Marx e Boulos

Imagem: João Nitsche

Por VALERIO ARCARY*

A acusação dirigida contra Boulos por uma parte da esquerda radical brasileira de que teria entrado em modo “paz e amor” é injusta, e até um pouco estudantil, ou politicamente, infantil

“A minoria substitui a observação crítica pela intuição dogmática, a intuição materialista pela idealista. Para ela, a roda motora da revolução não são as circunstâncias reais, mas a vontade. Nós, ao contrário, dizemos aos operários: terão que passar por quinze, vinte, cinquenta anos de guerras civis e lutas entre os povos, e não apenas para transformar as circunstâncias, mas para transformar a vós mesmos, capacitando-os para o Poder, se não for assim, podemos deitar e dormer”. [i]

Karl Marx nunca foi um doutrinário. Valorizava todos os pequenos passos da luta dos trabalhadores na defesa dos seus interesses acima da defesa abstrata de um programa máximo. Mas a verdade é que uma parcela da esquerda radical entre nós, mesmo quando se inspira no marxismo, é muito sectária. Ninguém é mais revolucionário porque, impassível à situação concreta da conjuntura e, indiferente à consciência média dos trabalhadores avançados, proclama que uma revolução é necessária e já, tudo ou nada.

Na luta política nunca é tudo ou nada. O voluntarismo pode ser remédio ou veneno, uma expressão de força mobilizada ou desespero incontido, depende da dose. O caminho para mudar a situação reacionária, e sair da defensiva para construir a ofensiva, como no Chile no ano passado, passa por um processo de acumulação de forças.

Nossa estratégia deve ser a preparação de mobilizações revolucionárias contra Bolsonaro em 2021. Mas ela só pode ser bem sucedida se o estado de espírito, o humor, a disposição política dos mais ativos nos movimentos de mulheres e negros, de juventude e sindicais, ambientais e LGBT’s se elevar. Ignorar o lugar das eleições nesse contexto seria miopia anarquista antipolítica.

A acusação dirigida contra Boulos por uma parte da esquerda radical brasileira de que teria entrado em modo “paz e amor” é injusta, e até um pouco estudantil, ou politicamente, infantil. Boulos se afirmou como a maior nova liderança popular, justamente, porque esteve à frente de grandes lutas desde junho de 2013.

O jovem à frente das ocupações com dezenas de milhares de famílias é denunciado por tudo que há de mais reacionário nesta cidade como um incendiário que não respeita a propriedade privada. A passagem da candidatura do PSol ao segundo turno, dois anos depois da eleição de Bolsonaro, é uma façanha política: os bolsonaristas foram excluídos do segundo turno.

Marx não era um sectário. Muitos testemunhos confirmam que Marx era curioso, aberto para a vida e suas alegrias simples, obstinado e intenso. Lia jornais, revistas, e livros; escreveu poesia; flanava pelas ruas; acompanhava a ciência e a arte do seu tempo; apreciava comer e beber; adorava brincar com crianças; amava Jenny, apaixonadamente; gostava de conviver com os amigos e, pelos jantares que organizava em sua casa, em Londres, passaram os mais destacados militantes da causa igualitarista, das mais diferentes nacionalidades, desde os moderados líderes sindicais cartistas ingleses, o alemão Lassale reformista, até o anarquista russo Bakunin; era sarcástico e fumava, furiosamente.

Marx conheceu a tragédia da condição humana desde jovem. Teve oito irmãos: o mais velho já tinha falecido quando ele nasceu, e quatro outros irmãos e irmãs pereceram, prematuramente, de tuberculose. Dos seis filhos de Karl e de Jenny, apenas três filhas sobreviveram – Jenny, Laura, Eleanor –, mas as duas últimas acabarão por se suicidar, e Jenny morreu jovem pouco depois do próprio pai.

Acima de tudo, Marx foi, ao longo dos últimos duzentos anos, o principal inspirador do maior sonho e aventura da história humana: a luta pelo socialismo. Marx incendiou a imaginação de gerações com uma aposta no projeto anticapitalista de uma transição consciente para uma sociedade em que seremos, socialmente, iguais, humanamente, diferentes e, totalmente, livres. Esse Marx, o socialista, é imortal.

