Os eternos coveiros do PT

Imagem: João Nitsche
image_pdf

Por FLÁVIO AGUIAR*

Por sobre a malta de seus eternos coveiros, o PT continua sendo o maior partido de esquerda do Brasil, um dos maiores e melhores da América Latina e do mundo

Esclareço desde logo: em São Paulo, apoiei Boulos e Erundina desde a primeira hora. Respeito as demais opções à esquerda. Esclareço: na paulistânia, Boulos, além de ser um super-quadro, traz o vento favorável da renovação geracional, e injeta racionalidade no PSOL, para longe do primarismo ressentido anti-petista  que caracterizou várias lideranças do partido, do norte ao sul, de leste a oeste. E Erundina, do alto de seus oitenta anos, se renova, junto a Boulos.

Dito isto, sublinho: por sobre a malta de seus eternos coveiros, o PT continua sendo o maior partido de esquerda do Brasil, um dos maiores e melhores da América Latina e do mundo. Que se defenda a frente anti-bolsonaro que se queira: ampla, popular, de esquerda, de centro-esquerda, etc. Qualquer delas, sem o PT, sem o Lula, não vai prosperar.

Ao contrário do que alardeiam seus coveiros, o PT saiu-se galhardamente nestas eleições municipais. Nunca um partido e suas lideranças foram tão enxovalhadas e desacreditadas pela mídia mainstream do Brasil por tão longo tempo e com argumentos tão falsos e contundentes, tão mais contundentes quanto mais falsos, porque esta equação exige uma operação interna de quem nela embarca de mãos e pés juntos, qual seja, aquilo que em inglês se chama “suspension of disbelief”, a “suspensão da descrença”. No campo político isto significa o abandono de qualquer espírito crítico e independente, para aderir à grosseria das falsificações mais grosseiras. Não que o PT seja um convento onde entram apenas monjas e monges “sans taches et sans reproche”, longe disto. Mas a mídia mainstream e os inimigos do povo quiseram fazer dele o bode expiatório de todos os males que afligem o campo político brasileiro e mundial. Jogaram em cima do PT a pecha de ser o partido mais corrupto da nossa história, quase o fundador da corrupção; de ter jogado zilhões de reais fora para ajudar regimes supostamente ditatoriais e comunistas. Na verdade, nunca a corrupção foi tão investigada quanto sob os governos do PT; e foi sob estes governos que o Brasil juntou o lastro indispensável de reservas expressivas em moedas internacionais, para ser um receptor seguro de investimentos em escala mundial, já que a nossa burguesia prefere cada vez mais investir suas polpudas reservas em paraísos fiscais de reputação mais que suspeita, além dos supermercados de Miami.  E algumas vezes houve a ajuda de expressivas lideranças de esquerda: não me esqueço das cenas televisivas da líder psolista, com sua camisetinha t-shirt, ombro a ombro com Netinho (apelido mais carinhoso de ACM Neto), investigando as supostas mazelas do suposto mensalão, cuja existência nunca foi provada e, parodiando o Ulisses de Fernando Pessoa, “por não ter vindo, veio e ficou”. Mais ainda: pela esquerda, acusou-se o PT e Lula de tudo. Desde terem “desarmado as massas”, que nesta visada estavam sempre prontas para invadir o Palácio do Planalto como se fosse o de Inverno em São Petersburgo em 1917, até terem desavergonhadamente favorecido o capital através do incentivo ao consumismo por parte dos pobres e miseráveis.

Enfim, vou encurtar a história: nesta nossa, o PT veio para ficar. Ele faz parte inalienável da pluralidade das nossas esquerdas. Já falei de Boulos e do PSOL; para não dizer que não falei de flores, parodiando o Vandré, vamos de Manuela e PCdoB/PT em Porto Alegre. E em tempo: os coveiros do PT ganharam agora um valioso aliado, o Sr. Barack Obama, através de suas memórias; muito coerente, pois, afinal, a Lava Jato foi gestada em sua terra durante seu governo.

*Flávio Aguiar é jornalista, escritor e professor aposentado de literatura brasileira na USP. Autor, entre outros livros, de Crônicas do mundo ao revés (Boitempo).

