Nota sobre o bolsonarismo em Goiás

Imagem_ColeraAlegria
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Nota sobre o bolsonarismo em Goiás

Por CILEIDE ALVES*

Tem a marca BBB (bala, Bíblia e boi), representando segurança pública, evangélicos e agronegócio, a base de sustentação política do presidente Jair Bolsonaro, mas isso ficou ainda mais evidente em Goiás nesta tensa semana de protestos de viés golpista patrocinados pelo Palácio do Planalto. A proximidade com Brasília, o conservadorismo sócio-político da população e a economia fincada no agronegócio explicam o que aconteceu, mas um foco mais aproximado revela uma fotografia detalhada desta história.

Presidente da Federação da Agricultura do Estado de Goiás (Faeg), o deputado federal José Mário Schreiner (DEM), representante do boi na marca BBB, publicou um vídeo nas redes sociais na noite de segunda-feira (6) com imagens do trânsito de caminhões na entrada de Brasília, todos devidamente paramentados para a manifestação do dia seguinte. Poucas horas depois, centenas de caminhões romperam o bloqueio da Polícia Militar e ocuparam parte da Esplanada dos Ministérios, de onde só começariam a sair na tarde de quinta-feira (9), após a divulgação da carta de Bolsonaro recuando dos ataques ao Supremo Tribunal Federal (STF).

As faixas nos caminhões estacionados em Brasília, muitas delas com mensagens antidemocráticas, deixaram à vista marcas de empresas. A imprensaidentificou ao menos 19 caminhões com nomes e logos de duas companhias do agrobusiness de Goiás: 17 da Grão Dourado, empresa de armazenagem, industrialização e empacotamento de grãos, de Piracanjuba, e dois da Dez Alimentos, indústria de processamento de tomates, em Morrinhos.

Uma foto do jornalista Vinícius Sassine, publicada na Folha de S.Paulo, em 8 de setembro, mostra um caminhão da Dez Alimentos com uma faixa gigante onde se lê: “Pres. Bolsonaro, o câncer tem nome: STF, TSE, Senado Federal, Câmara dos Deputados, Zé Dirceu, Lula, Dilma, Gleisi, Omar Azis, Renan Calheiros, Randolfe, Pacheco, Lira, Rodrigo Maia, Alcolumbre, etc.” Diretor da indústria e presidente do Sindicato Rural de Morrinhos, Arthur Chiari, publicou antes das manifestações posts em grupos de WhatsApp fotos de um ônibus contratado pelo Sindicato Rural para levar manifestantes de Morrinhos a Brasília. A família Chiari é grande produtora rural do sul de Goiás. Produz7 mil litros de leite por dia, tem uma das maiores áreas irrigadas do Estado e gado de elite, com laboratório de melhoramento genético, além da indústria de processamento de tomate.

O agronegócio também deu uma forcinha aos bloqueios das rodovias em 15 Estados brasileiros, a julgar pelas informações do presidente do Sindicatos dos Transportadores Autônomos de Carga de Goiás (Sinditac-GO), Vantuir Rodrigues, ao site Poder 360. “O caminhoneiro autônomo não está participando. Nada dessa pauta nos interessa. Quem está parado é o agronegócio. O agronegócio que quer destituir o STF, que está fazendo uma manifestação pró-governo. Só que estão usando a categoria como bode expiatório”, afirmou.

Os deputados João Campos (Republicanos), Glaustin da Fokus (PSC) e o senador Luiz do Carmo (MDB) – o “b” de Bíblia – empurraram suas bases religiosas para as manifestações como se pode ver por suas redes sociais. Francisco Júnior (PSD), igualmente da bancada religiosa, não declarou apoio público ao protesto, mas divulgou um vídeo enaltecendo o valor da liberdade no Dia da Independência. Certamente não é coincidência com o fato de a liberdade ter sido o mote dos discursos bolsonaristas.

O próprio Bolsonaro contribuiu para a mobilização em Goiás, dada a força de sua base no Estado e da proximidade com Brasília. No final de agosto ele passou dois dias em Goiânia em eventos no Comando Especial do Exército, onde passou a noite, e no 1° Encontro Fraternal de Líderes Evangélicos de Goiás, que reuniu os principais pastores das maiores denominações evangélicas do Estado. Foi neste encontro que Bolsonaro disse, pela primeira vez, que só deixaria o poder “preso, morto ou com a vitória” e que não considerava a primeira hipótese. Dois dias depois, em 30 de agosto, ele concedeu entrevista exclusiva a uma emissora de rádio da igreja do pastor César Augusto, um dos líderes religiosos brasileiros que gravaram um vídeo convocando os evangélicos para a manifestação de 7 de setembro e que apareceu ao lado do presidente no palanque na Avenida Paulista.

Fechando a marca BBB, na parte da bala, estão os deputados Vitor Hugo (PSL), Magda Mofatto (PL) e novamente João Campos, que é delegado da Polícia Civil, além de pastor evangélico. A atuação de Vitor Hugo dispensa apresentações, pois ele é um dos deputados mais próximos de Bolsonaro, mas a de Mofatto vale registro. Depois de estrelar em junho um vídeo armada com fuzil em um helicóptero anunciado que prenderia o criminoso Lázaro Barbosa, desta vez a deputada dirigiu um caminhão para comunicar sua partida para o protesto de Brasília. Vale lembrar que durante a mobilização para esses atos, Vitor Hugo trouxe a Goiânia o deputado federal Eduardo Bolsonaro, o filho 03 do presidente, para um evento em homenagens a policiais militares.

Por fim há o grupo dos calados, políticos que apoiam ou apoiaram Bolsonaro, mas que se recolheram nesta que foi a semana dos fatos mais graves da história recente. Entre eles o governador Ronaldo Caiado (DEM). Em contato com O POPULAR nesta sexta-feira (10), Caiado se recusou a responder perguntas sobre os acontecimentos. Destaque nacional em suas épocas de tribuna no Congresso Nacional pela ferocidade de suas declarações, agora Caiado engole palavras para evitar se atritar com o presidente da República. Neste grupo estão ainda o senador Vanderlan Cardoso (PSD), delegado Waldir Soares (PSL) e José Nelto (Podemos), que se diz independente, mas regularmente votacom o governo.

Esses grupos políticos despontam como a força motriz do bolsonarismo em Goiás, seja por conveniências políticas, por afinidades político-ideológicas e por interesses econômicos ou pela combinação de tudo isso. Independentemente de suas razões, foram protagonistas no Estado do levante antidemocráticoque, por pouco, não mergulhou o país em um caos institucional.

*Cileide Alves é jornalista e mestre em história pela UFG. Autora do livro Iris Rezende: De líder estudantil a governador (1958/1983).

Versão ampliada de artigo publicado originalmente no jornal O Popular

Veja neste link todos artigos de

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
Valerio Arcary Alysson Leandro Mascaro Annateresa Fabris Flávio Aguiar Elias Jabbour Manchetômetro José Costa Júnior José Machado Moita Neto Paulo Sérgio Pinheiro Osvaldo Coggiola Chico Alencar Walnice Nogueira Galvão Marjorie C. Marona José Micaelson Lacerda Morais Lincoln Secco José Raimundo Trindade Celso Favaretto Liszt Vieira Ronald Rocha Flávio R. Kothe Dennis Oliveira João Sette Whitaker Ferreira Luiz Carlos Bresser-Pereira Mariarosaria Fabris Marilia Pacheco Fiorillo Lucas Fiaschetti Estevez Luís Fernando Vitagliano Thomas Piketty Eleutério F. S. Prado Chico Whitaker Ricardo Musse Paulo Martins Heraldo Campos João Paulo Ayub Fonseca Francisco Fernandes Ladeira Rubens Pinto Lyra Luiz Eduardo Soares Antonio Martins Eugênio Bucci Andrés del Río Vinício Carrilho Martinez Julian Rodrigues José Geraldo Couto Rodrigo de Faria Bruno Fabricio Alcebino da Silva Maria Rita Kehl Luiz Werneck Vianna Leda Maria Paulani Carlos Tautz Marcelo Módolo Caio Bugiato Luiz Renato Martins Renato Dagnino Ricardo Antunes Airton Paschoa Luiz Roberto Alves Michael Löwy Eliziário Andrade Gabriel Cohn Mário Maestri Francisco de Oliveira Barros Júnior João Feres Júnior Armando Boito Lorenzo Vitral Daniel Afonso da Silva Atilio A. Boron Luis Felipe Miguel Henri Acselrad Marilena Chauí Dênis de Moraes Yuri Martins-Fontes Gerson Almeida Eduardo Borges Leonardo Avritzer Paulo Fernandes Silveira Bento Prado Jr. Paulo Nogueira Batista Jr Luciano Nascimento Kátia Gerab Baggio Claudio Katz Marcus Ianoni Eleonora Albano Bruno Machado Michael Roberts Marcos Aurélio da Silva João Lanari Bo Ricardo Abramovay Carla Teixeira Tarso Genro Slavoj Žižek Boaventura de Sousa Santos Sandra Bitencourt Francisco Pereira de Farias Denilson Cordeiro Antonino Infranca Plínio de Arruda Sampaio Jr. Juarez Guimarães José Dirceu Luiz Marques Marcelo Guimarães Lima Everaldo de Oliveira Andrade Anderson Alves Esteves Alexandre Aragão de Albuquerque Ricardo Fabbrini Valerio Arcary Daniel Costa Fábio Konder Comparato Celso Frederico Leonardo Sacramento Gilberto Lopes Fernando Nogueira da Costa Tales Ab'Sáber Alexandre de Lima Castro Tranjan Ladislau Dowbor Ari Marcelo Solon Antônio Sales Rios Neto João Carlos Loebens Manuel Domingos Neto Alexandre de Freitas Barbosa Fernão Pessoa Ramos Bernardo Ricupero Salem Nasser Milton Pinheiro Afrânio Catani Eugênio Trivinho Priscila Figueiredo Anselm Jappe Sergio Amadeu da Silveira Daniel Brazil José Luís Fiori Matheus Silveira de Souza Vladimir Safatle Ronaldo Tadeu de Souza Vanderlei Tenório Igor Felippe Santos Otaviano Helene Érico Andrade Jean Marc Von Der Weid Jorge Branco Gilberto Maringoni Ronald León Núñez Berenice Bento Marcos Silva Andrew Korybko Remy José Fontana Rafael R. Ioris Henry Burnett Jorge Luiz Souto Maior Tadeu Valadares André Márcio Neves Soares Samuel Kilsztajn Luiz Bernardo Pericás João Carlos Salles Paulo Capel Narvai Leonardo Boff André Singer Benicio Viero Schmidt Michel Goulart da Silva João Adolfo Hansen Jean Pierre Chauvin

NOVAS PUBLICAÇÕES

Pesquisa detalhada