Essa aposta na luta política se fundamentava na esperança no papel dos trabalhadores: a presença do sujeito social como um elemento objetivo do processo da luta de classes. O fator histórico necessário para derrotar o capitalismo era a potencialidade da disposição revolucionária do proletariado: uma classe despojada de propriedade e, mesmo que heterogênea, muito mais homogênea que todas as outras classes da sociedade.

Agrupada em grandes massas, com força social de choque muito superior às multidões camponesas dispersas; dotada de maior autoconfiança em si mesma do que outras frações populares; apta para atrair o apoio da maioria dos oprimidos; inclinada à ação política coletiva; concentrada em imensos centros urbanos; com nível cultural mais alto; impulso político de classe mais definido; maior capacidade de auto-organização e solidariedade; e mais elevado “instinto de poder”.

Marx identificou nos trabalhadores a classe que, pelo seu lugar no processo de produção, teria a força social para, na defesa estreita dos seus interesses “egoístas” de classe, atrair para a luta contra o capital a maioria das outras classes populares, e defender um programa de socialização da propriedade e de planejamento da produção.

Atribuiu assim legitimidade histórica à luta socialista. Reconheceu a universalidade do combate de uma classe que lutando pelos seus interesses “egoístas” até ao fim, poderia, se fosse capaz de conquistar o poder, apoiada na abundância relativa que o capitalismo já tinha gerado, e garantindo crescente igualdade e liberdade, conduzir à emancipação humana. Ao lutar por si mesma, a classe trabalhadora abriria um caminho para a erradicação de todas as classes, e a reunificação da humanidade consigo própria.

Nunca existiu um sonho mais lindo do que esse. Mas para que essa classe brutalizada pela exploração e que, alienada. sofre um despojamento de sua própria humanidade, possa se elevar à condição de sujeito social é necessário enfrentar a questão do “como”: a construção da consciência de classe. Ela não avança porque os revolucionários se dedicam a ultimatos maximalistas: expropriação, já! Ela avança quando se apresenta um programa que constrói uma ponte entre as necessidades mais sentidas e medidas anticapitalistas que dialogam com a consciência das massas.

O problema histórico dramático é saber como uma classe que é explorada, economicamente, oprimida, socialmente, e politicamente, dominada, pode ser protagonista de um projeto de revolução social, no qual se candidata à conquista do poder político, e à reorganização geral de toda a sociedade? A resposta de Marx era uma aposta na luta política. Acreditava que os trabalhadores, mesmo com todas as limitações objetivas e subjetivas que o condicionavam se veria diante da luta pelo socialismo.

Marx foi um revolucionário. Foi por isso que ganhou tantos inimigos. Podemos conhecer o lugar na história de cada um pelos amigos que deixou, mas também, pelos seus inimigos. Seus inimigos nunca o diminuíram. Ao contrário, o engrandeceram.

Mais importante é que em cada luta contra a injustiça, Marx permanece presente. Ele está aqui nas ocupações dos que não têm casa para morar; nas greves de trabalhadores que reivindicam aumentos de salários; nas mobilizações dos professores pela defesa do ensino público; na resistência contra as catástrofes ambientais como em Mariana, no Pantanal e na Amazônia; nas ocupações de escolas dos secundaristas; na luta contra Bolsonaro quando voltamos às ruas por Marielle Franco; na defesa das liberdades democráticas por Lula Livre.

Ele está aqui na luta por levar Boulos à Prefeitura de São Paulo.

Ele está aqui no coração daqueles em que pulsa uma esperança.

Ele nunca nos deixou sozinhos.

*Valério Arcary é professor aposentado do IFSP. Autor, entre outros livros, de O encontro da revolução com a história (Xamã).

 

Nota


[i] MARX, Carlos. “Dos alocuciones del Comite Central de la ‘Liga de los Justos’ a sus afiliados”, in Karl Marx et alli, De la “Liga de los Justos” al partido comunista, México D.F., Roca, 1973, p.121/2.