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Para além de Marx, Foucault, Frankfurt
25 Jan 2026 Por JOSÉ CRISÓSTOMO DE SOUZA: Apresentação do autor ao livro recém-publicado
2
Avaliação e produtivismo na universidade
23 Jan 2026 Por DANICHI HAUSEN MIZOGUCHI: A celebração das notas da CAPES diante do estrangulamento orçamentário revela a contradição obscena de uma universidade que internalizou o produtivismo neoliberal como nova liturgia acadêmica
3
O teto de vidro da decolonialidade
29 Jan 2026 Por RAFAEL SOUSA SIQUEIRA: A crítica decolonial, ao essencializar raça e território, acaba por negar as bases materiais do colonialismo, tornando-se uma importação acadêmica que silencia tradições locais de luta
4
A ilusão da distopia
27 Jan 2026 Por RICARDO L. C. AMORIM: O novo capitalismo não retorna ao passado bárbaro; ele o supera com uma exploração mais sofisticada, onde a submissão é voluntária e a riqueza se concentra sem necessidade de grilhões visíveis
5
O Conselho da Paz de Donald Trump
24 Jan 2026 Por TARSO GENRO: Da aridez de Juan Rulfo ao cinismo da extrema direita mundial, Tarso Genro denuncia a transição da cena pública para uma era de tirania privada, em que a gestão do caos e a aniquilação de povos desafiam a humanidade a resgatar o frescor de suas utopias perdidas
6
Júlio Lancellotti
28 Jan 2026 Por MARCELO SANCHES: A relevância de Padre Júlio está em recolocar a fé no chão concreto da vida, denunciando o cristianismo que serve ao poder e legitima a desigualdade
7
Notas sobre a desigualdade social
22 Jan 2026 Por DANIEL SOARES RUMBELSPERGER RODRIGUES & FERNANDA PERNASETTI DE FARIAS FIGUEIREDO: A questão central não é a alta carga tributária, mas sua distribuição perversa: um Estado que aufere seus recursos majoritariamente do consumo é um Estado que institucionaliza a desigualdade que diz combater
8
Enamed e cretinismo parlamentar estratégico
27 Jan 2026 Por PAULO CAPEL NARVAI: É mais prático e eficaz fechar cursos e colocar um fim na farra da venda de diplomas disfarçada de formação. Mas não é nada fácil fazer isso, pois quem consegue enfrentar congressistas venais?
9
Hamnet – a vida antes de Hamlet
19 Jan 2026 Por JOÃO LANARI BO: Comentário sobre o filme dirigido por Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
10
Energia nuclear brasileira
06 Dec 2025 Por ANA LUIZA ROCHA PORTO & FERNANDO MARTINI: Em um momento decisivo, a soberania energética e o destino nacional se encontram na encruzilhada da tecnologia nuclear
11
Poder de dissuasão
23 Jan 2026 Por JOSÉ MAURÍCIO BUSTANI & PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.: Num mundo de hegemonias em declínio, a dissuasão não é belicismo, mas a condição básica de soberania: sem ela, o Brasil será sempre um gigante de pés de barro à mercê dos caprichos imperiais
12
Hamnet
24 Jan 2026 Por RICARDO EVANDRO SANTOS MARTINS: Entre a fitoterapia de Agnes e a poética de Shakespeare, o filme revela como o saber silenciado das mulheres e o trabalho de luto desafiam a fronteira da morte
13
O exemplo de Sorbonne
29 Jan 2026 Por EVERTON FARGONI: A recusa da Sorbonne aos rankings é um ato de insubordinação: nega a redução do conhecimento a métricas e reafirma a universidade como espaço de crítica, não de produtividade alienada
14
Entradas: fotografias — Um ensaio de antropologia visual
25 Jan 2026 Por ANNATERESA FABRIS: Comentários sobre o livro de Carlos Fadon Vicente
15
O declínio da família no Brasil
21 Jan 2026 Por GIOVANNI ALVES: A explosão de lares unipessoais e a adultescência prolongada são duas faces da mesma moeda: a desintegração da família como infraestrutura antropológica, substituída por uma solidão funcional ao capital financeirizado
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES