O agente secreto

Frame de "O agente secreto", filme dirigido por Kleber Mendonça Filho/ Divulgação
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Por DANIEL BRAZIL*

Considerações sobre o filme de Kleber Mendonça Filho, em exibição nos cinemas

1.

Em O agente secreto, Kleber Mendonça Filho entrelaça dois temas centrais em sua obra: a memória e o amor pelo cinema. Ambientado num período tenebroso da história política do país, os anos 1970, o retrato do ditador da época, Ernesto Geisel, aparece duas ou três vezes pendurado em repartições públicas, de forma discreta. O que está onipresente é a violência escancarada, a corrupção policial e civil, a imprensa sensacionalista, o desregramento civilizatório de uma sociedade erigida sobre uma colonização escravagista.

Não que o filme pretenda ser histórico ou assumir um viés sociológico, longe disso. É ficção plena, exercida com talento e criatividade. E é um filme sobre afetos, antes de tudo. Os refugiados que são acolhidos em uma casa comunitária, o amor de um pai que procura se reencontrar com o filho, a lembrança da mulher ausente, a rede de apoio que se forma sob um ambiente hostil.

A memória, para o diretor e roteirista do filme, é marcada pelo cinema. Ou melhor, pelos cinemas. Desde o início, nos créditos, quando fotogramas de filmes brasileiros dos anos 1970 vão se mesclando com outras imagens da época, até o fato de boa parte da ação se passar em um velho cinema. O grande blockbuster da época era Tubarão, de Spielberg, que está presente em boa parte das cenas. O filho de Marcelo, o protagonista, é um menino que tem pesadelos com tubarões, e quer muito ver o filme, mas ainda não tem idade. Outro tubarão, este “real”, é pescado na costa recifense e dentro de sua barriga encontram uma perna humana.

Essa cena macabra abre espaço para outra lembrança da época: a lenda urbana da Perna Cabeluda, divulgada pela imprensa popular, principalmente a radiofônica, e que virou até tema de cordel. A perna surgia a noite em parques públicos e ruas escuras e perseguia as pessoas, causando terror.

São memórias de Recife, cenário recorrente na obra de Kleber Mendonça Filho. Outros filmes aparecem discretamente, projetados na tela do cinema. O tal agente secreto não é o protagonista, é apenas mais um filme. Filmes dentro do filme, memórias dentro de memórias. Essas camadas sutis se sobrepõem, criando um mosaico de significados de resultado envolvente.

2.

Poderíamos falar do elenco esplêndido, da direção ousada, de um Wagner Moura perfeito, da reconstituição de época impecável, da fotografia aliciante, da riqueza da trilha sonora. Tudo isso já foi bem comentado, e o filme realmente merece os prêmios e aplausos que tem recebido em toda parte.

Mas retorno à questão da memória, e do que não queremos relembrar. No surpreendente final, o personagem recebe de uma jovem um pendrive (sim, estamos no século XXI) com gravações de 1977. Ele não quer lembrar do período, diz que não tem nada de bom para guardar da época. Contraditoriamente, relembra que o local onde agora trabalha foi um antigo cinema, onde ele assistiu Tubarão pela primeira vez.

Esta é uma das chaves do filme. Queremos realmente esquecer, ou melhor, não lembrar, daquele clima pesado da ditadura, as perseguições a opositores do regime, as mortes e desaparecimentos? É natural do ser humano guardar as boas lembranças, e tentar apagar os momentos de sofrimento. Lembrar das dores é senti-las novamente.

Mas os males do passado continuam presentes, e o filme mostra isso de várias formas, sem discurso panfletário. A corrupção sistêmica continua viva, a violência policial, as patroas que deixam o filho da empregada morrer por falta de atenção, o sexo em praça pública, está tudo aqui, agora, mas gostaríamos de esquecer. Ou de não enxergar.

*Daniel Brazil é escritor, autor do romance Terno de Reis  (Penalux), roteirista e diretor de TV, crítico musical e literário.

Referência


O agente secreto
Brasil, Alemanha, França, Holanda, 2025, 158 minutos.
Direção e roteiro: Kleber Mendonça Filho.
Elenco: Wagner Moura, Alice Carvalho, Gabriel Leone, Roney Villela, Hermila Guedes, Tânia Maria, Robério Diógenes.


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