cessar-fogo ou armistício enquanto os europeus continuarem a armar a Ucrânia
O fenômeno Donald Trump
Por DANIEL AARÃO REIS: Donald Trump 2 e seus propósitos “iliberais” devem ser denunciados com a maior ênfase. Se a política de potência se afirmar como princípio nas relações internacionais será funesto para o mundo e para o Brasil em particular
Bolsonarismo – entre o empreendedorismo e o autoritarismo
Por CARLOS OCKÉ: A ligação entre bolsonarismo e neoliberalismo tem laços profundos amarrados nessa figura mitológica do "poupador"
Maria José Lourenço (1945/2025)
Por VALERIO ARCARY: Na hora mais triste da vida, que é a hora do adeus, Zezé está sendo lembrada por muitos
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES