Murilo Rubião

A obra do artista colombiano Fernando Botero é exibida no Bowers Museum
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Por RICARDO IANNACE*

Fantástico ou realismo maravilhoso – uma incerteza classificatória

À memória de José Nicolau Gregorin Filho.

Enviei mensagem a Murilo Rubião, contando que recebi um convite do professor Bruno Anselmi Matangrano para compor uma mesa de discussão pautada no tema das fronteiras do insólito. E evidentemente, em face de convite tão generoso, não hesitei em propor uma comunicação sobre a poética do absurdo na contística muriliana, visando a este imbróglio de escopo epistemológico atinente ao fato de as narrativas se ajustarem ao modo de construção fantástico ou se constituírem sob a verve do realismo maravilhoso.

Em resposta, Murilo Rubião pediu-me que fosse apanhá-lo de carro, quinta-feira, 10 de agosto, às 22 horas, no campus da Universidade Federal de Minas Gerais, em frente à Biblioteca Central, onde fica o Acervo de Escritores Mineiros. Acreditei que, tão logo nos encontrássemos, ele contribuiria elucidando essa questão taxionômica que desperta polêmica em se tratando de suas intrigas.

Assim fiz, às 22 apanhei Murilo Rubião no Acervo de Escritores Mineiros e de lá partimos em direção a São Paulo. Convidei-o para me acompanhar à USP; ele recusou, preferindo que o deixasse na rua Barão de Iguape, no bairro da Liberdade, defronte ao prédio outrora ocupado pela Editora Ática. Disse-me que almoçaria com seu ex-editor, Jiro Takahashi, não sem antes despachar sua mala em um hotel na Rua da Glória.

O tempo voou – quando me dei conta, já estávamos na BR-381. Murilo mais ouvia que falava: semblante alegre, vestido como de costume (terno escuro, sem a gravata). Os vidros do carro se mantinham fechados, e de seu corpo emanava um perfume de rosas. Pedi-lhe que me esclarecesse sobre a real classificação de suas narrativas. Foi quando ele sorriu e me disse que fosse localizar esses dados em carta que Mário de Andrade lhe enviara nos anos 1940, e, mais tarde, em outra correspondência, dos anos 1960, cujo remetente era o crítico Antonio Candido. Agradeci, um tanto sem graça. Neste instante percebi que meu passageiro estava prestes a adormecer: sua face denotava jovialidade. Muito cordialmente sussurrou. “Eu me chamo Zacarias. Fale à vontade; estou morto mas consigo ouvi-lo perfeitamente”.

Achei que se tratasse de uma brincadeira do autor pirotécnico; reduzi a velocidade e à direita entrei em um posto de gasolina, sem necessidade de abastecer, porque o tanque do carro não carecia de combustível. Lembro-me de ter mencionado a Murilo a minha pintura predileta de Edward Hopper, datada de 1940 – no óleo sobre tela o frentista ocupa, sozinho e ao entardecer, o centro do retrato; dá-se notabilidade às margens da estrada, tomadas por franjas verde-amarelas de um rebelde matagal.

Mantive-me dentro do carro, enquanto Rubião se dirigia ao banheiro do posto. Quando retornou, três pessoas acompanhavam-no: uma mulher muito acima do peso, um idoso magérrimo de boné cinzento, e outro senhor, um tanto sisudo, carregando uma gaiola com um coelho. A mulher, que se apresentou com o nome de Bárbara, sentou-se à frente; os demais, no banco traseiro, e ali conversavam, ignorando a mim e à obesa.

Ao longo da viagem, ensaiei esta fala, querendo acreditar que o contista e as suas personagens me ouviam. Olhei de relance o espelho retrovisor e constatei que uma cobra se movia pelo braço esquerdo de Murilo Rubião. E saltavam-lhe do bolso do paletó várias penas de um pássaro cuja a espécie eu não saberia precisar.

Pois bem: pus-me a discursar.

Murilo, o escritor Mário de Andrade, em 1943, não dispunha da nomenclatura fantástico ou realismo mágico — tampouco realismo maravilhoso — para classificar narrativas do livro que você publicaria quatro anos depois. Mário escreveu exatamente isto: “o mais estranho é o seu dom forte de impor o caso irreal. O mesmo dom de um Kafka: a gente não se preocupa mais, é preso pelo conto, vai lendo e aceitando o irreal como se fosse real, sem nenhuma reação mais.”. Quando citei o nome do escritor austro-húngaro, Murilo Rubião manifestou um riso maroto e acendeu um cigarro. Imediatamente desci os vidros do carro. Abrutes saltaram e desapareceram na estrada.

Quanto à carta de Antonio Candido — disse aos meus passageiros —, gosto muito da expressão segundo a qual a trama muriliana “nos faz sentir como se as leis do mundo estivessem normalmente refeitas. Uma naturalidade admirável, feita de supernaturalidade”. Neste instante Murilo Rubião piscou o olho direito e uma garrafa de vidro pequena e delicada, preenchida de água quase até o topo, contendo um peixe gordo e cintilante, surgiu como num passe de mágica nas mãos de Bárbara, apoiadas sobre suas pernas — essa Bárbara, a meus olhos, parecia uma pintura de Fernando Botero (Ao perfume de rosas que errava docemente pelo carro, somaram-se notas de almíscar e patchouli — vinha dela, a personagem que certa feita encomendou ao marido obsequioso um baobá).

Desviei meu olhar de Bárbara e retomei minha desajeitada retórica.

No fundo, Mário e Candido enxergavam no insólito de Murilo um procedimento de criação anarquicamente híbrido: concebiam suas histórias como matéria que tempera o fantástico agenciado por fenômenos inexplicáveis com o alegórico intrínseco ao realismo maravilhoso.

De fato. Se recapitularmos algumas narrativas, a título de exemplo, verificaremos essa comunhão. O conto “Bárbara” (ao ouvir seu nome, minha passadeira pediu ao magrela, atrás dela, o cachimbo que esse homem do boné cinzento trazia na mão; ele concedeu-lhe com um largo sorriso). O conto “Bárbara” – retomei meu raciocínio – oferece-nos em sua economia e ambiguidade aquela incerteza incômoda que é própria do fantástico; isto é: o leitor hesitado se pergunta, sabendo que o estatuto das ciências não lhe daria respostas, sobre a causa de o desejo insaciável da heroína estar ligada ao ganho imensurável de peso (confesso que fui deselegante e não me senti confortável ao dizer isso ao lado de Bárbara).

O mesmo tenho a aferir de “Aglaia” (qual o leitor que não se indaga ante a rebelião das leis da natureza, visto que uma mulher passa a engravidar sem a consumação do ato sexual? E como pode nascer, em seguidos partos, uma legião de crianças? Dezenas e dezenas de bebês). Embora o leitor aceite o contrato do “faz de conta” (realismo maravilhoso) há sempre uma pulga atrás de suas orelhas. Sempre a obscuridade rondante. Quis fundamentar meu ponto de vista, recorrendo a um ensaio clássico de Julio Cortázar, e emendar com assertivas de Todorov, Irène Bessière e Irlemar Chiampi. Não o fiz, achando que minhas proposições soariam pedantes — como se eu pretendesse ostentar erudição, arvorando indiretamente títulos acadêmicos ou a função de professor.

Prossegui, ridículo em minhas certezas.

Saibam que o conto “O lodo” se estrutura à maneira do fantástico oitocentista. Galateu, o protagonista, é vítima da perseguição de um psicanalista (dr. Pink), obstinado em desvendar os segredos pretéritos desse que se nega a deitar-se em seu divã. Até que um fenômeno estranho, ou seja, surpreendente, de latitude sobrenatural, vem à baila no conto: Galateu, embalado pela perturbação de um sono à custa de forte medicamento, constata no espelho do banheiro que seu mamilo esquerdo desaparecera — no “lugar despontara uma ferida sangrenta, aberta em pétalas escarlates”. São tantos os incidentes sinistros em torno dessa “coisa pegajosa” anunciada no peito da personagem que parece impossível ignorar o ensaio de Freud sobre o Inquietante, também traduzido como o Infamiliar, bem como a tese de Otto Rank a respeito do duplo, da sombra…

Interrompi o que dizia porque a falação atrás de mim comprometia meu raciocínio. E não é que, para atacar Murilo Rubião, me pus a dizer que a personagem Hebe, do conto “Os comensais”, é um autômato à semelhança da boneca Olímpia de Hoffmann, em “O homem da areia”; e disse mais: que a imitação de Murilo não parava aí: o herói e espécie de bode expiatório, cujo nome dá título ao conto “Botão de Rosa”, é um fac-símile de Josep K, de O processo. Por sorte, o autor de O ex-mágico não ouviu o que eu dizia, a tagarelar com seus parceiros de assento.

Fiquei em silêncio por um ou dois minutos e segui em discurso.

Se eu fosse listar os contos predominantemente na linha do fantástico, jamais deixaria de fora deste inventário “O convidado”, “A fila”, “Os três nomes de Godofredo”, “A noiva da casa azul”, “Flor de vidro”, “Elisa”… (à medida que os enumerava, meus dedos sobre o volante do carro se mexiam como se eu estivesse teclando os botões de uma máquina de escrever). Demais títulos me fugiam; eu estava cansado da viagem. A cabeça e os ombros pesavam-me, o estômago roncava.

Amanhecia. O céu azul-claro ofertava pontos alaranjados (recordei-me de que, na infância, colecionava bolinhas de gude, e muitas delas refletiam essa coloração).

E, para não me dispersar e interromper a contagem, prossegui com este sintagma copioso: se eu fosse listar os contos predominantemente na linha do realismo maravilhoso, jamais deixaria de fora deste inventário “O ex-mágico da Taverna Minhota”, “O pirotécnico Zacarias”, “Teleco, o coelhinho”, “Os dragões”, “O homem do boné cinzento”, “O bloqueio”… (percebi, pelo movimento repetitivo dos meus dedos, que estava dando empate; meio a meio: fantástico e realismo maravilhoso). Achei patética, para não dizer ridícula, a minha atitude.

Fiquei em silêncio, procurando analisar com equilíbrio e justificando a mim mesmo que a escritura de Murilo Rubião não se rende a enquadramentos. Ela opera com síntese e descarrila surpresas inerentes ao território mágico (o vernáculo em linha reta; as experiências narradas, em piruetas). E como Murilo, na labuta de sua fabulação, buscou exaustivamente a concisão por meio da palavra certeira, fico convencido de que o vocábulo “insólito” traduz – como nenhum outro tão bem traduziria – a natureza de sua literatura.

Quando voltei à razão, havíamos chegado a São Paulo. Pediram-me que os deixasse próximos ao Edifício Copan, e segui até o bairro da Liberdade, à rua Barão de Iguape. Murilo continuou sentado no banco traseiro, agora cercado de bichos. Pensei em dizer tantas coisas a ele nesse momento, mas a timidez não permitiu. Queria expor coisas minhas, pessoais: dizer que, por ocasião da primeira visita no seu espólio, na UFMG, segurei seus óculos (uma armação pesada), mexi na sua tesoura e no seu aparelho barbeador (aliás, idêntico ao de meu avô, nascido em 1911 – sete anos mais velho que ele); que revirei caixas, pastas, fotos, li seus bilhetes, inclusive guardanapos com anotações de quem farreou com amigos no bar e restaurante Maletta… Que existem fotos reveladoras de que ele fora um jovem boa-pinta.

Mas não disse é nada. Precisei, sim, foi dar várias voltas por ruas do bairro da Liberdade em decorrência de a Galvão Bueno estar interditada (dragões ocupavam o asfalto; barracas coloridas preenchiam os dois lados das calçadas; identifiquei certa ratazana emergindo de um bueiro e escapolindo para uma praça (imaginei que se tratasse de “Josefina, a cantora” — a enigmática personagem de Kafka). De repente, Murilo estendeu-me cordialmente a mão: havíamos chegado ao velho prédio da Ática, e então reparei que em seu pulso havia a tatuagem de um crucifixo.

Desceu do carro, mas os bichos permaneceram comigo.

À entrada do prédio, ele pegou o corredor lateral à esquerda – e, ao fundo, quem o esperava não era o Jiro. Em vez do editor de ascendência japonesa, encontrava-se ali um homem alto, encorpado e de cabelos grisalhos: quem vinha recepcioná-lo era meu amigo Nicolau Gregorin.

*Ricardo Iannace é professor do programa de pós-graduação em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa da FFLCH-USP. Autor, entre outros livros, de Murilo Rubião e as arquiteturas do fantástico (Edusp).
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Texto apresentado na “I Jornada de Estudos Insólitos da USP”, em 11 de agosto de 2023.


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