O crime de Cuca

Imagem: Clara Figueiredo, sem título, fotomontagem digitalizada, 2017
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por HELENA PONTES DOS SANTOS & PAULO DE CARVALHO YAMAMOTO*

Por que uma corinthiana e um são-paulino clubistas irão torcer contra o Santos na final da Libertadores?

Não é novidade para ninguém a enorme rivalidade futebolística existente entre os três maiores clubes da capital paulistana. Entre clubistas – pessoas que, independentemente da razão, orgulham-se em defender seus times em absolutamente todas as situações – simpatizar, ainda que minimamente, com qualquer um dos rivais é um pecado imperdoável.

Assim, diante de uma final brasileira na Copa Libertadores entre Palmeiras e Santos, torcedores de Corinthians e São Paulo tendem a – na impossibilidade de torcer para a derrota de ambos os rivais ou de torcer para a vitória da arbitragem – desejar a derrota do arquirrival da mesma cidade (o que não é sinônimo de torcer pelo outro time – mesmo porque “torcer” é uma palavra muito forte). Não que o “bando de loucos” ou tricolores nutram algum bom sentimento pelo time de Pelé e Neymar, muito pelo contrário. Porém, talvez, a distância geográfica do alvinegro da Vila Belmiro ou, mais provavelmente, a maior aversão ao alviverde pesam na hora de assistir um jogo que, bem, convenhamos, iremos assistir.

Mas desta vez não. Apesar de nós dois nos recusarmos a assumir que torceremos para o time que sucedeu o Palestra Itália, a verdade é que desejamos a derrota do Santos Futebol Clube. Se, eventualmente, isso importar na vitória do “verdão”, paciência…

Os jogadores da equipe santista, capitaneados pelo talentoso e carismático goleador Marinho, trazem brilho e promessa de um futuro glorioso para o futebol brasileiro. Porém, nem o talento, nem o carisma de Marinho e seus colegas ou mesmo a origem proletária do clube são capazes de amenizar nosso total repúdio a figura de Alex Stival, mais conhecido como Cuca, o técnico do Santos.

Hoje, Cuca desfila pelas câmeras da imprensa nacional com seu jeito manso de falar que compõe, junto de suas camisetas com imagens católicas, sua persona de respeitável homem de bem. Quem o vê sendo louvado por programas esportivos do país inteiro não imagina (ou esquece) que o ex-técnico de Palmeiras e São Paulo foi condenado na Suíça por ter participado do estupro de uma menina de 13 anos.

Os fatos são de julho de 1987, quando o Grêmio foi disputar a Philips Cup, torneio amistoso promovido pelo Berner Sport Club Young Boys, time da capital suíça. À época, a imprensa brasileira, sobretudo a gaúcha, tratou de transformar os quatro agressores – além de Cuca, também participaram da ação criminosa o atacante Fernando Luís Castoldi, o zagueiro Henrique Arlindo Etges e o goleiro Eduardo Hamester – em heróis, como denunciaram as antropólogas Carmen Rial e Miriam Pillar Grossi – aliás, aconselhamos vivamente a leitura do artigo.

A Justiça daquele país, após 28 dias de reclusão, permitiu que os jogadores respondessem o processo em liberdade, o qual culminou na condenação dos quatro em 1989. Desnecessário dizer que, estando no Brasil, nenhum deles cumpriu um dia sequer de prisão pela sentença transitada em julgado na Suíça.

Aqui cabe uma advertência: não temos a pretensão de perseguir Cuca ou qualquer outra pessoa acusada ou condenada de qualquer crime. Nem estamos aqui para pedir a prisão de ninguém, acreditamos que a política de encarceramento desempenha no sistema capitalista a função primordial de aprisionar pessoas que façam parte de grupos oprimidos e explorados a fim de facilitar o controle da mão de obra e garantir o rebaixamento de seu valor.

Para nós, o combate a crimes como estupro não pode se dar apenas no campo legal, exigindo investimento em educação que vise a construção de uma sociedade atenta para a igualdade de gêneros e respeito às diversidades. Daí a importância que o debate sobre esse tipo de caso seja feito de modo sério e visando a superação desse modelo em que vivemos.

Como ressaltou Eliane Alves Cruz numa sociedade que tem como um de seus sustentáculos a violência contra as mulheres, trinta anos pode ser pouco tempo para entender que não há nada de natural em homens agirem de forma tão violenta e desumana.

Naquela época, a maior parte da sociedade e sobretudo a imprensa esportiva se uniu em defesa dos condenados. Ainda que a “cultura do estupro” tenha se mantido, vimos, com o caso Robinho, que os tempos são outros. Não é mais aceitável que jogadores que desprezam a vida de mulheres sejam celebrados por seus feitos dentro de campo, independentemente de suas ações fora dos gramados. Se queremos construir uma sociedade segura e igualitária para nossas filhas, então o exemplo de jogador que admiramos não pode ser o de estupradores.

Mas, se, com toda a razão, rechaçamos Robinho, por que silenciamos em relação a Cuca? Possivelmente o racismo – que costuma andar de mãos dadas com o machismo – ainda tenha seu espaço nessa odiosa equação.

É curioso que, do ponto de vista institucional, todo mundo se diz a favor da igualdade de gênero, tanto assim que, em 2018 o Santos Futebol Clube aderiu à campanha #HeForShe, louvável iniciativa da ONU Mulheres. Porém, tais gestos e palavras bonitas são esvaziadas diante do triste fato de que o time do Santos segue sendo dirigido por alguém que foi condenado por sua participação no estupro de uma menina de 13 anos.

Seria elegante dizer que não temos nada contra o Santos e sim contra o Cuca. Mas, como clubistas que somos isso não é exatamente verdade. Temos aversão ao peixe e ainda mais horror ao porco. Nada disso, no entanto, chega perto da ojeriza que temos aos atos desumanos que Cuca praticou, foi condenado, porém nunca foi responsabilizado.

*Helena Pontes dos Santos, corintiana, clubista, é mestranda em Direito na USP e servidora pública.

*Paulo de Carvalho Yamamoto, são-paulino, clubista, é doutorando em Direito na USP e advogado.

Veja neste link todos artigos de

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
João Sette Whitaker Ferreira Caio Bugiato Paulo Sérgio Pinheiro Luciano Nascimento Mariarosaria Fabris Manchetômetro Mário Maestri José Dirceu Ricardo Fabbrini Bruno Machado Chico Alencar Rafael R. Ioris Gerson Almeida Fernando Nogueira da Costa Afrânio Catani Vinício Carrilho Martinez Lorenzo Vitral Francisco de Oliveira Barros Júnior Marilia Pacheco Fiorillo Michael Roberts Bento Prado Jr. Francisco Fernandes Ladeira Boaventura de Sousa Santos Francisco Pereira de Farias Marcelo Guimarães Lima Benicio Viero Schmidt Marcos Silva Slavoj Žižek Luiz Renato Martins Valerio Arcary Atilio A. Boron Paulo Nogueira Batista Jr Daniel Brazil Elias Jabbour João Lanari Bo Celso Favaretto Ladislau Dowbor Manuel Domingos Neto Fernão Pessoa Ramos Marcus Ianoni Jorge Luiz Souto Maior Sandra Bitencourt Eduardo Borges Luís Fernando Vitagliano André Márcio Neves Soares Kátia Gerab Baggio Heraldo Campos Alexandre de Freitas Barbosa Carla Teixeira Henry Burnett Leonardo Avritzer Berenice Bento André Singer Priscila Figueiredo Leda Maria Paulani Bernardo Ricupero Ronaldo Tadeu de Souza Salem Nasser Annateresa Fabris Leonardo Sacramento Eliziário Andrade José Machado Moita Neto Ronald Rocha Sergio Amadeu da Silveira Plínio de Arruda Sampaio Jr. Chico Whitaker Julian Rodrigues Tales Ab'Sáber João Adolfo Hansen Lucas Fiaschetti Estevez João Paulo Ayub Fonseca Antonino Infranca Leonardo Boff Juarez Guimarães Michael Löwy Tarso Genro Igor Felippe Santos Eugênio Trivinho Dennis Oliveira Flávio Aguiar Vanderlei Tenório Alexandre Aragão de Albuquerque Paulo Martins Thomas Piketty Daniel Costa Lincoln Secco Paulo Capel Narvai Armando Boito Luiz Bernardo Pericás Alysson Leandro Mascaro Henri Acselrad João Carlos Loebens João Feres Júnior Luiz Eduardo Soares José Costa Júnior Valerio Arcary Bruno Fabricio Alcebino da Silva Luis Felipe Miguel Liszt Vieira Denilson Cordeiro Antônio Sales Rios Neto Marilena Chauí José Micaelson Lacerda Morais Anderson Alves Esteves Érico Andrade João Carlos Salles Airton Paschoa Paulo Fernandes Silveira Jean Marc Von Der Weid Marjorie C. Marona Eleutério F. S. Prado Daniel Afonso da Silva Flávio R. Kothe Dênis de Moraes Luiz Roberto Alves Alexandre de Lima Castro Tranjan Samuel Kilsztajn Otaviano Helene Tadeu Valadares Vladimir Safatle Gilberto Maringoni Anselm Jappe Andrés del Río Jorge Branco Gabriel Cohn Gilberto Lopes Claudio Katz Celso Frederico Carlos Tautz Marcos Aurélio da Silva Milton Pinheiro Matheus Silveira de Souza Antonio Martins Rodrigo de Faria Luiz Carlos Bresser-Pereira Renato Dagnino Luiz Werneck Vianna Ricardo Abramovay José Luís Fiori Luiz Marques Remy José Fontana Eleonora Albano Maria Rita Kehl Marcelo Módolo Ricardo Musse José Raimundo Trindade Andrew Korybko Ricardo Antunes Ari Marcelo Solon Michel Goulart da Silva Ronald León Núñez Fábio Konder Comparato Everaldo de Oliveira Andrade Jean Pierre Chauvin Rubens Pinto Lyra Osvaldo Coggiola Yuri Martins-Fontes Walnice Nogueira Galvão Eugênio Bucci José Geraldo Couto

NOVAS PUBLICAÇÕES

Pesquisa detalhada